Pequenos Felinos: Conheça o Mundo Destes Extraordinários Predadores

Esquivos, obscuros e eclipsados em popularidade pelos seus primos mais corpulentos, os pequenos felinos são predadores extraordinários e eficazes.quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Por Christine Dell'Amore
Fotografias Por Joel Sartore

"Ela está muito perto" sussurra Germán Garrote, apontando para um recetor portátil que está a captar o sinal de Helena. Algures neste olival ao lado de uma movimentada autoestrada do sul de Espanha, a fêmea de lince-ibérico e as suas duas crias estarão a observar-nos. Não fosse a coleira radioemissora e nunca saberíamos que um dos felinos mais raros do mundo está encolhido entre os renques de árvores à nossa volta. Com cinco anos, Helena aprendeu a embrenhar-se na paisagem humana. Um dia, durante uma ruidosa festa de celebração da Semana Santa, chegou até a esconder-se, juntamente com as crias recém-nascidas, numa casa vazia.

"Há dez anos, não imaginávamos que o lince se iria reproduzir num habitat como este", diz Garrote, biólogo do projeto Life+Iberlince, um grupo de 20 organizações que trabalham sob orientação governamental no sentido de trazer este predador malhado de volta à Península Ibérica. Debaixo de um calor abrasador e com o movimento rápido do trânsito nas nossas costas, Garrote diz-me que o futuro do felino é viver em áreas fragmentadas. "O lince tem mais plasticidade ecológica do que pensávamos", afirma.

De facto, o felino de olhos cor de âmbar e espessa barba começou finalmente a recuperar após décadas de declínio. Quando, em 2002, a Iberlince começou a sua intervenção no sentido de salvar o lince, havia menos de cem destes felinos espalhados pelas matas mediterrânicas, uma vez que a população vinha sendo dizimada pela caça e por um vírus que quase eliminou da região o coelho-bravo, a principal presa do lince. A população de linces chegou a ser tão reduzida, que a diversidade genética se tornou perigosamente baixa, e estes animais ficaram mais vulneráveis a doenças e malformações congénitas.

Felizmente para os cientistas, os linces reproduzem-se bem em cativeiro e, desde 2010, foram cuidadosamente reintroduzidos 176 animais em habitats selecionados.  A maioria dos felinos foi criada em quatro centros de reprodução e num jardim zoológico, e todos eles foram equipados com coleiras radioemissoras. Sessenta por cento dos linces reintroduzidos na natureza sobreviveram e alguns ultrapassaram as expetativas.

Dois linces fizeram uma “espetacular travessia da Península Ibérica”, tendo cada um percorrido mais de 2400 km até um novo território, conta-nos o biólogo Miguel Simón, diretor do programa de reintrodução. A equipa trabalha de perto com os proprietários privados de terras para conquistar a sua confiança e convencê-los a acolher o lince nos seus terrenos. Em 2012, ano em que a população de linces atingiu os 313 espécimes — aproximadamente metade dos quais com idade suficiente para acasalar —, a União Internacional para a Conservação da Natureza atualizou o estatuto do lince, que passou de espécie em perigo crítico para espécie em perigo.

Não muito longe do olival, abrigo-me num túnel de escoamento que passa por baixo da autoestrada e proporciona alguma sombra. Os automóveis e os camiões são os principais responsáveis pela morte do lince, pelo que Simón e a sua equipa colaboram com o governo para alargar estes túneis de forma a permitirem a passagem dos animais. Simón agacha-se e aponta para as pegadas de um animal na areia. Uma delas pertence a um texugo, diz, mas a outra é de uma pata de lince! Helena pode ter passado por aqui há poucos minutos.

Voltamos para o sol e pergunto a Simón o que pensam os espanhóis do felino nativo do seu país. Simón faz uma pausa surpreendido com a pergunta. Toda a gente conhece o lince-ibérico, afirma. É uma figura nacional muito estimada.

Não é o que acontece com a maioria dos parentes do lince. Das 38 espécies de felinos selvagens do mundo, 31 são consideradas de pequeno porte. Com tamanhos que variam entre os 1,5 kg do gato-vermelho-malhado e os 20 kg do lince-europeu, estes felinos habitam cinco dos sete continentes do mundo (as exceções são a Oceânia e a Antártida) e estão extraordinariamente bem adaptados a uma grande variedade de ambientes naturais — e, cada vez mais, a ambientes não naturais —, como sejam os desertos, as florestas tropicais e os parques urbanos. Infelizmente, estes membros menores da família Felidae também vivem obnubilados pela larga sombra projetada pelos seus primos de maior envergadura: os grandes felinos — leões, tigres, leopardos, jaguares e afins. Estas espécies mais famosas atraem grande parte da atenção e do dinheiro que é dedicado à conservação, apesar de 12 dos 18 felídeos selvagens mais ameaçados no mundo serem de pequeno porte.

Jim Sanderson, especialista em felinos de pequeno porte e diretor de programas da Conservação Global da Vida Selvagem, uma instituição sediada no Texas, estima que mais de 99% dos fundos dedicados a felídeos selvagens desde 2009 foram canalizados para o apoio a jaguares, tigres e outros grandes felinos.  Como consequência, muitos felinos de pequeno porte foram pouco ou nada estudados. Além disso, têm a capacidade de passar despercebidos, o que contribui para o seu anonimato.

Por exemplo, o gato-vermelho-de-Bornéu, nativo das florestas do Bornéu, foi avistado muito poucas vezes e continua tão obscuro para a ciência como em 1858, ano em que foi descoberto. E tudo o que se sabe sobre o gato-bravo-marmoreado, do sudeste asiático, advém do estudo de uma única fêmea na Tailândia. "Não fazemos ideia de qual é a sua alimentação", diz Sanderson.

GATO-PESCADOR PRIONAILURUS VIVERRINUS - O aspeto deste felino pode parecer peculiar, mas adapta-se perfeitamente ao seu estilo de vida: olhos grandes, que o ajudam a capturar presas debaixo de água; uma camada dupla de pelo, que o impermeabiliza, e patas com membranas interdigitais parcialmente desenvolvidas e uma cauda musculada que funciona como leme e o ajudam a nadar.
Fotografia de Joel Sartore
LINCE-EURO-ASIÁTICO LYNX LYNX - A maior das quatro espécies de linces, o lince-euro-asiático está também muito disseminado, espalhando-se pela Europa, a Ásia Central e a Rússia. Ao contrário do que acontece com muitos outros felinos de pequeno porte, a população do lince-euro-asiático é estável e as ameaças são relativamente baixas — embora haja grupos isolados em perigo crítico.
Fotografia de Joel Sartore
GATO-MOURISCO HERPAILURUS YAGOUAROUNDI - Os gatos-mouriscos têm corpos longos e robustos e orelhas minúsculas, o que lhes dá um aspeto semelhante ao da lontra. Graças à sua enorme dispersão geográfica — partes do México, América Central e América do Sul — e à inexistência de caça generalizada, o estatuto de conservação deste felino é considerado pouco preocupante.
Fotografia de Joel Sartore

Os felinos de pequeno porte padecem de outra desvantagem: a tendência dos seres humanos para vê-los apenas como versões selvagens dos seus próprios animais de estimação.  (O gato doméstico é considerado uma subespécie do gato-selvagem, tendo derivado desta espécie no Crescente Fértil há cerca de 10 000 anos.) A população em geral não se entusiasma tanto como os felinos de pequeno porte como com os animais mais exóticos, diz Alexander Sliwa, conservador do Jardim Zoológico de Colónia, na Alemanha.  "Isto faz com que a situação de parco conhecimento acerca dos pequenos felinos se perpetue e, se não pudermos informar as pessoas acerca da biologia e do estilo de vida de determinado felino, as pessoas não sentem o apelo de conhecê-lo”.

Mas deviam sentir. Os pequenos felinos são notáveis construções da evolução: predadores altamente eficazes que se aprimoraram há milhões de anos e não mudaram muito desde então. O que lhes falta em envergadura sobra-lhes em determinação. O gato-bravo-de-patas-negras, por exemplo, é o felino mais pequeno da África. Pesa menos de 2,5 kg e é conhecido como o tigre-formigueiro por viver em montes de térmitas abandonados e por lutar com unhas e dentes quando ameaçado, chegando mesmo a atacar de frente chacais de muito maior envergadura. O expedito gato-pescador habita os pântanos e as terras húmidas do sul da Ásia, mas é capaz de subsistir onde quer que haja peixe. Em Colombo, no Sri Lanka, as câmaras de vigilância colocadas na baixa da cidade chegaram a registar imagens de um destes gatos a roubar carpas de um aquário num escritório. Foi uma "surpresa para todos nós", diz Anya Ratnayaka, investigadora principal do Projeto de Conservação de Gatos-Pescadores Urbanos. "Não há terras húmidas nas proximidades do local".

Os pequenos felinos do sul da Ásia adotaram outras formas inteligentes de coexistência. No Suriname, a equipa de Sanderson fotografou cinco espécies de felinos que vivem na mesma floresta tropical: jaguares, pumas, ocelotes, gatos-maracajás e gatos-mouriscos. Fazem-no "dividindo o espaço e o tempo", diz. Cada animal tem um nicho, seja caçar em terra durante o dia, como o gato-mourisco, seja caçar nas árvores à noite, como o gato-maracajá.

Embora alguns felinos de pequeno porte sejam capazes de matar cabras e ovelhas, não representam qualquer ameaça para os humanos. Pelo contrário, como muitas vezes são predadores do topo da cadeia alimentar, ajudam a manter o bom funcionamento dos ecossistemas e as populações de presas — incluindo vários roedores — sob controlo.

Estes Pequenos Gatos Selvagens São Adoravelmente Ferozes

Dos cinco continentes habitados por felinos selvagens, a Ásia é o que tem mais a perder. Trata-se não só do continente que alberga o maior número de espécies de felinos de pequeno porte — 14 — como da região em que os animais são menos compreendidos e enfrentam maiores ameaças.

Grande parte das florestas do sudeste asiático deu lugar a vastas plantações de óleo de palma, um ingrediente alimentar comum cuja produção duplicou em todo o mundo desde o ano 2000.  Trata-se de um desenvolvimento potencialmente devastador para o gato-de-cabeça-chata e o gato-pescador, animais que habitualmente subsistem à base de peixes que encontram nas terras baixas húmidas onde habitam.

A disseminação das plantações de óleo de palma é tão preocupante, que o Le Parc des Félins, um parque zoológico nos arredores de Paris que alberga o maior número de espécies de felinos de pequeno porte do mundo, colocou dois carrinhos de compras em exposição — um cheio de produtos fabricados com óleo de palma e o outro com produtos sem este ingrediente.  Os artigos dos dois carrinhos — gelados, bolachas, cereais — têm praticamente o mesmo aspeto.

"Não pedimos donativos às pessoas. Pedimos que consumam menos óleo de palma", diz Aurélie Roudel, educadora neste arborizado parque com cerca de 71 hectares.

Outra ameaça que os felinos de pequeno porte enfrentam é o comércio ilegal de animais selvagens, e, especificamente, a caça furtiva, praticada por caçadores que procuram a pele, o pelo e outras partes dos animais, aponta Roudel. A China é um dos eixos destas atividades ilegais. Nas grandes cidades, os comerciantes vendem roupa e luvas fabricadas com a pele de felinos de pequeno porte.  Nos anos 80,  a China exportou peles de centenas de milhares de gatos-leopardos, uma espécie que dispersa pelo continente asiático. Embora a procura de peles tenha diminuído substancialmente, na China, os gatos-leopardos ainda são caçados e mortos por atacarem animais domésticos.

Não demorei a descobrir que os gatos-leopardos são, eles próprios, animais impressionantes. Naquele dia chuvoso de junho, a maioria dos residentes daquele parque francês aconchegou-se nas suas jaulas, mas os dois gatos-leopardos passeavam-se lá fora com a pelagem castanha e preta a brilhar como uma peça de tapeçaria. Um deles equilibrou-se com mestria em cima de um tronco, enquanto lambia a pata anterior, ao passo que o outro mastigava ervas compridas, fazendo-me lembrar do meu gato da raça Maine Coon.

Depois, voltei ao presente e lembrei-me do que Alexander Sliwa, conservador do Jardim Zoológico de Colónia, tinha dito: os felinos de pequeno porte são muito diferentes dos gatos domésticos, sobretudo porque estão sempre em movimento.  O gato-bravo-de-patas-negras, por exemplo, é capaz de percorrer mais de 30 km e de comer um quinto da sua massa corporal todas as noites.  Ao contrário do Fluffy, refastelado no sofá, "não pode dar-se ao luxo de ficar parado.

O mesmo se pode dizer dos conservacionistas, que começaram a tirar algumas espécies do anonimato na esperança de as salvar. Em 2016, iniciaram um esforço internacional para estudar e salvar o gato-de-Pallas, uma espécie da Ásia Central em declínio, mas que vive escondida à sombra do famoso leopardo-das-neves.

“Uma grande parte do trabalho consiste em dar a conhecer o gato-de-Pallas”, salienta David Barclay, coordenador do Programa Europeu de Espécies em Perigo para o gato-de-Pallas. Barclay conta com alguma ajuda, não fosse a Internet louca por gatos.  O rechonchudo e fofo felino tornou-se um êxito na Internet devido à expressão facial rezingona e à forma peculiar como corre nas montanhas onde vive. Segundo Barclay, embora as pessoas “se riam ao ver os vídeos, subconscientemente estão a começar a conhecê-lo".

No Japão, um programa de longa duração estabilizou a população do gato-leopardo-de-Iriomote, uma subespécie em perigo crítico do gato-leopardo que só pode ser encontrada na Ilha de Iriomote. Existem desenhos destes felinos estampados na parte lateral dos autocarros e o animal tem uma marca de saqué em sua homenagem.

No Parque Natural da Serra de Andújar, na Espanha, perto do local onde Helena e os outros linces vivem, as iniciativas de ecoturismo que evolvem a observação de linces dispararam nos últimos anos, juntamente com a caça de coelhos e veados, pilares do modo de vida tradicional do sul de Espanha.

“Somos parceiros de negócio” diz, com um sorriso, Luis Ramón Barrios Cáceres, referindo-se aos linces.  “Eles pagam as contas.” Os grupos de observação de linces costumam usar o hotel rural como ponto de partida. A loja de recordações do hotel está cheia de peças decorativas inspiradas na estrela local.

Na vizinha Quinta de San Fernando, Pedro López Fernández permite a presença de caçadores de coelhos (quando as populações de coelhos são abundantes) e de linces na sua propriedade com cerca de 280 hectares. López, cuja família explora a quinta na região há quatro gerações, orgulha-se claramente das suas terras, onde as vacas deambulam por montes florestados com azinheiras e carvalhos e pontuado pelo cor-de-rosa das flores de oleandros.

O lince é "uma das espécies mais valiosas, porque só existe aqui", diz López. Mas nem todos os proprietários concordam que os felinos devem ser protegidos. Alguns receiam a interferência governamental e não querem linces nas suas terras. Mas López acredita que o lince faz parte do património da Espanha e que o país deverá assegurar-se de que o animal prospera.

No Centro de Reprodução de La Olivilla, em Santa Elena, os cientistas trabalham noite e dia para que tal aconteça. Sentados em frente de uma série de monitores de computador, os tratadores registam o comportamento de 41 linces em direto e sem interrupção todos os dias.  Naquela tarde quente, a maioria dos animais — uma mistura de fêmeas reprodutoras, crias e jovens linces que estão a ser preparados para serem reintroduzidos na natureza — descansa abrigada.

A veterinária do centro, María José Pérez, explica o cuidadoso trabalho levado a cabo para preparar os jovens linces para o dia em que serão libertados: as cercas são tapadas com barreiras pretas para que os linces não vejam pessoas, os coelhos são colocados à disposição dos linces através de tubos cobertos pela vegetação, os linces são assustados com buzinas para aprenderem a terem medo dos carros.  "É um privilégio para mim contribuir para que o lince não se extinga”, diz Pérez.

Sentado à secretária, o tratador Antonio Esteban clica numa transmissão de vídeo que mostra a mãe lince com quatro crias espalhadas no chão com as patas junto às faces minúsculas. Um dia, estes animais serão cruciais para a sobrevivência da espécie. Mas, por enquanto, fazem o que os felinos fazem melhor: uma sesta.

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