Como Sobrevivem os Corais aos Oceanos Ácidos

sexta-feira, 2 de março de 2018

Por Ed Yong
Como Sobrevivem os Corais aos Oceanos Ácidos

As alterações climáticas não se limitam ao aquecimento da superfície e ao derretimento dos glaciares. O dióxido de carbono que a atividade humana está a enviar para a atmosfera também se dissolve nos oceanos da Terra, aumentando lentamente a sua acidez ao longo do tempo, o que é um problema para os corais.

Os corais podem parecer rochas imóveis, mas estas sólidas fortalezas são o lar de animais de corpo mole. Aquelas criaturas — os pólipos de corais — constroem os seus enormes recifes de carbonato de cálcio usando iões de carbonato retirados da água circundante. Mas quando os níveis de pH da água baixam, estes iões começam a desaparecer e os corais começam a ficar sem o cimento químico que sustenta os recifes. Isto significa que na água ácida os corais têm dificuldades em contruir as suas casas.Os cientistas preveem que, se os níveis de dióxido de carbono duplicarem, a capacidade de construção de recifes dos corais do mundo inteiro pode reduzir-se em 80%. Se os corais não os conseguirem reconstruir com a rapidez necessária para acompanhar os processos naturais de decomposição e erosão, os recifes irão começar a desaparecer.

Como Sobrevivem os Corais aos Oceanos Ácidos

Agora, Maoz Fine e Dan Tchernov, do Instituto Interuniversitário de Ciência Marinha de Israel, descobriram que os corais têm uma forma de lidar com a falta de abrigo. Fine e Tchernov criaram alguns fragmentos de duas espécies europeias de corais em condições mediterrânicas normais e outros em água ligeiramente mais ácida: apenas mais 0,7 unidades de pH.

Os que passaram um mês no aquário ácido transformaram-se rapidamente. O esqueleto dissolveu-se e a colónia separou-se. Os pólipos expostos e solitários, semelhantes a pequenas anémonas marinhas, mantiveram-se acoplados a superfícies rochosas. Água ácida em coral duro, tanto bate até que ele amolece.

Mesmo sem os esqueletos protetores, os corais sobreviveram durante mais de um ano e, aparentemente, continuaram a viver como sempre como dantes. Cresceram, reproduziram-se normalmente e mantiveram a relação simbiótica com as algas que lhes permite produzir energia por fotossíntese. E quando foram colocados de novo em condições normais, abdicaram imediatamente da sua independência e voltaram a formar colónias e conchas duras.

As conclusões de Fine e Tchernov dão a entender que os corais podem ser capazes de sobreviver às alterações climáticas que se aproximam adotando corpos moles e estilos de vida independentes. E existem evidências de que já usaram este truque no passado. As conchas duras dos recifes de coral fossilizam facilmente, mas o registo fóssil ainda conta com enormes espaços onde não foram encontrados recifes, o que pode representar períodos em que os corais se mantiveram algum tempo na fase de corpo mole.

Mas, embora esta nova descoberta seja motivo de esperança, não deverá dar azo a contemplações. Ainda que os corais possam subsistir com um novo formato, a vasta diversidade de espécies que depende deles pode desaparecer para sempre se os recifes se extinguirem.

Referência:  Fine e Tchenov. 2007. Scleractinian coral species survive and recover from decalcification. Science 315: 1811.

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