Barcos à Vela Polinésios Limpam Microplásticos

Os habitantes do Pacífico uniram-se para chamar a atenção para as toneladas de detritos plásticos que dão à costa, outrora imaculada.segunda-feira, 25 de junho de 2018

Mares agitados, cortesia do ciclone Gita, fustigam as laterais do tradicional barco de casco duplo, conhecido como waka em maori. Com uma tripulação de 12 elementos da comunidade maori e três cientistas a bordo, incluindo eu, o waka Te Matau navega ao largo da costa leste da Ilha do Norte, na Nova Zelândia, em direção à capital Wellington, para participar no festival internacional Waka Odissey, mas o ciclone Gita atravessa-se no nosso caminho.    

Integramos um dos diversos wakas de uma frota, um deles vindo da Samoa, a cerca de 322 quilómetros de distância, para promover a importância das expedições marítimas na cultura polinésia. Mas as sociedades navegantes polinésias assumem cada vez mais um papel de relevo na defesa de temas associados à conservação, desde a sobrepesca e as alterações climáticas à poluição de plásticos. Aqui, na Nova Zelândia, juntei-me à Pure Tour, para documentar a quantidade de plásticos que poluem as águas costeiras e dar uma palestra em toda a Ilha do Norte sobre a importância do desperdício zero, procurando assegurar que o conhecimento indígena guie a política de conservação. Para mim, esta viagem de waka é uma oportunidade para estudar a poluição de microplásticos, juntamente com os conservacionistas maori.

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Sou responsável pela direção de investigação do Instituto 5 Gyres, com sede em Los Angeles, uma organização com dez anos de existência da qual sou cofundador, que estuda e procura encontrar soluções para o problema da poluição de plásticos nos oceanos. Os giros são correntes marinhas rotativas que cobrem, na íntegra, bacias oceânicas situadas acima e abaixo do Equador, como o Giro do Pacífico Norte, que ocupa a área entre o Japão e a Califórnia, fazendo um grande desvio em U, quando as correntes atingem a costa, passando pelo Havai de volta ao Japão, num ciclo de cinco a seis anos.

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Após ter coordenado várias viagens pelos cinco giros do planeta, fui testemunha dos impactos do plástico na vida marinha. Em 2015, publicámos a primeira estimativa da quantidade de plástico flutuante no mundo. Existem mais de 250 mil toneladas de lixo plástico. Mais de 90% desses detritos são fragmentos mais pequenos do que um bago de arroz, criando algo mais parecido a uma mancha de microplásticos do que uma massa sólida. A prevenção do problema começa no topo, no processo decisivo das empresas quanto aos produtos que comercializam e às respetivas embalagens, e nas escolhas de compra dos consumidores. Se diminuirmos o uso de plástico de uma única utilização, deitando-o no lixo, tais como sacos de plástico e palhinhas, obtemos, por certo, resultados mais duradouros.

Mas hoje, a bordo do Te Matau no Maui, as atenções centram-se no ciclone, e a segurança da tripulação está em primeiro lugar. Com alguma pena, regressamos ao porto de origem da embarcação, em Napier.

Apesar do contratempo, a ciência tem sido bem sucedida, de cada vez que a rede de arrasto desce à água para recolher os microplásticos à deriva na superfície. A rede assemelha-se a uma raia de alumínio, com asas flutuantes e uma boca com 60 centímetros de largura.  A malha é mais fechada do que a trama do tecido da sua t-shirt. Recolhemos 15 amostras até ao momento, e, à semelhança dos milhares de amostras que recolhemos em todo o mundo, elas constituem um caleidoscópio de confettis de muitas cores, que flutuam à deriva entre os habituais detritos de algas, insetos e zooplanctôn. A rede é arrastada lentamente para permitir que os peixes mais pequenos possam fugir. As concentrações de plástico são mais acentuadas perto das cidades, onde os sacos de plástico, as palhinhas, as garrafas e os copos desbravam caminho em direção ao mar.

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A Pure Tour é um projeto criado por Tina Ngata, também conhecida como a maori do plástico zero. Ngata é, simultaneamente, uma conservacionista e uma ativista dos direitos das populações indígenas. O seu moko, uma forma tradicional de tatuagem, inclui a imagem de duas baleias, que descem do rebordo do lábio inferior em direção ao queixo. Quando a interpelei a propósito do seu moko, ela respondeu-me com uma história: “Há alguns meses viajámos para alto mar para abordar um grande navio de prospeção, que efetuava testes sísmicos em águas profundas, na tentativa de descobrir depósitos de petróleo inexplorados. Informámos a tripulação do navio que, embora tivessem autorização governamental, não tinham a aprovação do povo maori e que não eram bem-vindos ao nosso território e, como tal, deviam esperar mais resistência”. Ngata afirma que protestaram contra a prospeção em nome “das baleias, dos golfinhos e de todos os seres que habitam as águas dos oceanos, a nossa whanau em maori ou família do oceano”.

As culturas polinésias cultivam uma relação próxima com todas as outras formas de vida e entre si. As sociedades navegantes fazem uso de um conhecimento vasto da navegação astronómica, padrões e fluxos migratórios da vida selvagem e dos ventos e ondas, para se encontrarem na vastidão dos oceanos. Tal como disse Lavatai Lauaki Afifimailagi, um ancião da Samoan Voyaging Society, à tripulação do waka antes da largada do porto: “Ainda que as nossas ilhas estejam separadas por quilómetros de oceano, somos todos polinésios.”

Mas o mesmo oceano que interliga toda a Oceania também distribui lixo plástico pelas costas. O estudo que publicámos revela que mais de 100 000 toneladas de detritos plásticos flutuam só no Pacífico, sendo que grande parte desses detritos dão à costa muito longe do seu ponto de origem. Em 2017, os investigadores encontraram um caixote de pesca em Rapa Nui, na Ilha de Páscoa, que tinha percorrido cerca de 6437 quilómetros à deriva desde a sua origem no Pacífico Sul.

Em toda a Aotearoa, o nome maori para a Nova Zelândia, começam a delinear-se soluções. A Pure Tour começou com uma visita a Raglan na costa oeste da Ilha do Norte, para conhecer o projeto Xtreme Zero Waste. O local inclui um monte de compostagem, filas de caixotes de vermicompostagem, uma loja de restauração de mobiliário e reparação de eletrodomésticos, um ferro-velho de madeiras e metais, uma biblioteca de livros reciclados, uma loja de artigos em segunda mão, e uma zona de reciclagem de vidro, metal, papel e plástico. A escala da eficiência da empresa levou ao encerramento do aterro local há alguns anos e a organização orienta agora outras comunidades.

Outras ilhas acolhem a filosofia de desperdício zero. Em Rapa Nui, os viajantes enchem as garrafas de água, reutilizando-as, em pontos de abastecimento dispersos pela ilha. No Havai, está, atualmente, a ser debatida uma lei para banir os recipientes alimentares de polistireno. A filosofia de desperdício zero também se aplica às pessoas. Viajar com pouca bagagem e prescindir do plástico é essencial. O melhor conselho? Prefira artigos reutilizáveis e procure alternativas ao plástico.

Uns dias depois do Waka Odissey, na doca em Wellington, um grupo de viajantes polinésios erguia uma enorme faixa, onde se podia ler “Fim ao Saco de Plástico”. Numa marcha pacífica, dirigiram-se ao Parlamento para entregar, em mãos, uma petição subscrita por 65 000 cidadãos, que apoiam a proibição de sacos de plástico descartáveis, destinados a uma única utilização. Nos degraus do Parlamento, mantive-me junto de Afifimailagi, o ancião samoano. Ele olhou para a multidão. “Somos todos navegantes”, disse. “Aquilo que levamos connosco e aquilo que deixamos definem a nossa natureza.”

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