Planeta ou Plástico?

Baleia Grávida Morreu Com 22 Quilogramas de Plástico no Estômago

O Mar Mediterrâneo está a sufocar com lixo plástico, e esta baleia pode ser a vitima mais recente do problema da poluição. Monday, April 8

Por Alejandra Borunda
Uma baleia grávida deu à costa, já morta, numa praia da Sardenha, em Itália. O seu estômago estava cheio de plástico.

Em finais de março, deu à costa uma baleia (cachalote) grávida, já morta, numa praia nos arredores de Porto Cervo, uma cidade turística na ilha italiana de Sardenha. Quando os cientistas e veterinários abriram o seu ventre e estômago, encontraram uma visão aterradora: uma baleia bebé morta, e 22 quilos de resíduos de plástico.

O plástico enchia mais de dois terços do seu estômago. Também encontraram vestígios de algumas lulas que a baleia tinha comido – mas provavelmente os nutrientes desse alimento nunca chegaram à sua corrente sanguínea, porque os intestinos estavam bloqueados pelo emaranhado de lixo plástico.

“Eu nunca vi uma quantidade de plástico tão grande”, disse Luca Bittau, biólogo marinho na SEAME Sardinia, uma organização sem fins lucrativos que se concentra em estudar e proteger os cetáceos que vivem na região. Eles encontraram redes de pesca; linhas de pesca; sacos de plástico (alguns com os códigos de barras ainda legíveis); tubos de plástico, e até mesmo alguns pratos de plástico "como aqueles que usamos em casa", diz. “Era como se a nossa vida do dia-a-dia estivesse lá, mas estava dentro deste estômago.” A percepção do momento, disse Bittau, foi devastadora.

ÁGUAS CRISTALINAS À SUPERFÍCIE COM PLÁSTICO NAS PROFUNDEZAS

Os cientistas acreditam que a baleia, de 8 metros de comprimento, fazia parte de um grupo que passa o seu tempo a alimentar-se e a reproduzir perto do Desfiladeiro de Caprera, uma fenda profunda sob as águas cristalinas do Mar Mediterrâneo. A região é popular entre turistas e velejadores, e os biólogos pensavam que o maior desafio enfrentado pelas baleias era o tráfego naval – e não a poluição por plástico.

Contudo, debaixo da superfície maravilhosa do mar, diz Bittau, a situação não é bonita. O plástico polui o leito profundo do oceano, onde as baleias e os seus parentes mais próximos se alimentam. Elas mergulham no desfiladeiro, usando a ecolocalização, à procura de lulas para comer.

Mas um saco de plástico a “acenar” nas correntes profundas do oceano é difícil de distinguir de uma lula a nadar. E assim que uma baleia ingere um saco, este permanece dentro de si. Cada erro que uma baleia comete a alimentar-se agrava o problema e, lentamente, o seu estômago vai-se enchendo de material mortífero.

A causa de morte desta baleia ainda não foi determinada. Os veterinários e cientistas da Universidade de Sassari ainda estão a investigar o que provocou exatamente a morte da baleia e da cria. Mas esta baleia é apenas a vitima mais recente numa longa lista de mamíferos marinhos que têm sido encontrados mortos com os estômagos cheios de plástico.

UM PROBLEMA GLOBAL

“O plástico encontra-se agora por todo o lado, em todo o mundo, e em todo o ecossistema marinho e na cadeia alimentar, desde aves marinhas a tartarugas e focas”, diz Nick Mallos, diretor do programa Mares Livres de Lixo da Ocean Conservancy, uma organização sem fins lucrativos que centra a sua atenção na proteção dos oceanos. “É literalmente um problema global, com ocorrências massivas, e estamos a assistir ao aumento continuado dos impactos.”

A poluição por plástico entranhou-se nas fendas mais profundas do oceano, e o Mediterrâneo não é exceção. O seu mar recolhe lixo dos países circundantes e, como o oceano é uma bacia fechada, esse lixo fica preso nas suas águas – basicamente para sempre. A Greenpeace, através de um relatório recente, estima que a maior parte das 150 mil a 500 mil toneladas de detritos plásticos que entram todos os anos nos cursos de água europeus acaba no Mediterrâneo.

Em resposta à crise do plástico, a União Europeia aprovou recentemente uma interdição, agendada para entrar em vigor em 2021, a vários tipos de plástico de uso único.

Mas isso já vem tarde demais para salvar esta baleia.

“Este é outro exemplo trágico dos impactos reais que os plásticos têm quando entram no oceano”, diz Mallos. Os oceanos mundiais enfrentam muitos desafios, diz, “mas a poluição por plástico é o único desafio para o qual conhecemos a solução. Não temos de nos preocupar em alterar a química dos oceanos ou gerir as populações de peixes. Basta fechar a torneira dos plásticos que desagua nas nossas águas.”

“Quando vemos aquelas coisas dentro da baleia, todos nos sentimos responsáveis”, diz Bittau – como os pratos que usamos em casa, os sacos e os tubos de plástico. “Por isso, compete-nos a nós solucionar o problema.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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