Perpetual Planet

Vento, Frio e Doença de Altitude: O Inverno no Polo Sul

Friday, March 2

Por Kat Long
Sven Lidström tira uma selfie em frente ao IceCube Neutrino Observatory durante um inverno na Antártida.

Neste preciso momento, uma arriscada missão de salvamento está alutar contra o tempo e as condições adversas para salvar um trabalhador doente no Polo Sul. Ventos perigosos, frio implacável e uma escuridão constante torna os voos para a Antártida extremamente raros nesta altura do ano. Mas as condições climatéricas brutais são uma previsão familiar para a pequena equipa de cientistas que permanece na estacão Amundsen-Scott no Polo Sul durante o inverno.

Sven Lidström, coordenador de operações do Instituto Polar Norueguês, esteve lá. Na qualidade de engenheiro que ajudou a construir o IceCube Neutrino Observatory ao efetuar furos de 2500 metros de profundidade na camada de gelo da Antártida para alojar sensores óticos, Lidström passou então o inverno de 2012 a recolher dados revolucionários a partir do espaço. Participou em mais de 20 expedições à Antártida (e igual número ao Ártico). No entanto, Lidström desloca-se atualmente para as estações de pesquisa norueguesas, Troll e Tor , apenas durante a época de verão. "Os invernos são muito rigorosos", afirma.

Lidström falou com a National Geographic Adventure sobre as dificuldades únicas, perigos médicos e camaradagem entre a equipa a 90° sul.

Quais são alguns dos desafios para as aeronaves ao aterrar ou descolar na Antártida?

Durante o verão, existem voos praticamente diários para a estação McMurdo, se as condições meteorológicas o permitirem. Durante o inverno, não há voos. Foi-nos dito que era "impossível" e que a nossa única opção seria um lançamento aéreo com mantimentos, caso acontecesse algo. Existem alguns riscos importantes associados aos voos de inverno - as temperaturas extremas, a escuridão e a meteorologia. O combustível utilizado, o AN-8, transforma-se em gel aos - 60º C, passando de um fluido para uma forma sólida. Tudo o que entra e sai dos aviões fica extremamente rígido e frágil.

Qual foi o intervalo de temperaturas que sentiu normalmente e qual foi a temperatura mais baixa sentida?

A média anual ronda os - 50º C. As temperaturas normais de inverno situam-se entre os - 60º C e - 70º C. A temperatura mais baixa que senti foi - 78º C sem contar com o vento. Se incluirmos o vento gelado, equivale a - 100º C!

Qual é frequência de nevões, tempestades de neve e outros eventos meteorológicos perigosos?

Normalmente, o tempo no polo é bom. Está quase sempre vento mas não existem grandes tempestades nem nevões como acontece na costa. O mau tempo pode durar dias.

Sven Lidström no Polo Sul, com a estação Amundsen-Scott em pano de fundo.

Existe alguma luz da lua ou estrelas durante os meses de inverno ou está tudo totalmente escuro?

Se o tempo estiver bom, é possível ver a lua e as estrelas, bem como as auroras, que são espetaculares. Tentamos fazer o máximo de trabalho possível no exterior quando se vê a lua, uma vez que não existe iluminação exterior exceto algumas luzes vermelhas nos edifícios como auxílio de navegação. Sinalizamos todos os percursos utilizados no inverno com uma bandeira a cada 10 metros ou menos para encontrarmos o caminho no escuro. Por vezes, é impossível ver as bandeiras mas ouvimo-las bater ao vento.

A elevação (cerca de 2800 metros acima do nível do mar) afeta as condições meteorológicas no Polo Sul?

Não temos os mesmos ventos catabáticos que existem em altitudes inferiores ao longo da costa na Antártida. O tempo no polo (e em qualquer local no planalto antártico) é, na verdade, melhor do que na costa - ou, pelo menos, menos ventoso. Mas a altitude torna-o mais frio do que é nas altitudes inferiores. O planalto antártico é o local mais frio da Terra. E é mesmo muito frio no inverno!

Que tipo de equipamento, vestuário e outros itens trouxe consigo para passar o inverno? Os elementos da equipa têm um limite de peso relativamente aos itens que podem levar?

Recebemos todo o equipamento de que precisamos no Centro de Distribuição de Vestuário (CDC) do Programa Antártico dos EUA, em Christchurch, Nova Zelândia, antes de viajar. Vestimo-nos por camadas e existem muitas camadas se estiverem - 70º C lá fora. Se bem me recordo, o limite total de peso era de cerca de 63 kg para quem passa o inverno. Mas, sinceramente, não é preciso tanto: vivemos e trabalhamos com as mesmas roupas quando lá estamos. Também temos um conjunto completo de equipamento adicional mantido fora da estação caso algo aconteça à mesma.

Que tipo de problemas médicos ocorreram normalmente na estação e como lidaram com as emergências?

Doença de altitude, queimaduras de frio e ferimentos normais relacionados como trabalho são os mais comuns. Durante o inverno, também podem ocorrer problemas psicológicos e depressão. Existiram várias emergências médicas e todas foram geridas de forma muito correta. O Programa Antártico dos EUA inclui bons procedimentos para lidar com estas situações. Não teria passado lá o inverno se não me sentisse confiante com as capacidades no interior da estação. As diferentes equipas de emergência treinam conscientemente para lidar com várias situações.

Dito isto, antes da passagem do inverno, somos informados acerca do ambiente extremo e isolamento e é afirmado, de forma clara, que não se deve esperar qualquer ajuda do exterior caso algo aconteça. O facto de estarem atualmente a tentar uma evacuação em pleno inverno significa que é uma situação bastante grave, uma vez que irá por em risco a vida de terceiros. A Antártida é um continente implacável e os invernos são extremos, em todos os sentidos. Não existe praticamente margem para erro.

O que fez para passar o tempo quando não estava a trabalhar?

Trabalhamos muito mas, para além disso, fizemos a formação para as diferentes equipas de emergência, exercício físico (sim, existe um ginásio), vemos filmes e lemos. Existe uma biblioteca, sala de música e sala de trabalhos manuais. É possível estar bastante ocupado, se assim o quisermos.

Sentiu que estava sozinho até que o inverno passasse?

Não nos sentimos sós. Temos a equipa inteira connosco, que ficamos a conhecer muito bem. Demasiado bem, dizem alguns!

O facto de o sol não nascer durante seis meses é muito difícil para muitas pessoas. Sentimo-nos decididamente isolados do resto do mundo. Um colega referia bastante o "Planeta Antártida" e, de certa forma, parece mesmo que estamos noutro planeta que não a Terra.