Planeta ou Plástico?

Nas Profundezas do Mar Existem Criaturas Que Se Alimentam de Plástico

Em seis das fendas mais profundas do oceano, cientistas descobriram criaturas minúsculas, parecidas com camarões, que “mastigam” pequenos pedaços de plástico.Monday, March 18

Por Sarah Gibbens, Laura Parker
Os anfípodes das profundezas do oceano, como esta pequena criatura parecida com um camarão, estão a comer pedaços microscópicos de plástico e pequenas microfibras.

O lixo plástico é agora praticamente incontornável em todas as fendas dos oceanos mundiais, e um estudo recém-publicado descobriu que as criaturas que vivem nos ambientes mais remotos da Terra o estão a comer em quantidades surpreendentes.

Uma equipa de investigação britânica capturou anfípodes – minúsculos crustáceos semelhantes a camarões que vasculham o fundo do mar – em seis das fossas oceânicas mais profundas do mundo e levaram-nos para o laboratório. Lá, descobriram que mais de 80% dos anfípodes tinham fibras e partículas de plástico nos seus sistemas digestivos, conhecidos como epigastro. Quanto mais profunda a fossa oceânica, mais fibras tinham. Na Fossa das Marianas, a mais profunda de todas, a mais de 11 quilómetros abaixo das ondas no Pacífico ocidental, os cientistas encontraram fibras em 100% das amostras – em todos os anfípodes recolhidos. Estudos anteriores, sobre as partículas de plástico ingeridas por organismos marinhos capturados perto da superfície, encontraram percentagens muito inferiores.

Esta nova investigação, publicada na revista Royal Society Open Science, acrescenta novos detalhes às investigações anteriores, que só descobriram fragmentos de plástico em sedimentos no fundo do mar em 2014. Esta realidade realça a imagem das fossas oceânicas como sendo o destino final dos detritos marinhos. Não são boas notícias.

Assim que as partículas assentam no fundo do mar, não têm mais para onde ir.

Se pudéssemos, como que por magia, estalar os dedos e parar de produzir plástico nos próximos 10, 20 ou 50 anos, o que aconteceria ao plástico no rio? O plástico seria expelido e diluído”, diz Alan Jamieson, biólogo marinho da Universidade de Newcastle e autor principal do estudo. “Nas linhas costeiras seria disperso e dissolvido. No oceano aberto, a radiação ultravioleta e a ação das ondas atuariam sobre o plástico e a superfície ficaria novamente limpa. O que acontece quando chegamos ao mar profundo? Não há dispersão nem diluição. Só vai acumular sempre mais e mais plástico.

Jamieson acrescenta “esta não é uma descoberta única. O Oceano Pacífico cobre metade do planeta. Os nossos locais de estudo foram ao largo do Japão, do Peru e do Chile, locais separados por milhares de quilómetros. Podemos agora afirmar com confiança que o plástico está em toda a parte. Não vamos perder o nosso tempo há procura de mais. Vamos concentrar os nossos esforços no impacto que está a ter”.

COMO É QUE RECOLHERAM AMOSTRAS NAS PROFUNDEZAS?

A equipa de investigação recolheu amostras em cinco fossas, em todo o Pacífico ocidental, e numa fossa, em águas profundas, na costa oeste da América do Sul. Os investigadores montaram cuidadosamente armadilhas com isca, para evitar contaminar o interior de uma criatura com plástico.

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Depois de recolhidas as amostras, os investigadores estudaram uma parte interna do sistema digestivo das criaturas, chamada epigastro. Queriam garantir que os resultados não apresentavam sinais de plástico ingerido após a captura dos anfípodes.

No interior do epigastro, encontraram um arco-íris de itens plásticos.

Do plástico que encontraram, 66% pertencia a fibras azuis. Também encontraram fragmentos pretos, vermelhos, roxos e cor-de-rosa.

Não existe nenhuma fossa oceânica livre de fibras, e mais de 80% dos anfípodes continha fibras no organismo. As fibras, depois de analisadas, revelaram ser as mesmas que são usadas em têxteis, e o estudo sugere que estas entraram no oceano após a solubilização de máquinas de lavar.

Richard Thompson, cientista marinho da Universidade de Plymouth, cujo estudo de 2014 descobriu os micro-plásticos no fundo do mar, diz que este novo trabalho é "a peça que faltava no puzzle".

“A questão que se coloca é esta: estará o plástico a fazer mal? É uma avaliação de risco. Quanto mais plástico tivermos, maiores serão as probabilidades de termos um elevado número de criaturas que interagem com ele. Existem poucos estudos no oceano profundo, estamos agora a começar a conhecê-lo.”   

O QUE SIGNIFICA PARA AS CADEIAS ALIMENTARES DO OCEANO?

Jamieson diz que as reações que tem recebido, quando revela que a vida marinha no fundo do mar está a comer plástico, se dividem em duas categorias. A primeira é a do horror de que nenhum lugar no planeta tenha escapado à invasão do plástico. A outra reação é bem pior...

“Acreditem ou não, as pessoas dizem 'Isso é ótimo. Isso significa que a contaminação da terra está agora no fundo do mar e isso são boas notícias, certo?’”, diz Jamieson. "É uma loucura que as pessoas gostem de pensar dessa maneira."

"Os humanos têm uma relação estranha com profundidades", diz Jamieson. “Quando falamos de profundidades aquáticas de 11 quilómetros, as pessoas passam-se. Se colocarmos as coisas de outra forma, 11 quilómetros é metade do comprimento de Manhattan. Um maratonista consegue percorrer essa distância em 20 minutos. O mundo é pequeno em muitos aspetos e se atirarmos uma coisa ao mar, esta pode afundar-se em lugares que acreditamos estar longe, mas que na realidade não estão”.

Jamieson diz que o oceano devia ser encarado de forma diferente – como parte de um corpo contínuo de água que cobre a maior parte da superfície da Terra, repleto de milhões de animais, todos interagindo uns com os outros.

Susanne Brander, toxicologista da Universidade Estadual do Oregon que estuda os efeitos dos micro-plásticos em larvas, diz que os anfípodes estão a tornar-se num vetor de transporte de partículas de plástico para a cadeia alimentar.

“Os anfípodes onde encontraram estas fibras são presas de peixes maiores, esses peixes são presas de predadores ainda maiores”, diz Brander. “O zooplâncton na base da cadeia alimentar está a absorver estas microfibras porque são semelhantes, em tamanho, ao fitoplâncton que comem. E isso coloca as fibras na cadeia alimentar. Estamos a encontrar organismos maiores com os intestinos revestidos de microfibras. Já foi encontrada uma baleia que estava encalhada e, quando a abriram, os seus intestinos estavam revestidos por estas partículas menores. Isto dá-nos uma ideia do que está a acontecer num sentido mais amplo”.

Existem cerca de 51 triliões de pedaços de plástico no oceano, e 90% desse plástico oceânico é microscópico. Os cientistas já compararam esta realidade a uma espécie de "sopa".

Em dezembro passado, investigadores no Japão informaram a National Geographic para a urgência em aprender sobre estes lugares remotos. Recriar a pressão intensa do fundo do mar em laboratório é difícil, e os impactos totais do plástico nos organismos das profundezas do oceano ainda são desconhecidos ou estão por confirmar.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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