A Corrida para Salvar Artefactos de Plástico Históricos

Embora o plástico seja um problema grave ao nível dos oceanos, os conservadores dos museus empenham-se para salvar fatos espaciais, películas de animação e outros artefactos com história.domingo, 10 de junho de 2018

Este artigo faz parte da campanha da National Geographic, Planeta ou Plástico?—o nosso esforço para alertar sobre a poluição dos plásticos em todo o mundo. Saiba o que pode fazer para reduzir a sua utilização de plásticos de uso único, e assuma este compromisso.

Mowgli do Livro da Selva da Disney e a Duquesa dos Aristogatos surgem imóveis em fotogramas únicos ante o olhar de Tom Learner. São memórias de uma era dominada pela película de animação pintada à mão. Mas Learner tem consciência de que estas folhas de celuloide lhe chegaram às mãos no momento certo. Learner é um químico e um cientista de renome no Instituto de Conservação Getty, em Los Angeles, que se dedica à conservação de objetos e está determinado a preservar a integridade dos materiais modernos.

Os plásticos são materiais que fazem as parangonas da imprensa pelas piores razões, muitas vezes associados aos desastres ambientais. Resistentes e invasores, os plásticos libertam substâncias químicas, asfixiam formas de vida selvagem e poluem os espaços, desde o cume das montanhas até à Fossa das Marianas, o local mais profundo dos oceanos.

Porém, os investigadores como Learner veem os plásticos de um ângulo diferente. Estes cientistas, dedicados à conservação, trabalham para compreender a destruição e declínio da arte e dos artefactos plásticos, com o objetivo de preservar a integridade dos materiais para as gerações futuras.  

“Cada geração é guardiã da expressão artística do seu tempo”, afirma Learner. “Nós apenas queremos assegurar de que passamos este material às gerações seguintes nas melhores condições possíveis.”   

Conservadores como Learner e a sua colega Odile Madden estão no limite da descoberta de todos os tempos. Eles procuram acompanhar a obsolescência de objetos tão diversos como as películas de animação, os fatos espaciais históricos e as tintas de uso doméstico. Os polímeros sintéticos mais antigos, os primeiros plásticos tal como os imaginamos hoje, têm mais de 150 anos e, se não lhes for dada a devida atenção, talvez não durem mais do que outros 150 anos.

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O OLHAR DE UM CIENTISTA

Learner e Madden abordam o seu trabalho à luz de critérios científicos. A formação em química permite ao par analisar a estrutura molecular dos materiais objeto de estudo.   

“Não existe muita informação sobre a natureza e a composição do plástico”, afirma Madden. “Sabe-se muito sobre os metais. Aliás, nós crescemos com este sentido quase intuitivo do que é o ouro e do que é o bronze, mas não temos essa capacidade para identificar a composição do plástico ou a natureza do seu polímero.”

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Os investigadores procuraram respostas na química avançada. Os plásticos baseiam-se em polímeros, moléculas grandes formadas a partir de extensas cadeias de segmentos repetidos. Mas, tal como diz Madden, “a maioria dos polímeros não tem qualquer utilidade por si só, por isso são modificados, de alguma forma, com recurso a aditivos.”

Plastificantes, enchimentos, corantes, antioxidantes, estabilizadores de calor, absorventes UV, químicos antifúngicos: a lista de aditivos é um turbilhão de genialidade química.

“Mais polímeros, mais processamento”, descreve Madden de forma simples e breve. Uma vez misturados, esta sopa de polímeros e outras substâncias pode ser derretida, moldada, enrolada, cortada ou soprada para se transformar em esponja. Mas cada adição e processo altera a forma como o plástico reage ao calor, à luz e, sobretudo, ao tempo.

Os plastificantes são um exemplo. Estes aditivos químicos são moléculas pequenas adicionadas a um polímero, para que o material final seja mais fácil de derreter e moldar. Segundo Madden, um plástico muito conhecido como o PVC, a sigla abreviada para policloreto de vinila, pode ser transformado num item não plastificante como um cano de água, enquanto um PVC, com uma concentração elevada de plastificante, pode ser usado para produzir uma cortina de banho.

Mas os plastificantes podem filtrar o plástico, libertando gases ácidos e corrosivos, e acelerar a decomposição do próprio plástico. Malcolm Collum, diretor de conservação do Museu Nacional do Ar e do Espaço do Instituto Smithosonian, está a desenvolver um expositor, equipado com um sistema de refrigeração, desumidificação e um sofisticado mecanismo de ventilação, para acolher o fato espacial usado por Neil Armstrong em 1969. Toda esta tecnologia é essencial para abrandar o processo de decomposição dos tubos de PVC e das câmaras de ar, que mantiveram o astronauta vivo à superfície da Lua.

A principal prioridade da NASA ao conceber os fatos espaciais não seria, supostamente, a forma como resistiriam ao desgaste do tempo, no interior de um expositor de museu, 50 anos depois da missão da Apollo 11. Agora que integram as coleções dos museus, pessoas como Collum têm a seu cargo zelar pela integridade destes objetos, apesar da escassez de opções.

“Com os plásticos”, afirma, “não há muito mais a fazer do que encolher os ombros e procurar assegurar as melhores condições ambientais para tentar abrandar o processo de deterioração dos materiais. Não há nenhum tratamento que produza um resultado excecional numa coleção de qualquer tipo de plástico.”

É positivo que os investigadores tenham alguns princípios gerais, nos quais se podem apoiar. As coleções dos museus do Instituto Smithsonian integram uma profusão de diferentes tipos de plástico, alguns em sítios inusitados: as primeiras aeronaves, tais como a Spirit of St. Louis, foram envernizadas ou revestidas por uma fina camada de plástico inflamável para proteger os exteriores em tecido. Espuma de poliuretano preenche o interior de capacetes, auscultadores e assentos, que se desfazem ou transformam “numa matéria horrível viscosa e pegajosa”, segundo Collum.

Outros museus debatem-se com problemas semelhantes. Algumas das tintas das obras de Jackson Pollock tinham composições plásticas, assim como as esculturas acrílicas do movimento de pop art. Coleções históricas de brinquedos e objetos de uso doméstico dos últimos 150 anos contêm, muitas vezes, peças de plástico, como as bonecas Barbie, rádios e molas para o cabelo.

Alguns destes plásticos dissolver-se-ão sob ação de determinados produtos de limpeza e outros são mais suscetíveis de se partir. Tudo se resume às moléculas que integram a sua composição, e a diversidade destes materiais é avassaladora.

UM PROBLEMA MODERNO

Na carreira precoce de Learner enquanto conservador, ele bebeu do conhecimento das gerações anteriores sobre os têxteis, bronzes, papel, mármore e tintas a óleo para telas. Preservar a integridade da arte e dos objetos do mundo moderno é um desafio completamente diferente. Os conservadores dos dias de hoje têm a seu cargo a difícil tarefa de proteger “cada plástico, cada mineral, cada fluído corporal, cada tipo de tinta, cada forma de tecnologia, arte virtual, vídeo e computador, desempenho e instalação artística”, afirma Learner. “Por vezes, nem se consegue definir o tipo de material.”

Tudo se resume ao tempo.

Com a perceção dominante na sociedade moderna de que o plástico é para deitar fora, os objetos de plástico não são pensados para durar no tempo. Na verdade, muitas pessoas estão, atualmente, a criar obras que contrariam a ideia da conservação para integrar a coleção de um museu.

“Eu consigo antever, ou melhor já vejo, os desafios que se levantam no domínio da química suscitados pelo material reciclado e pelos plásticos biodegradáveis”, afirma Madden. “É convenientes trabalhar com estes materiais. Mas eles só existem há 10 anos e já estão a desfazer-se.”  

Quando artefactos com relevância histórica e lixo são feitos dos mesmos materiais, não admira que a conservação tenha significados tão distintos para pessoas diferentes. Enquanto dominar a Era do Plástico, os investigadores e os consumidores terão de lidar, cada vez mais, com as questões relacionadas com o tempo e a decomposição dos polímeros.

“O que é que devemos deitar fora?”, pergunta Madden. “O que é que valorizamos? Ou, pelo contrário, o que é que não valorizamos? O que devemos preservar para o futuro?”

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