No Coração do Recife de Coral das Filipinas

Enquanto os corais de todo o mundo se encontram ameaçados, os do Parque Natural do Recife de Coral de Tubbataha permanecem imaculados. Porquê?quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Por Michael Greshko
Fotografias Por Jennifer Hayes e David Doubilet
Um cardume de xaréu-preto, como um fluxo de prata, sobre os corais num atol na zona sul do Recife de Coral de Tubbataha.
Conteúdo produzido pela National Geographic em parceria com a Rolex, com o intuito de promover a exploração e conservação da natureza. Juntas, irão apoiar exploradores experientes, bem como iniciantes, e ajudar a proteger as maravilhas naturais do nosso planeta.

Estávamos em 1981 quando Angelique Songco, então operadora de um barco de apoio ao mergulho, se maravilhava com o atol que tinha perante si; estava no coração do recife de coral das Filipinas. Nos anos seguintes, testemunhou a forma como a atividade humana tem vindo a afetar as águas do mar de Sulu.

Pescadores da província de Quezon, a cerca de 595 quilómetros de distância, começaram a navegar pelas águas de Tubbataha Reef, uma das áreas que apresentam maior biodiversidade do Planeta – fizeram-no de forma a poderem garantir a sua própria subsistência.

Por causa dos métodos utilizados pelos pescadores (desde pesca com recurso a dinamite, à utilização de cianeto para obrigar os peixes a abandonarem os seus esconderijos nos corais, ficando estes completamente desorientados), os resultados foram absolutamente devastadores. Nos ilhéus junto ao recife de coral, os pescadores capturaram aves marinhas e os seus ovos.

Explore as fotografias do Recife de Tubbataha tiradas por Jennifer Hayes e David Doubilet

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“Sem sequer perceber ao certo a importância ecológica deste ecossistema marinho, fiquei convencida de que tamanha beleza tinha de ser protegida”, disse Songco, em entrevista ao World Wildlife Fund, em 2015.

Em 2001, candidatou-se a um cargo na direção do parque de Tubbataha, uma área protegida desde 1988. Desde então, tem dedicado o seu tempo a proteger o recife de coral. Os seus esforços foram recompensados: enquanto os corais de todo o mundo se encontram ameaçados, os do Parque Natural do Recife de Coral de Tubbataha permanecem surpreendentemente imaculados.

“A primeira coisa de que nos apercebemos é que estamos no domínio da natureza marinha, completamente rodeados pela vida selvagem”, afirmam os fotógrafos da National Geographic David Doubilet (que também é embaixador da Rolex) e Jennifer Hayes, que visitaram o recife em maio de 2017. “Num sítio como este, encontramos o mar e a vida marinha nos seus próprios termos, não nos nossos.”

Aqui, junto a uma parede de corais subaquática, reina o caos da natureza. Os cardumes de xaréus são deslumbrantes; e as raias, exemplares de tremelga-marmoreada, patrulham as profundezas. Os tubarões-tigre, geralmente tidos como predadores solitários, são avistados a nadar em grupo.

No total, são cerca de 600 as espécies de peixes e 360 as de corais que encontram em Tubbataha um lar. Os ilhéus do parque constituem o último abrigo para aves marinhas nas Filipinas, albergando cerca de 100 espécies diferentes.

Dois peixes-palhaço aninham-se numa anémona em Tubbataha.

“Todos os sinais indicam que o recife de coral Tubbataha está muito próximo daquilo que acreditamos ser o seu estado natural”, diz-nos John McManus, biólogo marinho da Rosenstiel School, Universidade de Miami. “O que aconteceu aqui foi algo absolutamente extraordinário.”

PROTEGER UM TESOURO NATURAL

As tréguas estabelecidas entre os humanos e a natureza em Tubbataha destacam-se especialmente no Triângulo de Coral, uma região do sudeste asiático rica em biodiversidade, onde a pesca e o tráfego fluvial são cada vez mais intensos.

Como é que Tubbataha evitou ter o mesmo destino que os outros recifes, intensamente afetados pela atividade humana? Tubbataha situa-se perto do centro do mar de Sulu, a mais de 145 quilómetros das ilhas habitadas mais próximas. Nenhum dos seus ilhéus tem água doce.

Explore Um Dos Recifes de Coral Mais Preservados do Mundo
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7 Novembro, 2017 - Este é um dos recifes mais preservados do Mundo - e um dos que apresenta maior biodiversidade. O Recife de Tubbataha é a casa de mais de 600 espécies de peixe, 13 espécies de baleias e golfinhos e 360 espécies de coral. A localização mais isolada do recife junto com o trabalho de preservação que é feito, faz com que ainda esteja praticamente imaculado.

No entanto, nos anos 80, os pescadores locais começaram a usar barcos motorizados, conhecidos como bangkas, para pilharem as águas riquíssimas daquela região como nunca antes. Enquanto os pescadores dizimavam a fauna e flora do recife, ativistas fizeram pressão junto do governo filipino para que fosse tomada uma atitude.

Em 1988, o presidente Corazon Aquino nomeou Tubbataha como parque nacional marinho – o primeiro na história das Filipinas. Cinco anos mais tarde, foi reconhecido como Património da Humanidade pela UNESCO.

As declarações feitas em Manila e em Paris de pouco valem se não for tido em conta o centro do mar de Sulu. É aí que entra Songco. Ao longos dos últimos 16 anos, tem trabalhado no sentido de desenvolver um apoio público ao recife, atraindo atenções enquanto figura pública que McManus compara a uma fada madrinha.

Songco também tem a lei do seu lado. O governo das Filipinas proibiu a pesca em Tubbataha e, em parceria com a UNESCO, desenvolveu recentemente proteções adicionais contra a navegação naquelas águas. E mais, os guardas que vigiam o parque, alguns deles militares, têm protegido o parque desde 1995. Fazem missões de dois meses, nas quais vivem em Tubbataha em isolamento total e apenas com uma pequena porção de areia e uma plataforma de cimento ligeiramente acima do nível da água à sua disposição.

Estes esforços extraordinários salvaguardam o excelente estado de conservação do parque. Considerado um dos melhores locais para se fazer mergulho, atrai turistas que constituem uma receita muito superior à que a pesca naquela região poderia trazer. O turismo gera aproximadamente metade da receita que constitui o financiamento do parque, sendo que os acordos de repartição de receitas ajudam a financiar o governo local. 

Tubbataha também ajuda a indústria piscatória do recife de coral das Filipinas, que contribui com 29% da produção piscatória do país. Segundo um biólogo da Silliman University, Angel Alcala, as correntes oceânicas transportam grandes quantidades de larvas marinhas de Tubbataha e ao longo de todo o mar de Sulu, ajudando assim a repor a fauna e garantindo a segurança alimentar do país.

AMEAÇAS FUTURAS?

Um xaréu-preto nada debaixo de uma tartaruga-verde enorme junto a um atol localizado a norte, no recife de Tubbataha.

Apesar do sucesso do projeto Parque Nacional de Tubbataha, ainda há desafios e obstáculos a contornar. Os guardas continuam a encontrar ninhos de aves construídos com vestígios de plásticos, e apesar do declínio, a pesca ilegal persiste. Desde 2013, Tubbataha tem tentado recuperar de um acidente com um navio da marinha norte-americana que encalhou nas suas águas, tendo danificado mais de 1950 metros quadrados do recife.

Infelizmente, nem os guardas nem os demais responsáveis pelo parque, podem evitar os efeitos das alterações climáticas. O mar de Sulu vai continuar a aquecer e a ficar mais ácido, colocando o recife de coral à mercê de condições extremamente hostis. Entre 2014 e 2017 – os piores anos no que se prende com descoloração dos recifes de coral jamais registados –, Tubbataha enfrentou dois tumultuosos anos, após décadas de relativa calma.

Infelizmente, acredita-se que as ameaças motivadas pelas alterações climáticas tendam a agravar-se. Um relatório da UNESCO prevê que, até 2040, o recife de coral enfrentará períodos de grande perturbação, por causa do aquecimento das águas, pelo menos duas vezes por década. Se não reduzirmos as emissões de carbono rapidamente, este tipo de perturbações poderá afetar Tubbataha todos os anos até 2040, o que poderá representar uma sentença de morte para aquele ecossistema.

Por agora, Tubbataha resiste, firme e de boa saúde. Trata-se de um verdadeiro forte marinho, cujos guardas – maravilhados com a sua beleza — defenderão até ao fim.

“Faltam-me as palavras para descrever a tremenda beleza deste lugar”, afirma Fanny Douvere, diretora do World Heritage Centre Marine Programme da UNESCO. “Uma fotografia jamais seria capaz de capturar a experiência que se vive neste local.”

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