Os Extraterrestres Podem Detetar Vida na Terra. Saiba Como.

Desde os gases na atmosfera aos satélites no espaço, a Terra está a enviar vários sinais de que há vida aqui.segunda-feira, 14 de maio de 2018

Enquanto porto de vida do universo, o único conhecido até ao momento, a Terra é, indiscutivelmente, uma rocha estranha. Mas, a anos-luz do nosso sistema solar, outros seres inteligentes, num oásis planetário semelhante, podem estar a olhar na nossa direção, interpretando a nossa existência como um sinal de que não estão sozinhos no universo.

Até aos nossos dias, os astrónomos confirmaram a existência de quase 4000 planetas para além do nosso sistema solar, incluindo alguns que podem reunir as condições necessárias para suportar a vida tal como a conhecemos. À medida que a nossa tecnologia evolui, devemos ser capazes de aprender mais sobre estes mundos e as suas possibilidades de acolher plantas, animais e até mesmo civilizações.

Trailer - One Strange Rock

Tal significa que se os extraterrestres estão algures no espaço, eles podem encontrar-nos com a mesma facilidade.

Primeiro, teriam de descobrir a Terra à distância, seja observando as oscilações do Sol, em virtude da atração gravítica do planeta, seja observando o Sol desvanecer, quando a Terra bloqueia uma minúscula fração da luz solar durante a sua órbita. Nove mundos alienígenas conhecidos podem observar o trânsito da Terra em torno do Sol, tal como nós pudemos observar milhares de planetas alienígenas ofuscando a luz das suas estrelas.

Uma vez descoberto, é provável que o nosso planeta intrigasse os extraterrestres. O nosso Sol é, relativamente, estável, nada propenso a explosões catastróficas, que reduziriam a nossa atmosfera a estilhaços. Além disso, nós estamos, precisamente, na zona habitável do Sol, a área em torno de uma estrela e na qual a água à superfície do planeta pode manter-se em estado líquido.

Cientistas num lugar distante poderão então tentar observar a nossa atmosfera para perceber se os indícios de vida pesam na balança química. Mas do que estarão eles à procura? E serão eles capazes de inferir a existência de vida a biliões de quilómetros de distância?

A VIDA É BASTANTE GASOSA

Se receia que os extraterrestres se apercebam da sua presença, esse receio já vem tarde, pois o navio já zarpou há mais de dois mil milhões de anos. A abundância de oxigénio no nosso planeta é um indício claro de que há vida aqui.

O oxigénio é um elemento extremamente reativo, que se liga a outros átomos e moléculas com tal energia, que se torna difícil encontrá-lo em abundância sozinho, a menos que algo esteja a decompor os compostos ricos em oxigénio e a bombear grandes quantidades de O2. Na Terra, podemos agradecer às plantas fotossintéticas por serem generosas fábricas de oxigénio.

Mas o oxigénio por si só não seria suficiente para que os extraterrestres dessem a nossa existência como certa. “Descobrimos várias formas através das quais o O2 pode acumular-se na ausência de vida,” afirma Stephanie Olson, uma astrobióloga da Universidade da Califórnia, em Riverside. “Elevados níveis de O2 ou processos que conduzam a elevados níveis de O2 podem, na verdade, inviabilizar o aparecimento de vida em certos planetas.”

Para além das moléculas de oxigénio, os astrónomos alienígenas iriam analisar os níveis de nitrogénio, dióxido de carbono, óxido nitroso e metano que compõem a nossa atmosfera. Apenas a presença de vida poderia manter a Terra desequilibrada o suficiente, numa perspetiva química, para que todos estes gases pudessem coexistir nestas proporções.

TERRA COGNITA?

Para além desses indícios químicos, os astrónomos alienígenas, munidos de telescópios, verdadeiramente grandes, poderão até ser capazes de traçar, à distância, o mapa da Terra até às principais áreas urbanas.  

Num artigo publicado no arXiv em 2017, os astrónomos Svetlana Berdyugina e Jeff Kuhn descreveram a forma como os astrónomos poderiam, efetivamente, traçar o mapa das superfícies dos planetas alienígenas a anos-luz de distância. Para obterem uma cartografia rigorosa, eles necessitariam de um telescópio com 40 metros de comprimento, no mínimo, e feito à medida para cumprir uma única função: observar o brilho ténue da luz refletida de um planeta alienígena. As variações da luz refletida, identificadas no curso do tempo, estariam associadas a diferenças regionais no terreno planetário.

“Seria como no Star Trek, o reality show.”

por SVETLANA BERDYUGINA
KIEPENHEUER INSTITUTE FOR SOLAR PHYSICS

Para demonstrar a validade do conceito deste telescópio, designado por ExoLife Finder ou ELF, Berdyugina e Kuhn simularam a imagem que os extraterrestres na vizinhança obteriam da Terra, fazendo uso do telescópio.  A 40 biliões de quilómetros de distância, os extraterrestres poderiam não só traçar o mapa dos continentes da Terra, como também seriam capazes de identificar sinais de vida inteligente.

“O telescópio ELF possui uma sensibilidade que lhe permite obter a imagem de uma bacia em Los Angeles,” afirma Kuhn. “Nós não vemos as luzes, mas vemos as marcas térmicas decorrentes do calor". A equipa, a Planets Foundation, está, atualmente, a construir um telescópio de um só espelho, no Havai, para testar a tecnologia utilizada. Se tudo correr conforme planeado, dizem que será possível construir um telescópio ELF dentro de uma década.  

“Seria como no Star Trek, o reality show,” afirma Berdyugina. “Nós poderíamos, virtualmente, visitar estes planetas.”

INTELIGÊNCIA AVANÇADA

Se existe vida inteligente nas proximidades, a forma mais simples para encontrar terráqueos será estar atento e procurar escutar-nos. No último século, a civilização humana tem emitido sinais da sua existência para o cosmos através de transmissões de rádio. Ocasionalmente, enviámos mensagens deliberadas aos extraterrestres e lançámos para o vazio discos dourados na esperança remota de que os extraterrestres se deparassem com o nosso artefacto espacial interplanetário.

Os extraterrestres não teriam como detetar a nossa presença via rádio, muito menos os nossos discos dourados, a menos que estivessem num perímetro de 950 biliões de quilómetros da Terra. Se as formas de vida inteligente estão a maior distância, os nossos primeiros sinais de rádio ainda não as alcançaram.

Mas, daqui a uns séculos, os extraterrestres inteligentes poderão identificar outros sinais do nosso conhecimento tecnológico. Num estudo aceite, recentemente, pelo The Astrophysical Journal, por exemplo, o astrofísico Hector Socas-Navarro defende que poderíamos descobrir vida inteligente, se procurássemos satélites artificiais que orbitem em torno de mundos alienígenas. E isso significa que os extraterrestres poderiam encontrar-nos de igual modo, recorrendo a métodos idênticos.

Sempre que esse mundo rodeado de satélites vagueasse diante da sua estrela, os seus satélites bloqueariam parte da luz emitida pela estrela tanto à frente, como à retaguarda do planeta em trânsito. Esta cintura metálica teria uma aparência artificial, quando comparada com outros anéis planetários.

Atualmente, a rede de satélites da Terra não é, nem de longe, suficientemente densa para que possa ser detetada, nem o será tão cedo. Mas a nossa pegada no espaço está a crescer exponencialmente. Se continuarmos a lançar satélites ao ritmo atual, afirma Socas-Navarro no seu estudo, os extraterrestres mais próximos, equipados com telescópios tão sofisticados quanto os nossos, poderão detetar os nossos satélites por volta de 2200.

VENTOS DE MUDANÇA

É certo que a Terra tem mais de 4,5 mil milhões de anos e a vida atravessou por várias mudanças ao longo de eras. E se os astrónomos alienígenas tivessem olhado na nossa direção há um bilião de anos?  

Num artigo de 2018 da Science Advances, Olson e os seus colegas simularam as mudanças que a atmosfera terrestre sofreu ao longo dos tempos. Há três mil milhões de anos, os extraterrestres podiam ter inferido a existência de vida na Terra, por via da presença de metano e dióxido de carbono na atmosfera inicial. Mas a nossa atmosfera atual — literalmente, um farol da existência de vida — instalou-se há apenas 500 milhões de anos.

“Durante mais de mil milhões de anos na história da Terra, um astrónomo alienígena poderá ter sido levado a pensar que a Terra seria estéril, apesar de, na altura, começarem a surgir os primeiros indícios de vida nos oceanos,” afirma Olson.

Ainda assim, se os extraterrestres eram seres avançados e estavam, minimamente, empenhados, até mesmo uma Terra, numa fase embrionária, apresentaria fortes indícios de vida, afirma o coautor do estudo Joshua Krissansen-Totton da Universidade de Washington.

“A presença de vida na Terra tem sido razoavelmente óbvia nos últimos 4 mil milhões de anos para todo aquele que possa construir um telescópio suficientemente grande,” afirma numa mensagem por correio eletrónico. “Se existisse algo perverso por aí, então a vida na Terra já teria sido extinta há muito tempo atrás. Creio que será seguro convidar os extraterrestres para uma visita e trocar observações sobre o cosmos.”

Se os extraterrestres forem parecidos connosco, talvez a descoberta de que não estão sozinhos no cosmos não seja o equivalente a uma notícia daquelas de fazer tremer a Terra. Num estudo publicado em Frontiers in Psychology, em fevereiro último, os investigadores descobriram que as pessoas encarariam, com certa tranquilidade, a descoberta de vida extraterrestre.

“As pessoas terão a capacidade de assimilar até mesmo descobertas científicas com grande impacto, sem que os seus mundos desabem,” afirmou na altura o teólogo Ted Peters.

Mas, tal como nós, os extraterrestres podem temer a perspetiva de ter de lidar com seres alienígenas hostis e inteligentes – neste caso, os humanos –, que, numa visita não anunciada, invadam a soleira da sua porta cósmica.

“Isso é óbvio,” acrescentou o autor do estudo Michael Varnum da Universidade Estadual do Arizona, “Eu arriscaria dizer que, se uma armada hostil aparecesse nas proximidades de Júpiter, não ficaríamos lá muito contentes.”

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