Os Cinco Principais Mistérios a Desvendar Sobre Marte

Ao fim de quatro décadas de exploração, sabemos muito sobre o planeta vermelho. Mas há questões importantes que ainda não foram esclarecidas.

Friday, November 23, 2018,
Por ANDREW FAZEKAS
Marte brilha sobre o Parque Nacional de Sagarmatha, no Nepal.

Marte brilha sobre o Parque Nacional de Sagarmatha, no Nepal.

Fotografia de Babak Tafreshi

Há muito tempo que a quarta rocha a partir do sol, Marte, é alvo da imaginação popular e do interesse científico. Ao longo das últimas décadas, os robôs que exploram o planeta vermelho vêm transmitindo fotografias de um mundo estranho cheio de uma beleza arrebatadora.

Com montanhas três vezes mais altas do que o Everest e desfiladeiros cinco vezes mais longos do que o Grand Canyon, Marte é um paraíso do viajante que procura aventura. E com uma atmosfera empoeirada, calotas polares que mudam com as estações e dias com cerca de 24 horas, Marte é suficientemente parecido com a Terra para cativar visitantes humanos.

 

MARTE regressou com uma nova temporada, Domingos às 22:30 no National Geographic.

O Regresso de Marte

Estando a próxima grande missão da NASA, a sonda InSight, a preparar-se para aterrar no fim de novembro, vejamos alguns dos maiores mistérios de Marte ainda por desvendar — incluindo algumas coisas que podemos nunca chegar a saber antes que os humanos pisem o solo de Marte.

HÁ ÁGUA LÍQUIDA A CORRER EM MARTE ATUALMENTE ?

A atmosfera atual de Marte é tão fria e fina que a água líquida à superfície evaporaria ou ficaria congelada no interior do solo. No entanto, durante mais de quatro décadas, as naves espaciais tiraram fotografias do que parecem ser centenas de leitos fluviais e desfiladeiros secos que podem ter sido esculpidos por torrentes rápidas de água num passado distante.

Então para onde foi a água toda? Os cientistas creem que estes traços de erosão podem ser resquícios de uma época em que Marte era mais quente e mais húmido e que alguma da água pode ainda encontrar-se retida no subsolo em forma de gelo ou até de reservas líquidas profundas.

Os orbitadores de observação de Marte mostraram grandes quantidades de gelo nos polos do planeta. Em 2015, imagens do Orbitador de Reconhecimento de Marte da NASA revelaram fortes evidências de que pode haver água líquida a correr intermitentemente na superfície moderna de Marte. Com base nos dados do orbitador, os investigadores identificaram as impressões digitais químicas de minerais hidratados em muitas vertentes de crateras íngremes nas quais já tinham sido avistadas misteriosas faixas negras.

É possível que haja água salgada a correr nestes montes marcianos durante estações quentes e a evaporar-se quando o tempo arrefece. Mas sem uma análise mais próxima, é difícil dizer com certeza se estes traços estão de facto a ser esculpidos pela água ou simplesmente por correntes de resíduos secos.

Ao mesmo tempo, o orbitador europeu Mars Express usou um radar de penetração no solo para descobrir sinais de um lago com 19 metros de comprimento sob a calota de gelo do polo sul do planeta. Os cientistas acreditam que o lago subterrâneo pode manter-se em estado líquido devido à concentração natural de sal que apresenta. Além disso, sugerem que Marte pode ter muitas destas reservas de água espalhadas pelas regiões polares. Encontrá-las e perceber como ter acesso ao respetivo teor pode ser crucial para os exploradores humanos que venham a visitar Marte.

PORQUE É QUE O HEMISFÉRIO NORTE É PLANO E O HEMISFÉRIO SUL TEM TANTAS CRATERAS?

Nos anos 1970, as missões Viking da NASA fizeram o primeiro levantamento completo da topografia de Marte. Desde então, os cientistas têm vindo a juntar as peças para saberem a razão por que o planeta tem duas faces: o hemisfério norte é muito mais plano e mais baixo do que o hemisfério sul, caracterizado por terras altas cheias de crateras e por uma diferença de elevação de 4,8 a 8 quilómetros.

Há teorias que sugerem que podem ter sido os processos geológicos internos, como a convecção de calor no manto, a formar os traços atuais de Marte. Também é possível que a metade setentrional do planeta se tenha erodido ao longo do tempo por ação de um vasto oceano que encheu aquela bacia global.

Outros estudos, porém, avançaram com uma hipótese mais violenta para esta estranha dicotomia: talvez um grande asteroide do tamanho da lua terrestre tenha colidido com o polo sul do planeta há 3,9 mil milhões de anos. Um impacto tão devastador teria sido um momento definidor de Marte, ao revolver um oceano de magma que teria dado origem ao vulcanismo do planeta vermelho, que por sua vez poderia ter expelido o material que criou as terras altas do sul.

Deslindar este aspeto do passado do planeta vermelho poderia ajudar os cientistas a compreender melhor quais são os locais onde os exploradores do futuro poderão aterrar para encontrar os melhores recursos para assegurar uma presença humana sustentada.

O QUE ESTÁ A GERAR METANO NA ATMOSFERA DE MARTE?

Nos últimos anos, tanto os telescópios a partir da Terra como os orbitadores de Marte detetaram vestígios de metano no planeta vermelho. E a presença deste gás poderia ser o resultado de atividade biológica atual ou indicar a existência de outros processos geológicos.

Descobertas recentes da sonda Curiosity da NASA indiciavam que os níveis de metano de Marte, habitualmente baixos, tinham aumentado dez vezes em poucos meses. Este fenómeno indica que existe produção de metano a decorrer e que o gás poderá estar a ser libertado e a dispersar-se rapidamente na cratera de Gale, local de aterragem da sonda. Embora, na atmosfera da Terra, este gás resulte sobretudo de atividade biológica, os cientistas afirmam que estas observações em Marte não são necessariamente uma evidência sólida de vida microbial.

A NASA acredita que a fonte deste metano se encontra a norte da Curiosity, mas é quase impossível definir a localização exata. A fonte de metano pode permanecer um mistério por agora, uma vez que a sonda não se dirige naquela direção, mas tem como objetivo investigar as camadas de rochas da montanha central da cratera.

HÁ VIDA EM MARTE?

O principal ingrediente para a vida tal como a conhecemos é a água líquida, e os sinais de que está presente em Marte mantêm acesa a esperança de que poderão ser encontrados sinais de vida passada ou presente. Mas a superfície de Marte é um local inóspito, com vertiginosas variações de temperatura e pouca proteção contra uma radiação ultravioleta nociva.

Muitos cientistas acreditam que os leitos secos de lagos como a cratera de Gale podem conter fósseis ou outros vestígios de vida orgânica passada perto da superfície e a próxima megamissão da NASA, conhecida para já como sonda Marte 2020, irá procurar este tipo de vestígios. Por enquanto, as formas extremas de vida na Terra, como os sinais de que há micróbios a viver nas profundezas do interior do planeta, alimentam a esperança de que poderá haver algo vivo em Marte na atualidade. (Contudo, alguns especialistas defendem que enviar humanos a Marte irá dificultar a busca de vida extraterrestre.)

PODERIAM OS HUMANOS VIVER EM MARTE?

A corrida para enviar humanos a Marte está lançada: a NASA espera enviar uma missão a Marte possivelmente em meados dos anos 2030 e há parcerias públicas e privadas no mundo inteiro a desenvolver a tecnologia necessária.

Mas para sobreviverem em Marte, os humanos terão de viver e trabalhar sem depender da Terra, e de obter sustento a partir dos recursos naturais do planeta. Provavelmente, os habitats teriam de ser construídos no subsolo para proteger as pessoas de radiação cósmica perigosa. Cultivar comida em Marte também será um desafio, uma vez que as sondas mostraram que o solo à superfície é estéril e está cheio de compostos tóxicos chamados percloratos.

Há até ambiciosos engenheiros espaciais a delinear planos para as próximas gerações de tecnologia movidas a energia nuclear, química e solar que irão não só permitir o desenvolvimento da ciência em Marte, mas possivelmente também servir de base para habitats humanos autossuficientes. Será necessário construir células de combustível e baterias mais eficientes para assegurar a sobrevivência nas semanas de escuridão que enfrentarão durante as tempestades de pó regionais e globais. Escavar a terra e as rochas debaixo dos pés será crucial para criar ar respirável, água potável, combustível para os foguetões e materiais básicos de construção.

A única forma de resolver este mistério é encetando a primeira expedição a Marte. Quando tal acontecer, a maior de nós estará decerto colada ao ecrã, esperando ansiosamente que os humanos estabeleçam o próximo posto avançado em Marte.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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