Estes Pescadores da Índia Transformam o Plástico Encontrado nos Oceanos em Estradas

Num projeto inovador, os pescadores de Kerala, na Índia, recolhem, limpam e reciclam o plástico que encontram nos oceanos.Wednesday, June 6, 2018

Por Maanvi Singh
Um pescador de Kerala, na Índia, repara as suas redes na praia. Os objetos de plástico que poluem os oceanos podem danificar as redes de pesca, mas agora os pescadores decidiram tomar uma atitude.
Este artigo faz parte da campanha da National Geographic, Planeta ou Plástico?—o nosso esforço para alertar sobre a poluição dos plásticos em todo o mundo. Saiba o que pode fazer para reduzir a sua utilização de plásticos de uso único, e assuma este compromisso.

Em Kollam, na Índia, Kadalamma significa a Mãe dos Mares, e é assim que Xavier Peter se refere ao Mar Arábico. A sua mãe pode até ter-lhe dado a vida, mas Kadalamma deu-lhe um propósito, um meio de subsistência. Kadalamma soube cuidar dele, oferecendo-lhe peixe suficiente para alimentar a sua família e vender no mercado. Por três vezes protegeu-o da ameaça dos ciclones e uma outra de um tsunami.

Há mais de três décadas que Xavier é pescador nas águas do sudoeste da Índia, tendo dedicado toda a sua vida adulta à pesca de camarão e peixe com redes de arrasto. Todavia, ultimamente, sempre que recolhe as suas redes, encontra mais plástico do peixe.

“Com todo este plástico preso nas redes, puxá-las para fora requer o dobro do esforço”, diz-nos Xavier. “É um pouco como tentar tirar água de um poço enquanto o balde parece estar a ser misteriosamente a ser puxado para baixo.”

De seguida, Xavier e a sua equipa, composta por seis pessoas, passam várias horas a separar o peixe do lixo que veio agarrado às redes.

Para Xavier, este é um sinal de que Kadalamma está doente, e a culpa é dele e da sua comunidade. “É o maior fracasso da Índia”, afirma.

Xavier costumava detetar os objetos de plástico e mandá-los novamente para o mar, mas agora já não o faz.

Desde de agosto do ano passado, ele e cerca de 5 mil pescadores e donos de barcos em Kollam — uma cidade piscatória com cerca de 400 mil habitantes, em Kerala, o estado mais a sul da Índia — têm recolhido todo o plástico que encontram no mar. Com a ajuda de algumas agências governamentais, montaram o primeiro centro de reciclagem da região, onde se limpa, separa e recicla todos os sacos de plástico, garrafas, palhinhas, chinelos, e bonecas Barbie que estes pescadores recolhem do mar. Até agora, já foram retiradas do mar cerca de 65 toneladas de plástico.

ONDAS DE FRUSTRAÇÃO

Não é preciso muito para explicar às comunidades que vivem no litoral os perigos dos plásticos, diz-nos Peter Mathias, diretor de uma associação regional para donos de barcos de pesca e quem os opera. Explicou-nos que há vários anos que os pescadores se queixam do plástico que fica preso no material de pesca.

E essa nem é a pior parte. Há uma década, uma pequena equipa como a de Xavier conseguia pescar cerca de quatro toneladas de peixe em dez dias. Nos dias que correm é um sorte se conseguirem um quinto dessa quantidade. Apesar de fatores como o clima e a pesca intensiva serem determinantes, a quantidade de plástico nos oceanos é a principal causa da dramática redução das comunidades de peixe nos oceanos.

Para muitas espécies de peixe é fácil confundir os fragmentos de plástico com presas ou alimento, e os estudos mostram-nos que muitos destes acabam por morrer por envenenamento ou subnutrição. Não só os peixes, mas outras formas de vida marinha acabam por ser afetadas e estranguladas pelas redes de nylon abandonadas no mar. As grandes quantidades de plástico que se depositam no fundo do mar, dificultam o acesso de algumas espécies aos territórios onde estas precisam de se deslocar para encontrarem alimento.

Pescadores em Kochi (também conhecida como Cochin), em Kerala, a separarem o que pescaram.

“Esta situação está a afetar o nosso trabalho,” confessa-nos Mathias. “E é por isso que manter os mares limpos é uma responsabilidade nossa e é necessário para a nossa sobrevivência enquanto pescadores.”

Assumir essa responsabilidade, contudo, acabou por ser um pouco mais complicado do que Mathias previra inicialmente. Os pescadores estavam a recolher plásticos sem que fosse sequer essa a sua intenção; pedir-lhes que o fizessem era o passo mais lógico que se poderia seguir. Porém, o problema era que aquela região não tinha um sistema de recolha de resíduos, nem mesmo um plano de reciclagem. Quando os pescadores que mergulham para apanhar bivalves de uma aldeia próxima tentaram desenhar um plano de ação semelhante para limpar as águas de Kerala, estes viram as suas intenções sabotadas pela ausência de um local para depositarem todo o lixo que recolhiam do mar. Estavam literalmente apenas a retirar lixo das águas e a depositá-lo novamente em terra.

UM SURTO DE APOIO

No verão passado, Mathias abordou Mercykutty Amma, ministra das pescas e sua conterrânea, e pediu-lhe ajuda. “Perguntei-lhe se nos conseguiria ajudar a fazer alguma coisa com o plástico caso nós assumíssemos a responsabilidade de o recolher” contou-nos.

A ministra respondeu afirmativamente, contudo não conseguiria fazê-lo sozinha. Por isso, cerca de um mês mais tarde reuniu cinco órgãos do governo, incluindo o Departamento de Engenharia Civil, que concordou em ajudar a construir um centro de reciclagem, e o Departamento pelos Direitos das Mulheres. Este último trata-se de um órgão responsável por melhorar as condições profissionais das mulheres numa região onde muitas das áreas de trabalho, como a pesca, são há muito dominadas pelos homens. E foi por isso que conseguiu que fosse contratada uma equipa inteiramente constituída por mulheres para trabalhar ali, no centro de reciclagem.

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Nos últimos meses, um grupo composto por 30 mulheres começou a trabalhar a tempo inteiro, lavando e separando incansavelmente os plásticos que os pescadores lhes traziam. A maior parte dos plásticos recolhidos encontram-se demasiado danificados ou erodidos para serem reciclados de uma forma tradicional. Em vez disso, estes objetos são triturados e reduzidos a um granulado que é depois vendido a responsáveis da área da construção e usado para reforçar o asfalto usado nas estradas. As receitas — bem como algum financiamento do governo ­— são suficientes para pagar um ordenado de cerca de 4,25 euros por dia às trabalhadoras. Mathias sabe que o sistema ainda não é completamente autossuficiente, mas espera que ao longo do próximo ano já o seja.

“Organizámo-nos em tantos grupos, e tão depressa, por esta causa”, diz-nos Mathias. Mas o que o deixa mais orgulhoso é o facto de que “tudo partiu de nós, dos pescadores.”

Já ajudaram duas comunidades piscatórias vizinhas, incluindo os supracitados mergulhadores, a encontrarem formas de obterem financiamento para começarem os seus próprios programas recolha e reciclagem de plásticos. Em breve, afirma Mathias, “todos os pescadores de Kerala, de toda a Índia, e de todo o mundo, se juntarão a nós.”

É uma afirmação muito forte, mas a sua confiança não é necessariamente desadequada, afirma Sabine Pahl, psicóloga no International Marine Litter Research Unit da University of Plymouth, no Reino Unido. Pahl, que investiga formas de convencer as pessoas a terem uma maior consciência ecológica e a cuidarem do nosso planeta, afirma que envolver as comunidades piscatórias na luta contra a poluição dos oceanos faz todo o sentido, e já deu bons resultados no passado. Desde 2009, a organização ecologistas do norte da Europa KIMO tem estado a recrutar pescadores do Reino Unido, Países Baixos, Suécia e das Ilhas Faroe para um programa semelhante chamado Fishing for Litter - À Pesca do Lixo.

ESPALHAR A PALAVRA

O programa indiano, porém, pode ter ainda mais potencial, “uma vez que é uma iniciativa que partiu dos pescadores”, explica-nos Pahl. Na sua investigação, apercebeu-se que a maioria das iniciativas de caráter ambiental tem origem em pequenas comunidades, e são “intrinsecamente motivadas” pelo espírito destas — ou seja, motivadas pelo altruísmo e pelo amor pela natureza e pela vida selvagem.

“É uma iniciativa muito poderosa porque os pescadores partem da melhor posição possível para convencerem o resto da comunidade — as suas famílias, os seus vizinhos — dos perigos dos plásticos nos oceanos”, explica-nos Pahl.

Pescadores inspecionam as suas redes em Varkala, Kerala.

E é isso mesmo que eles estão a fazer. Muitos dos pescadores do porto de Kollam afirmam que nove meses depois do início do programa, a quantidade de fragmentos de plástico que ficam presos nas redes parece ter reduzido consideravelmente. Contudo, o objetivo é o de acabar com a mera existência de plásticos no oceano. Para o atingir, 5000 destes indivíduos estão decididos a reduzir a sua dependência de plásticos, ou pelo menos a certificarem-se de que estes acabam no centro de reciclagem e não no oceano.

Mathias e Xavier confessam que não se coíbem de usar estrategicamente a culpa para convencer as pessoas a não serem desleixadas com o lixo.

“Digo-lhes, ‘Se continuares a poluir o oceano com plástico… enquanto pescador, ficarei sem meio de subsistência’”, afirma Mathias. E isso, explica-nos, é o suficiente para convencer quase toda a gente.

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