Uma Cria de Foca Morre com um Pedaço de um Invólucro Plástico no Estômago

Uma película de plástico obstruiu os intestinos de uma cria doente e poderá ter precipitado a sua morte.terça-feira, 5 de junho de 2018

Este artigo faz parte da campanha da National Geographic, Planeta ou Plástico?—o nosso esforço para alertar sobre a poluição dos plásticos em todo o mundo. Saiba o que pode fazer para reduzir a sua utilização de plásticos de uso único, e assuma este compromisso.

Um pequeno pedaço de plástico é tudo o que é necessário para destruir a vida um animal.

Na última sexta-feira, uma foca-da-Gronelândia foi encontrada morta na Ilha de Skye e levada para o Scottish Marine Animal Stranding Scheme, na sigla inglesa SMASS, uma organização subsidiada pelo governo que investiga a mortalidade dos animais marinhos. Durante a necropsia ao corpo do animal, o veterinário patologista Andrew Brownlow retirou um pequeno pedaço de plástico, alojado estrategicamente no estômago do animal, tendo divulgado o caso na página do Facebook daquela instituição esta quarta-feira.

A idade do animal situar-se-ia, muito provavelmente, entre os oito meses a um ano de vida. Brownlow afirma que não é comum encontrar detritos de plástico no interior do estômago de uma foca, sendo mais recorrente encontrar focas presas em redes, linhas ou armadilhas de pesca. É mais provável que morram na sequência do enredamento em equipamentos de pesca do que por ingestão de detritos plásticos flutuantes.

“São, realmente, raros os episódios de ingestão de plásticos por cetáceos e focas”, afirma Brownlow, que também dirige a SMASS. “As focas são animais inteligentes capazes de distinguir um bocado de plástico e uma presa.”

Este incidente aviva a proporção que assume, atualmente, a poluição por plásticos. Até mesmo os animais marinhos mais inteligentes estão a ser vítimas desta epidemia mortífera.

ÁGUAS DESCONHECIDAS

Geralmente, a SMASS é alertada sempre que ocorrem situações de enredamento de focas cinzentas ou focas comuns, que são espécies habituais na Escócia. Mas encontrar uma foca-da-Gronelândia, que habita, geralmente, as águas gélidas do Ártico, é raro.

“Esta foca não se assemelhava a uma foca cinzenta”, afirma Brownlow. “A necropsia não nos permite apenas conhecer a forma como um animal morreu, mas também perceber como viveu”.

As focas-da-Gronelândia não são uma espécie ameaçada de extinção. Elas passam a maior parte do tempo a nadar nas águas geladas do Atlântico Norte e do Ártico, alimentando-se de peixes e crustáceos, e migram, anualmente, para zonas de reprodução na Terra Nova, Mar da Gronelândia e Mar Branco.

Encontrar uma foca-da-Gronelândia a sul, na Escócia é raro, afirma Brownlow, mas não é impossível. Ele suspeita que a cria tenha nascido no norte da Noruega e, por alguma razão desconhecida, se tenha dirigido para sul. O animal poderia ter perseguido uma presa ou seguido no encalço de outras focas ou poderá, simplesmente, ter-se perdido, afirma Brownlow. No post publicado do Facebook, Brownlow referiu que as alterações climáticas também podem ter contribuído para a deslocação do animal.

Durante a necropsia, Brownlow e a sua equipa de cientistas encontraram um quadrado de plástico muito fino, com aproximadamente 5 centímetros de lado, amarfanhado no estômago da pequena foca. Pequenas úlceras indicam que o plástico já estava alojado no estômago do animal há algum tempo. O pedaço de plástico pode ter obstruído o esfíncter pilórico, a parte do estômago que comunica com o intestino, e impedido a passagem dos alimentos digeridos para os intestinos. O intestino também revelava sinais de inflamação.

Brownlow apressa-se a sublinhar que o plástico não teve uma ação direta na morte da pequena foca. O corpo do animal apresentava sinais de citólise, desidratação e consequente enfraquecimento, indicando que a cria de foca já estaria doente e não se terá alimentado nos momentos anteriores à morte. O cadáver revelava ainda sinais de sépsis e a presença de alguns parasitas, sem que tivessem sido identificados quaisquer sinais de trauma.

Brownlow afirma que é provável que o pedaço de plástico tenha destruído os tecidos do estômago e permitido a migração de bactérias do intestino para a corrente sanguínea. De qualquer modo, a morte prematura era quase certa. O pedaço de plástico poderá apenas ter contribuído para acelerar o processo.

O plástico não é decomposto no estômago, mas, se o animal fosse saudável, talvez ainda estivesse vivo. A cria da foca-da-Gronelândia talvez acusasse algum desconforto, mas era pouco provável que a película de plástico a matasse.

Veja uma foca a aproximar-se de um mergulhador.

“Isto não é um problema de uma perspetiva de conservação de espécies, mas antes uma tragédia de uma perspetiva individual”, afirma Brownlow. “A poluição por plásticos é o cúmulo da destruição da vida de um animal.”

A CRISE DO LIXO

As focas-da-Gronelândia não são a única espécie atingida pela praga do plástico. Os curiosos leões-marinhos e outras espécies de focas ficam, frequentemente, enredados nos detritos do oceano, tais como equipamentos de pesca, sacos de plástico e fitas de embalagem.

Cerca de 700 espécies ingerem plástico, acreditando tratar-se de comida. Mas, ao invés de nutrirem, os detritos podem perfurar a membrana que reveste o estômago, levando à fome e, consequentemente, à morte. As tartarugas do mar e as aves marinhas, espécies ameaçadas de extinção, ingerem lixo plástico, e os peixes, as baleias e outros animais marinhos com guelras estão cada vez mais expostos à ingestão de microplásticos.

Uma vez que o peixe faz parte da dieta alimentar do ser humano, estamos, inadvertidamente, a lançar-nos na cadeia alimentar dos plásticos, ingerindo microfibras de pedaços de palhinhas, tampas de garrafas e invólucros plásticos.

SAIBA: Este Saco de Plástico foi Encontrado no Local Mais Profundo do Planeta 

Uma parte da poluição por plásticos é visível, mas mais de 90% de todo o lixo plástico tem menos de 1,27 centímetros de comprimentos. Com esta dimensão, as peças podem não ser visíveis ao olhar do público, mas podem ser uma sentença de morte para muitos animais desconhecidos.

“Esta é a razão pela qual estas diminutas peças de plástico têm tanta importância quanto as ilhas flutuantes de detritos plásticos”, afirma Brownlow. “Até fragmentos mínimos de plástico são problemáticos.”

Gelados de Gelo Dão Nova Vida À Poluição De Plásticos Pela Mão De Três Estudantes

+ sobre Planeta ou Plástico?

Continuar a Ler