Serão as Expedições ao Polo Norte uma Coisa do Passado?

A diminuição do gelo no Ártico está a tornar as viagens polares quase impossíveis, diz o autor e aventureiro Eric Larsen no seu novo livro sobre aquela que pode ter sido a última expedição a pé ao polo.Friday, March 2, 2018

Por Avery Stonich
ver galeria

Imagine fazer a coisa mais difícil que fez na vida durante 50 dias consecutivos. Uma expedição ao Polo Norte é algo parecido. E é ainda mais difícil fazê-lo agora do que era há seis anos — pelo menos a acreditar em Eric Larsen, que caminhou até ao topo do planeta três vezes. E Larsen pode ser a última pessoa a concluir esta desgastante empreitada, que narra no seu novo livro: On Thin Ice: An Epic Final Quest Into the Melting Arctic.

O Ártico está a aquecer, tornando as viagens polares quase impossíveis. Em 2014, Larsen e o seu parceiro, Ryan Waters, esquiaram, caminharam e nadaram 480 milhas náuticas de Cape Discovery, na Ilha de Ellesmere, no Canadá, até ao Polo Norte, carregando todos os suprimentos em trenós puxados pelos próprios. O frio enregelava os ossos. O gelo fino e flexível cedia aos seus esquis e, às vezes, partia, fazendo-os mergulhar na água, que era tão fria que atingia temperaturas negativas. Montes caóticos de gelo tornavam cada quilómetro dolorosamente lento. Por vezes, aparecia-lhes gelo sob os pés como de pedras de gelo num cocktail se tratasse. Foi o cúmulo do sofrimento.

O livro, que Larsen coescreveu com Hudson Lindenberger, conta a história de forma minuciosa e cativante. É pungente desde a sequência de abertura, que relata o dia em que os dois deram de caras com um urso-polar, até às últimas páginas, que relata os dez metros finais e as muitas dificuldades que tiveram em percorrê-los. Larsen espera que o livro venha a chamar a atenção para os efeitos das alterações climáticas, que estão a acontecer mais rapidamente no Ártico do que em qualquer outro local.

"O que está a acontecer no Ártico é, na verdade, o que está a acontecer no planeta", escreve Larsen. "A diferença da qualidade do gelo em comparação com a minha expedição anterior ao local [em 2010] foi perturbadora."

O Oceano Ártico é uma tessitura que se expande e contrai com a estações. O Polo Norte não é uma porção de terra; é apenas um ponto geográfico que está frequentemente gelado.

Este ano a extensão de gelo no oceano Ártico atingiu mínimos recorde. Em março de 2016, o gelo atingiu um máximo de nove milhões de quilómetros quadrados, o máximo mais baixo de que há registo (muito inferior à média do período 1981-2010). O mínimo de setembro daquele ano foi semelhante ao de 2007 — uma extensão mínimo recorde de 2,57 milhões de quilómetros quadrados de gelo. (A média de 1981–2010 foi de 3,9 milhões de quilómetros quadrados.) Desde o início dos registos por satélite, em 1978, os dez mínimos  ocorreram depois de 2015. E outubro e novembro de 2016 assistiram a mínimos recorde para esta altura do ano.

"Vamos continuar a perder gelo", assevera Mark Serreze, diretor do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo (NSIDC — National Snow and Ice Data Center) em Boulder, no Colorado, e especialista em assuntos climáticos do Ártico relacionados com o gelo. "A questão é se chegará o momento em que não haverá gelo suficiente para podermos chegar ao Polo Norte?"

O que afeta as expedições não é apenas a extensão do gelo, mas também a sua qualidade. O gelo plurianual é espesso e forte. Cristas de pressão gigantes — formações altas decorrentes da acumulação de gelo — são intercaladas por camadas de solo planas que são mais fáceis de atravessar. O gelo novo é fino e imprevisível. Desloca-se constantemente com as correntes e o vento, gerando fendas — os chamados canais — e grandes pedaços de gelo bruto.

Uma animação publicada pela NASA mostra a forma como o gelo do Ártico está a diminuir à medida que o gelo mais jovem e mais fino substitui o gelo espesso plurianual. Segundo Serreze, isto significa que a camada de gelo se está a tornar mais móvel e dinâmica — um pesadelo para expedições polares.

Larsen nota isto no livro: "É como se alguém tivesse desligado a ficha e todo o gelo que antes se mantinha compacto estivesse agora a começar a dispersar."

Quando Larsen e Waters estavam a 10 metros do Polo Norte, o gelo sob os seus pés estava a desmoronar-se e a afastar-se do polo muito rapidamente. Em vez de andar, tiveram de correr. No dia 6 de maio de 2014, chegaram ao Polo Norte, tornando-se a 46.ª e a 47.ª pessoas a completar uma caminhada sem ajuda. E poderão ser os últimos.

"Para quem viaja sem ajuda por terra, as hipóteses são diminutas devido à alteração das condições de gelo e ao facto de a logística ser muito mais difícil", diz Larsen.

E quanto mais o gelo derrete, mais o gelo derrete.

À medida que o gelo derrete, a sua superfície refletora é substituída pela água escura do oceano, que atrai mais radiação solar. Este fenómeno gera calor, que derrete ainda mais gelo. Ao mesmo tempo, os oceanos do planeta estão a aquecer, o que também acentua o derretimento. Esta retroalimentação positiva torna o Ártico mais sensível às alterações climáticas do que qualquer outro local no mundo.

"A perda da camada de gelo no oceano Ártico contribui para o padrão de aquecimento através destes efeitos de retroalimentação", diz Serreze. "É um fenómeno a que estamos a assistir atualmente e a que chamamos amplificação do Ártico. O maior aquecimento está a acontecer presentemente no Ártico, pelo que o Ártico está a acentuar as alterações climáticas."

No inverno passado, as temperaturas do Ártico estiveram 2,2 a 6,1 graus Celsius acima da média. O aquecimento do Ártico é um sinal de alerta para as alterações climáticas globais e a maioria dos cientistas considera que o comportamento humano é um dos principais culpados da situação.

"A única coisa que levou a alterações nas temperaturas no oceano, nas temperaturas ao longo do Ártico, nas temperaturas ao longo do Hemisfério Norte, na camada de neve no Hemisfério Norte, no derretimento de gelo no Gronelândia... a única explicação para tudo isto é a retenção do calor devido aos gases de efeito de estufa, a maioria dos quais produzidos pelos seres humanos. Não há outra explicação", diz Ted Scambos investigador principal da NSIDC.

Um estudo de Dirk Notz e Julienne Stroeve publicado no mês passado na revista Science sublinha este ponto, demostrando que a perda de gelo do oceano Ártico está diretamente relacionada com o aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.

Para quem pretende fazer uma viagem por terra para o Polo Norte, começar na América do Norte é a opção com mais possibilidades de êxito. A circulação atmosférica empurra naturalmente o gelo para a faixa costeira canadiana e para o norte da Gronelândia, criando gelo mais espesso nesta região.

Sebastian Copeland, fotógrafo galardoado e explorador polar, espera superar estes obstáculos no próximo ano. Copeland anunciou que em fevereiro de 2017 irá tentar uma caminhada sem ajuda a partir do norte do Canadá, numa expedição a que chama a Última Grande Marcha.

Copeland tem a vantagem de ter bolsos recheados, o que lhe permite contratar um piloto privado para o levar e ir buscar. O serviço mais procurado em expedições anteriores foi o da Kenn Borek Air, uma pequena companhia área sediada em Calgary que anunciou em 2014, depois da expedição de Larsen e Waters, que não iria continuar a apoiar expedições ao Polo Norte. Os pormenores sobre esta decisão são escassos e a companhia aérea recusou fazer comentários para este artigo.

A janela para expedições também está a encolher, uma vez que o gelo do Ártico está a começar a derreter mais cedo todos os anos. Larsen demorou 53 dias, conseguindo uma média de apenas 4,6 km por dia nas primeiras três semanas. Ele e Waters chegaram finalmente ao polo depois de um último esforço, durante o qual minimizaram as horas de sono e maximizaram o movimento, percorrendo 42 km em dois dias. Copeland leva comida para 55 dias, além de rações de emergência suficientes para cinco dias. A qualidade do gelo será um fator determinante para a velocidade com que viajará.

Mas, além de querermos uma superfície melhor para as expedições polares, porque haveremos nós de nos preocupar com o derretimento do gelo do Ático? O aquecimento do Ártico pode alterar a circulação do oceano, o que tem efeitos globais.

"Existe a possibilidade de que esta perda de gelo no oceano afete coisas como os padrões climáticos nas regiões de latitude média", afirma Serreze. "Perde-se a camada de gelo no mar, o que ajuda ao aumento do aquecimento no Ártico e pode afetar os padrões climáticos fora do Ártico."

Aumento das temperaturas, inundações e secas mais frequentes e eventos climáticos extremos são algumas das ramificações possíveis da perda do efeito suavizador do Ártico sobre as temperaturas globais. Entre os possíveis efeitos em cadeia contam-se o aumento do nível dos mares, o desaparecimento de corais, a alteração dos padrões de habitat e migração dos animais e a alteração dos períodos de crescimento das culturas agrárias.

E embora possamos ser tentados a apontar o dedo ao Ártico por contribuir para o aquecimento do planeta, o Ártico está apenas a responder ao que está a acontecer no resto do mundo e a acelerar os processos.

Para Larsen e Copeland, as expedições tornaram-se uma plataforma para consciencialização global sobre a forma como o Ártico e o clima global estão a mudar. Como Larsen afirma no livro: “The Arctic Ocean is no place for optimism.” Referia-se às viagens aos polos, mas poderá dizer-se o mesmo sobre o aquecimento global.

Será que Larsen ficará na história como a última pessoa a caminhar para o polo Norte? Ou será Copeland? "Se não for eu, será ele", diz Larsen.

Continuar a Ler