Em Busca da Luz do Dia – Pequenos Localizadores Revelam os Planos de Voo Incríveis da Andorinha-do-Mar-Ártica

quarta-feira, 7 de março de 2018

Por National Geographic
Em Busca da Luz do Dia – Pequenos Localizadores Revelam os Planos de Voo Incríveis da Andorinha-do-Mar-Ártica

Acabei de fazer um voo entre Londres e a Carolina do Norte, uma viagem de cerca de 6.200 km. No que toca a voos, é algo patético, um mero saltinho em comparação com a viagem épica da andorinha-do-mar-ártica. Todos os anos, o maior dos viajantes animais faz uma viagem de ida de volta de 70 mil quilómetros, numa busca incansável e à volta do mundo pela luz do dia. No verão, passa o tempo no Ártico banhado pelo sol e, no inverno, dirige-se para os climas igualmente luminosos da Antártida. No seu tempo de vida (que ronda os 30 anos), esta espécie campeã aeronauta voa mais de 2,4 milhões de quilómetros - o equivalente a três viagens de regresso à lua.  

A maratona de voo da andorinha-do-mar-ártica é algo familiar, mas estimar a duração de um percurso enorme não é tarefa fácil. Seria caridoso perdoar os cientistas por errarem, uma vez que tiveram de se basear em observações a partir do mar e na captura de aves identificadas com pulseiras em locais diferentes. Mas poucos poderiam ter previsto o quão errados estão os números nos livros. Normalmente, os livros sugerem que esta ave voa 40 mil quilómetros por ano. A andorinha-do-mar-ártica deveria sentir-se insultada: na verdade, voa quase o dobro.

O seu verdadeiro itinerário foi revelado apenas através da utilização de pequenos dispositivos localizadores. Máquinas semelhantes já revelaram os planos de viagem de aves marinhas de maior dimensão como os albatrozes, petréis e pardelas. Mas estas engenhocas têm sido demasiado grandes e volumosas para prender a pequenas aves - amarrar um gravador com 400 gramas a uma ave de 100 gramas não nos vai dar uma imagem precisa das suas capacidades de voo.

Carsten Egevang, da Universidade de Aarhus, Dinamarca, mudou tudo isso ao desenvolver pequenos geolocalizadores com menos de 1 grama de peso. Estes localizadores conseguem localizar os movimentos das aves migratórias através da gravação da quantidade de luz que recebe em diferentes pontos do percurso, tendo já sido batizados ao gravarem toda a migração dos passeriformes. Egevang amarrou estes localizadores às patas de 50 andorinhas-do-mar-árticas e conseguiu recuperar 11 deles na estação seguinte, quando as aves regressaram.

A migração rumo a sul é a parte mais difícil do percurso. No final da época de acasalamento, as andorinhas partem da Gronelândia e Islândia e rumam a sudoeste para uma paragem que desconhecíamos. Esta paragem fica no meio do Atlântico Norte, onde as águas ricas em alimento do norte unem-se a remoinhos mais quentes mas menos produtivos oriundos do sul. As andorinhas-do-mar-árticas passam uma média de três a quatro semanas neste local entre agosto e setembro, recuperando energia antes de rumar a sudeste, para África.

Todas as aves seguem o mesmo percurso até chegarem ao arquipélago de Cabo Verde, ao largo de África Ocidental, onde se dividem em dois grupos. Um grupo continua a abraçar a costa africana, ao passo que outro atravessa o Atlântico e segue a curva do Brasil. A cerca de 40º a sul, ambos os grupos mudam de um voo meridional para movimentos este/oeste mais atribulados, sendo que alguns chegam mesmo a alcançar o Oceano Índico.

Em novembro, já todos chegaram ao seu destino. Em média, demoram 93 dias a consegui-lo, apesar das aves mais rápidas conseguirem o feito em apenas 69 dias. E são recompensadas pelo esforço. A luz solar perpétua começa a banhar a costa da Antártida, dando às aves oportunidades infinitas de mergulhar nos mares locais férteis em busca de krill e outro alimento. Permanecem neste local durante vários meses e, por volta de inícios/meados de abril, está na altura de rumar novamente a norte.

Esta viagem é mais direta. Abastecidas de energia fornecida pelo krill e com a ajuda de ventos favoráveis, as andorinhas-do-mar-árticas percorrem uns espantosos 500 km por dia e tal dá origem a cerca de 40 dias, em média, para regressarem em casa. As aves evitam as rotas perto da costa e privilegiam o voo sobre águas profundas. Voam de forma sinuosa pela atmosfera, rumando à extremidade sudoeste de Árica, cruzando o Atlântico, e regressando ao mesmo ponto de passagem no Atlântico Norte que utilizaram no seu percurso rumo ao sul. Chegam finalmente a casa, no Ártico, em maio, exaustos e preparados para procriar. 

A andorinha-do-mar-ártica é, decididamente, a mais competente das aves migratórias mas não é, de todo, a única. Muitas aves nidificam no alto Ártico apenas para viajarem para mais a sul durante o inverno. Mas a migração não é tarefa fácil: é uma ultramaratona que absorve energia e expõe as aves a condições meteorológicas extremas. Muitas aves morrem durante o percurso e até as que sobrevivem têm de lidar com o ambiente extremo do Ártico, tendo também de ser fortes o suficiente para conseguirem reproduzir-se neste ambiente.

Porquê realizar tais viagens épicas? Devem existir vantagens verdadeiramente enormes associadas a um destino final mais setentrional para compensar tais custos significativos. Estudos prévios realizados obtiveram duas respostas: latitudes superiores significam menos parasitas e quanto maior for o tempo de luz solar, maior será o tempo que as aves têm para reunir o alimento de que necessitam. Mas as aves ainda podem desfrutar destas vantagens se pararem mais a sul, no sub-ártico, cortando significativamente o tempo das suas viagens e reproduzindo-se em climas mais favoráveis.

Agora, Laura McKinnon da Universidade do Quebeque tem uma terceira resposta que poderá explicar a reta final mais a norte: é mais segura. McKinnon estudou a influência dos predadores num estudo que incluiu todo o continente. Montou mais de 1500 ninhos artificiais em locais de procriação por todo o Canadá, desde latitudes sub-árticas de 53º, até ao alto Ártico a 83º.

Estudar a predação é uma tarefa complicada. As aves progenitoras podem compensar a ameaça de mandíbulas esfomeadas através da criação de defesas vigorosas, recorrendo à camuflagem ou reproduzindo-se em momentos oportunos. Este tipo de variáveis iria normalmente atordoar uma experiência deste tipo, mas os testes artificiais de McKinnon permitiram-lhe afastar todas as distrações e focar-se na localização, localização, localização.

McKinnon descobriu que a procriação a um grau de latitude acima reduz a probabilidade de as aves serem comidas. Na experiência, 29 graus separaram os locais de reprodução mais a norte e mais a sul - que se traduziu num risco 65% inferior de ser "jantar" de predadores. Trata-se de uma vantagem enorme pelos padrões de qualquer ave, mas tal pode verdadeiramente compensar o custo em termos de energia associado à migração? Essa é uma pergunta para outro estudo.

Referências: Egevang et al. 2010. Tracking of Arctic terns Sterna paradisaea reveals longest animal migration. PNAS http://dx.doi/10.1073/pnas.0909493107

Mckinnon et al. 2010. Lower Predation Risk for Migratory Birds at High Latitudes. Science http://dx.doi.org/10.1126/science.1183010

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