Consumo de Plástico em Portugal: Estamos no Bom Caminho?

O consumo de plástico é um dos maiores inimigos do planeta. E em Portugal, como estamos?Monday, February 11, 2019

Por National Geographic
Uma rede de pesca prende uma tartaruga no mediterrâneo. A tartaruga teria morrido se o fotógrafo não a tivesse libertado. O equipamento abandonado, proveniente da pesca, é uma grande ameaça para as tartarugas marinhas.

O mundo declarou guerra ao consumo de plástico. Mas será que estamos, em Portugal, a seguir verdadeiramente a tendência?

LIXO NO MEDITERRÂNEO

Segundo um estudo publicado em 2018 pela World Wildlife Fund (WWF), em Portugal 72% do lixo encontrado em zonas industriais e de estuários são microplásticos - partículas com menos de 5 milímetros que resultam da degradação do plástico. As zonas mais afetadas, com maiores densidades de microplásticos, são Lisboa e a Costa Vicentina pela proximidade aos estuários do Tejo e Sado.

Esta poluição por microplásticos tem repercussões importantes não só na cadeia alimentar marinha, mas também em humanos. Estima-se que 20% dos peixes de consumo quotidiano tenham microplásticos nos seus estômagos e 80% das tartarugas-marinhas-comuns comam lixo - que na sua maioria é plástico.

O PLÁSTICO NO DOURO JÁ ULTRAPASSA OS PEIXES

Um artigo publicado recentemente na revista “Science of the Total Environment”, pela CIIMAR, dá conta da quantidade alarmante de microplásticos existentes no estuário do Douro. O estudo que fundamentou o artigo começou a ser desenvolvido em 2016, e conclui que há, de facto, mais plástico do que larvas de peixe, numa proporção de uma larva para 1,5 partículas de microplástico no estuário do Rio Douro.

Quais são as possíveis implicações disto? Por um lado, está a possibilidade de confusão destas partículas diminutas com alimentos, o que pode levar à sua ingestão. Por outro, estes materiais podem estar a ocupar espaço que deveria ser usado pelos animais, e ainda a bloquear a luz que têm disponível.

As consequências não são só para as larvas de peixe. Esta situação alarmante tem consequências gravíssimas para toda a comunidade, afetando a zona costeira adjacente e todas as áreas que dependem do estuário.

O fotógrafo libertou esta cegonha de um saco de plástico em num aterro sanitário em Espanha.

NÚMEROS ASSUSTADORES NA UNIÃO EUROPEIA

Em outubro de 2017, a Seas At Risk publicou um estudo com alguns números alarmantes sobre o consumo de plástico e de descartáveis na UE. Estes números são relativos à vida quotidiana dos europeus dos 28 estados-membros, e ao consumo de plásticos que contribui para a poluição dos oceanos. O estudo mostra que, por ano, são consumidos:

- 46 mil milhões de garrafas de plástico;

- 16 mil milhões de copos de plástico;

- 580 mil milhões de beatas de cigarros;

- 2,5 mil milhões de embalagens descartáveis do estilo take-away;

- 36,4 mil milhões de palhinhas.

Mais: este tipo de plásticos e resíduos compreendem cerca de 51% do lixo encontrado em praias europeias, segundo o mesmo estudo. Além disso, o desperdício de recursos e o custo em tratamento de resíduos associado é, obviamente, enorme.

E PORTUGAL NÃO ESTÁ MUITO MELHOR

Em Portugal os números fazem pensar. Anualmente, Portugal consome:

- 721 milhões de garrafas de plástico;

- 259 milhões de copos de café descartáveis;

- mil milhões de palhinhas;

- 40 milhões de embalagens de descartáveis (take away ou fast food);

- 10 mil milhões de beatas de cigarros.

Será que estamos preparados para mudar a tendência?

 

Em Okinawa, no Japão, um caranguejo eremita recorre a uma tampa de garrafa de plástico para proteger seu abdômen. Os banhistas recolhem as conchas que os caranguejos normalmente usam e deixam o lixo para trás.

CONSUMO DE PLÁSTICO AUMENTOU

E, assustadoramente, um estudo elaborado pela Informa D&B sobre o setor das embalagens de plástico dizia-nos que, entre 2016 e 2017, a produção de embalagens de plástico aumentou cerca de 5.6%.

Já a Agência Portuguesa para o Ambiente, apresentou num relatório do estado do ambiente, mais números relativos ao consumo de plástico e produção de resíduos em geral. Em 2017, cada cidadão português produziu 1,32 kg de resíduos por dia, representado um aumento de 2,3% face a 2016. Mas se acha que este aumento veio acompanhado de mais diferenciação de resíduos, temos más notícias: 83.5% dos resíduos urbanos recolhidos em 2017 estão associados a recolha indiferenciada, apesar de Portugal estar na média da UE em termos de reciclagem.

E OS PORTUGUESES, COMO VÊM O CONSUMO DE PLÁSTICO?

Ainda em 2017, uma iniciativa europeia divulgada em Portugal pela Quercus, fez-nos pensar sobre os nossos comportamentos. Cerca de 96% dos portugueses inquiridos numa campanha de sensibilização estavam cientes do problema ambiental associado aos plásticos e microplásticos. No entanto, menos de 50% admitia ter mudado o seu comportamento em relação ao consumo de plástico.

Nesta amostra de 300 pessoas, 22.6% não conheciam as alternativas ecológicas a grande parte dos produtos descartáveis – falamos de sacos de compra de pano, escovas de bambu, garrafas reutilizáveis, alternativas aos cotonetes, etc. Mais de metade da amostra tinha dificuldade em identificar plásticos recicláveis e produtos que contém microplásticos. Ainda no tema da reciclagem, este estudo permitiu perceber que quase 80% dos inquiridos acreditava que as cápsulas de café deveriam ser colocadas no ecoponto amarelo, e 22.5% acredita que os pacotes de leite não.

Um pequeno cavalo-marinho, Hippocampus kuda, deambula nas águas poluídas de Sumbawa Besar, junto à Ilha de Sumbawa, na Indonésia.

O QUE É QUE O FUTURO NOS RESERVA?

É fácil perder a esperança com estes números, mas não o faça já. Por todo o lado surgem notícias que mostram que, mesmo lentamente, a mudança de mentalidades e comportamentos está a acontecer. São exemplos a proibição de copos descartáveis nas ruas de Lisboa a partir de 2020, as mudanças em festivais e eventos grandes que já presenciámos, como a utilização de copos reutilizáveis, ou a colocação até 2022 de equipamentos de recolha de plásticos, metais e vidros em superfícies comerciais. Desde 1 de janeiro deste ano que na função pública passaram a ser proibidos os concursos públicos de aquisição de material como copos, palhinhas e colheres de café descartáveis para a administração e empresas públicas, bem como sacos de plástico que deverão ser substituídos por sacos de papel.

Ainda numa nota positiva, por todo o lado se multiplicam as opções mais ecológicas a produtos usados no quotidiano – e a preços bem mais acessíveis que há uns anos. A UE pretende pôr em prática a partir de 2021 a proibição de palhinhas, cotonetes e talheres descartáveis, numa tentativa de reduzir o consumo de plástico de utilização única e reduzir os níveis de poluição marítima.

As (boas) mudanças acontecem e são contagiosas: assuma o compromisso, escolha o planeta!

 

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