A Morte das Palhinhas de Plástico

É uma tendência crescente: há cada vez mais hotéis, resorts, safaris e cruzeiros a proibir a utilização de palhinhas de plástico. quarta-feira, 30 de maio de 2018

Por Devorah Lev-Tov
Este artigo faz parte da campanha da National Geographic, Planeta ou Plástico?—o nosso esforço para alertar sobre a poluição dos plásticos em todo o mundo. Saiba o que pode fazer para reduzir a sua utilização de plásticos de uso único, e assuma este compromisso.

Em 2015, um vídeo perturbador que mostrava uma tartaruga-oliva a sofrer com uma palhinha enfiada no seu nariz tornou-se viral, e mudou a opinião de muitos relativamente a este utensílio de plástico, que ainda é utilizado, por conveniência, por muita gente.

Mas como é possível uma palhinha de plástico — um item diminuto usado durante muito pouco tempo antes de ser mandado fora — causar danos tão impactantes? Para começar, um palhinha chega com muita facilidade aos oceanos, devido à sua natureza leve. Uma vez no oceano, não se biodegrada. Em vez disso, fragmenta-se lentamente em pedaços menores, os chamados microplásticos, que os animais marinhos confundem muitas vezes com comida.

Em segundo lugar, não é um objeto que possa ser reciclado. "Infelizmente, a maioria das palhinhas é demasiado leve para passar por separadores de reciclagem mecânica, e, portanto, acabam em aterros ou vias fluviais e, por fim, nos nossos oceanos", explica Dunes Ives, diretora executiva da Lonely Whale.  A organização sem fins lucrativos facilitou a bem-sucedida campanha de marketing Strawless, em Seatle, em apoio à inciativa Strawless Ocean.

Nos Estados Unidos, deitamos fora milhões de palhinhas de plástico todos os dias. No Reino Unido, estima-se que pelo menos 4,4 mil milhões de palhinhas são deitadas fora anualmente. Os hotéis são um dos principais infratores: o Hilton Waikoloa Village, que se tornou no primeiro resort no Havai a eliminar palhinhas de plástico logo do início deste ano, usou mais de 800 000 palhinhas em 2017.

Os Plásticos Explicados Em Minutos
Os Plásticos Explicados Em Minutos

As palhinhas são, como é claro, apenas uma parte do lixo que vai para os nossos oceanos. "Nos últimos dez anos, produzimos mais plástico do que produzimos no último século, e 50% do plástico é usado apenas uma vez e deitado fora logo a seguir", diz Tessa Hempson, diretora operacional da Oceans Without Borders, uma fundação recentemente constituída e parte da empresa de safaris de luxo &Beyond. "Um milhão de aves marinhas e 100 000 mamíferos marinhos são mortos anualmente por causa do plástico presente nos nossos oceanos. Quarenta e quatro por cento de todas as espécies de aves marinhas, 22% de espécies de baleias e golfinhos, todas as espécies de tartarugas marinhas e uma lista cada vez maior de espécies de peixes têm plástico à volta ou dentro dos seus corpos."

Atualmente, as palhinhas de plástico começam já, e finalmente, a serem consideradas, de per se, uma ameaça às espécies, havendo já cidades dos Estados Unidos (Seattle, Washington; Miami Beach e Fort Myers Beach, Flórida; e Malibu, Davis, e San Luis Obispo, Califórnia) que proíbem o seu uso. Há também países que estabelecem já limites à utilização de objetos de plásticos descartáveis, incluindo palhinhas. Belize, Taiwan e a Inglaterra estão entre os países que mais recentemente propuseram proibições.

Ainda assim, as empresas não precisam de esperar que seja o governo a instituir proibições; podem instituí-las internamente. A Soneva proibiu o uso de palhinhas em 2009, e a Cayuga usa palhinhas de bambu desde 2010.  Hotéis como estes abriram o caminho para um movimento por onde o setor das viagens e do alojamento está finalmente a começar a entrar.

De entre as marcas hoteleiras que começaram a proibir as palhinhas de plástico, destacam-se os seguintes: Four Seasons, AccorHotels, da América do Norte e América Central, Marriott International no Reino Unido, hotéis EDITION, Doyle Collection, Six Senses, Taj Hotels Palaces Resorts Safaris, Experimental Group e Anantara. Empresas de cruzeiros e agências de viagens e turismo como a Carnival, Hurtigruten, Peregrine Adventures e a Coral Expeditions reduziram ou eliminaram o uso de palhinhas de plástico nos seus cruzeiros. E empresas de safaris de luxo como a &Beyond e a Wilderness Safaris estão ambas a retirar as palhinhas de plástico dos seus alojamentos.

SAIBA MAIS: Sobre a Guerra às Palhinhas

É certo que as ações individuais podem ter um impacto significativo no setor e influenciá-lo, mas basta que uma única cadeia de hotéis proíba o uso de palhinhas para que se deixe de usar milhões delas em apenas um ano. As cadeias Ananatra e AVANI estimam que, nos hotéis que têm na Ásia, tenham sido utilizadas 2,49 milhões de palhinhas em 2017; a AccorHotels estima que tenham sido utilizadas, nos Estados Unidos e no Canadá, 4,2 milhões de palhinhas no ano passado.

"No que respeita à poluição pelos plásticos, as palhinhas de plástico são as mais nocivas. Ao apresentarmos alternativas ao uso das mesmas e ao eliminá-las, estamos, na cadeia &Beyond, a fazer a nossa parte para manter o plástico bem longe dos oceanos", afirma Hempson.

É certo que usar palhinhas não é uma boa opção, mas algumas pessoas preferem usá-las ou precisam delas, como é o caso das pessoas com deficiência ou dentes e gengivas sensíveis. Se não prescindir das palhinhas, é preferível optar pelas de metal ou vidro, que são reutilizáveis. A Final Straw, que alega ser a primeira a apresentar uma palhinha desmontável e reutilizável, está, atualmente, a angariar fundos através da Kickstarter.

As marcas hoteleiras que estão a eliminar as palhinhas de plástico estiveram a analisar várias alternativas descartáveis. O papel é uma opção muito difundida, e existem já muitos estabelecimentos nos Estados Unidos a usarem a Aardak, palhinhas feitas na América, aprovadas pela FDA, que demoram entre 30 e 60 dias a decomporem-se. Outra hipótese são as palhinhas compostáveis, feitas de PLA (ácido polilático), um bioplástico vegetal feito de matérias como o amido de milho, em vez do petróleo. Estas palhinhas são compostáveis sob condições adequadas, mas não se desfazem na água.

Uma opção mais criativa é a massa crua, que é atualmente usada no Paradise Cove Beach Café em Malibu e testada pelo Terranea Resort no Rancho Palos Verdes, na Califórnia. No Taj Exotica Resort & Spa, Andamans, são usados agitadores e palhinhas de bambu.

E alguns estabelecimentos usam palhinhas tal como quando apareceram pela primeira vez. O hotel Mandrake, em Londres, oferece palhinhas feitas de caules de centeio, que adquirem na empresa alemã Bio-Strohhalme.

"A maioria das pessoas não pensa nos efeitos que o simples ato de pegar numa palhinha ou aceitar uma palhinha de plástico pode ter nas suas vidas e na vida das próximas gerações", afirma Davis Laris, diretor criativo do grupo Cachet Hospitality.  "O setor hoteleiro tem a obrigação de começar a reduzir a quantidade de detritos plásticos que produz."

Devorah Lev Tov escreve sobre comida e viagens, e vive em Brooklyn. Siga-a no Instagram em @devoltv.

Continuar a Ler