Nova Sonda Pousa em Segurança em Marte. O Que Vai Acontecer a Partir de Agora?

A sonda InSight da NASA chegou ao local ideal para penetrar no coração do planeta vermelho.sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Depois de uma viagem espacial de 205 dias, a sonda InSight da NASA chegou em segurança à superfície de Marte. Incumbida da tarefa de observar o que se esconde por debaixo da superfície marciana e de mapear o mundo subterrâneo do planeta vermelho, a sonda aterrou às 19h52, hora de Lisboa num trecho soalheiro de uma paisagem monótona localizada nas planícies equatoriais de Elysium Planitia.

As equipas de ansiosos cientistas e engenheiros, reunidas no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (Jet Propulsion Laboratory – JPL), na Califórnia, sabiam que a nave espacial tinha sobrevivido à difícil e melindrosa descida até à superfície do planeta vermelho depois de terem recebido dados que indicavam que a sonda tinha aterrado em segurança seguidos de uma imagem da própria sonda InSight a mostrar um horizonte extraterrestre poeirento com um único pé de robô.

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O Regresso de Marte

"Bom e sujo; como eu gosto", diz Bruce Banerdt, investigador principal da missão InSight. "Esta imagem é, na verdade, um argumento muito bom para defender a utilização de proteção contra o pó na câmara. Foi uma boa decisão, não foi?

Depois de ter conseguido abrir os painéis solares algumas horas mais tarde, a nave espacial tornou-se oficialmente o mais novo membro de uma frota de elite de robôs interplanetários que estão a explorar o planeta vermelho, entre os quais se conta o orbitador Mars Reconnaissance, que monitorizou a descida da InSight.

"Estou muito, muito contente por termos pousado numa planície aparentemente seguríssima e monótona. Era exatamente o que pretendíamos: é o que os responsáveis pela seleção do local de aterragem me tinham prometido", diz Tom Hoffman, do JPL e gestor de projeto da missão InSight. "Prometeram-me um local arenoso sem rochas. Mas há uma rocha, pelo que talvez tenha de lhes dar uma palavrinha."

PRIMEIRO CONTACTO

A viagem de mais de 480 milhões de quilómetros da sonda InSight começou na nubelosa alvorada de 5 de maio com um lançamento na Base da Força Aérea de Vandenberg, na Califórnia. Enfiada na sua concha, a nave espacial saiu disparada pelo sistema solar, navegando pela luz das estrelas com um sensor a bordo, o star tracker, a ajudá-la a manter o rumo.

No dia 25 de novembro – e, de novo, poucas horas antes da aterragem – a equipa de entrada, descida e aterragem da nave encaminhou-a para uma trajetória que lhe permitiu acertar em cheio na Elysium Planitia. Esta planície rasa e sem nenhum ponto de interesse particular foi escolhida especificamente devido à relativa abundância de luz solar no equador e à monotonia geológica que apresenta à superfície, que se constitui como a melhor possibilidade de encontrar locais ideais para assentar os instrumentos.

Depois de definir a forma como a nave iria mergulhar na atmosfera de Marte, a equipa não podia fazer mais do que sentar-se e esperar: sem uma entrada orientada, a InSight tinha de voar sozinha até à superfície de Marte, o que significava que a segurança da aterragem dependia da correção dos comandos pré-programados e do funcionamento adequado de todos os instrumentos necessários a bordo.

"Há certamente aspetos que me farão sorrir se correrem bem", tinha referido na semana anterior Julie Wertz-Chen, membro da equipa de entrada, descida e aterragem.

Quando a nave espacial InSight entrou em contacto com a atmosfera fina de Marte, um escudo de calor impediu que se queimasse, enquanto seguia o sua marcha galopante a quase 19800 quilómetros por hora. Cerca de um minuto depois, a nave espacial ativou um paraquedas que a travou bruscamente e a levou a reduzir a velocidade para 215 quilómetros por hora.

Depois, o escudo de calor soltou-se e um radar a bordo começou a procurar o solo até o fixar. A um quilómetro de altura, a InSight descartou o paraquedas, realizou uma pequena queda livre e depois acionou doze motores de descida que reduziram a velocidade da nave para uns meros 8 quilómetros por hora.

Do contacto com a atmosfera até as pernas do robô tocarem o solo decorreram apenas seis minutos e 45 segundos.

"Foi uma experiência extremamente emocionante", relata Hoffman. "Chegar ao ponto em que se tem mais sete minutos para sobreviver, literalmente sobreviver, é incrivelmente difícil de descrever. O meu coração simplesmente deixou de bater durante sete minutos.”

A sonda InSight não foi o único robô a entrar no espaço aéreo de Marte hoje. Foi acompanhado de duas mininaves espaciais, cada uma com o peso sensivelmente igual ao de uma pasta de documentos, lançadas no âmbito da primeira missão de envio de minúsculas naves espaciais conhecidas como CubeSats para o espaço interplanetário.

Conhecidas coletivamente como Mars Cube One, mas separadamente como MarCO-A e MarCO-B, tinham como missão recolher informação sobre a descida até á superfície da sonda InSight, e, depois, transmiti-la ao controlo da missão no JPL. Não só conseguiram levar a cabo esta tarefa, como enviaram uma imagem evocativa e impactante de Marte quando partiram.

"Este é um dia fantástico para os veículos espaciais, grandes e pequenos", afirma Andrew Klesh do JPL: "Esta equipa composta sobretudo por trabalhadores a tempo parcial provou o valor da tecnologia que está a tentar demonstrar com esta missão."

BATIMENTO CARDÍACO DE MARTE

Agora que os painéis solares da sonda InSight estão em posição, chegou a hora de começar a trabalhar. Ao longo de um ano marciano (ou, pelo menos, dois anos terrestres), a sonda fará algo um pouco diferente da maioria das outras missões a Marte, que se focaram nos impressionantes vales recortados, nos vulcões gigantescos ou em sinais de existência de água corrente à superfície no passado.

Ao invés, esta missão tem como objetivo chegar ao coração de Marte, de medir o tamanho do núcleo do planeta e de outras camadas interiores. Para o fazer, servir-se-á dos sismos de marte, ou seja, os tremores que são muitas vezes produzidos pela mesma atividade tectónica que esculpe os belos montes e vales que caracterizam o planeta.

Uma das principais metas da sonda InSight é perceber o nível de atividade sísmica de Marte, diz Renee Weber do Centro de Voos Espaciais George C. Marshall da NASA.

 "É algo que não sabemos, na verdade, afirma. "Trata-se basicamente de saber quantos sismos existem, qual a sua frequência, onde ocorrem e que intensidade têm?

Weber acredita que Marte irá situar-se algures entre a Terra e a Lua no que à atividade tectónica diz respeito (sim, a Lua tem sismos, que os astronautas das missões Apollo mediram quando a visitaram nos anos 1970).

Estacionada à superfície, a sonda InSight está só à espera de captar os sinais. Ao longo dos próximos dois meses, irá acionar os seus instrumentos, entre os quais um sismómetro com uma sensibilidade apuradíssima que deverá detetar um conjunto variado de sismos marcianos, tanto os produzidos pelos espasmos do próprio planeta como os resultantes de impactos de meteoros.

"Espera-se que os instrumentos estejam a funcionar no terreno daqui a cerca dois a três meses", diz Elizabeth Barrett, do JPL. "Comparo-o àquelas máquinas de brindes com grua das feiras, mas estamos a jogar para um prémio muito, muito valioso, temos os olhos vendados, só podemos tirar fotografias de vez em quando, e estamos a usar um comando à distância a partir de outro planeta.”

Depois de determinar a localização de um sismo marciano, a sonda irá ler as ondas sísmicas recebidas e usar a informação que trazem para perceber de que tipos de rocha derivam. Quando os sismos marcianos fazem tremer os interstícios do planeta, enviam ondas sísmicas através do interior, sinais que são transmitidos de forma ligeiramente diferente dependendo do tipo de material de que derivam.

Com dados suficientes de direções diferentes suficientes, os cientistas deverão ser capazes de delinear um panorama do coração do planeta. Será ainda acionado um segundo instrumento capaz de registar a temperatura do planeta, perfurando as profundezas de Marte para descobrir a quantidade de calor que está a ser libertada pelo núcleo do planeta.

Tomadas como um todo, as leituras da sonda InSight irão ajudar os cientistas a perceber de que forma os planetas se constituem e evoluem, de acordo com Suzanne Smrekar, investigadora adjunta da missão. É importante não só para compreender melhor o nosso próprio sistema solar, mas também para decifrar pistas sobre planetas muito mais distantes que orbitam outras estrelas.

"Conhecer verdadeiramente todos os ingredientes, não só os que estão à superfície", afirma Smrekar, "é fundamental para sermos, de facto, capazes de prever razoavelmente o que se passa nestes planetas longínquos."

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 
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