Vimos a Terra Erguer-se Sobre a Lua em 1968. Isso Mudou Tudo.

A famosa foto da Véspera de Natal demorou 90 segundos a tirar e deu o pontapé de saída para cinco décadas de sensibilização sobre a beleza e a fragilidade do nosso planeta. Thursday, January 3

Por Nadia Drake
O satélite Deep Space Climate Observatory, ou DSCOVR, descolou em fevereiro de 2015 com a missão de monitorizar a Terra a partir de uma distância de um milhão de milhas, permitindo ter uma visão completa do planeta. Isto também possibilitou à lua fazer de “emplastro” em algumas das imagens do DSCOVR, como acontece nesta foto tirada em julho de 2016.

Há meio século atrás, três humanos navegaram até à órbita lunar, deram 10 voltas à lua e regressaram a casa. Quando a gravidade terrestre os prendeu firmemente de volta ao planeta, a tripulação da Apollo 8 foi justamente celebrada como os primeiros Terráqueos a visitarem a nossa companheira celestial.

Mas o seu verdadeiro legado só se viria a revelar três dias mais tarde, a 30 de dezembro de 1968, quando a NASA publicou uma imagem tirada na Véspera de Natal, que mostrava o nosso planeta suspenso sobre a lua.

Agora chamada Nascer da Terra, a imagem é lendária; um postal das primeiras almas que abandonaram verdadeiramente o planeta. É verdade que as naves espaciais já nos tinham enviado imagens como esta, mas esta foto era a primeira do seu género a ser tirada por um humano fascinado segurando uma câmara. Na foto, a beleza marmoreada da Terra destaca-se da escuridão do espaço, amplificada pelo ar desolador, quase monocromático, do horizonte lunar em primeiro plano.

“É claramente a fotografia mais importante alguma vez tirada”, diz o fotógrafo Brian Skerry, da National Geographic, que afirma que a imagem é o equivalente à humanidade a ver-se ao espelho pela primeira vez.

“Temos astronautas numa nave espacial, noutro lugar, a olharem para este planeta lindo, com outro corpo celestial no primeiro plano – é arrebatador. Preenche todos os requisitos.”

A GÉNESE DE NASCER DA TERRA

O voo da Apollo 8 foi inicialmente adiado devido a problemas de hardware, mas os rumores, que sugeriam que os soviéticos estavam na iminência de enviar um humano para a lua, fizeram com que o voo fosse antecipado para dezembro de 1968. Sete anos antes, a NASA já tinha sido derrotada na corrida ao espaço pelo cosmonauta Yuri Gagarin, e estava agora relutante em perder a sua oportunidade de reclamar o primeiro lugar num voo espacial de características diferentes.

Quando o comandante Frank Borman, o navegador Jim Lovell e o novato Bill Anders se amarraram finalmente no topo do maior foguetão alguma vez construído, estavam a cavalgar uma bomba controlada que ainda não havia sido verificada por completo, dentro de uma nave espacial que não tinha sido testada ao ponto de desfazer todas as dúvidas.

Mas a descolagem foi suave e a tripulação deu consigo a olhar para trás, para um rodopiante mundo cremoso de água-marinha, que ficava cada vez mais pequeno, e mais pequeno, e mais pequeno. Na cabina, Anders estava encarregue das câmaras Hasselblad e captou algumas imagens do planeta Terra enquanto se afastavam, tendo também tirado fotos aos cumes e crateras da superfície lunar. 

“Parece um gesso de Paris, ou uma espécie de areia profunda acinzentada”, disse Lovell ao controlo de missão de Houston.

A tripulação deu três voltas à lua e depois cumprimentou os cidadãos da Terra, a partir de órbita lunar, com a famosa emissão de Véspera de Natal. Na sua quarta volta, a tripulação deparou-se com algo para o qual não estava de todo preparada: uma visão surpreendente de casa, a deslizar por detrás da lua como se fosse uma bola de bowling deformada.

“Oh, meu deus! Olhem para aquela imagem ali!” Exclamou Anders. “Aqui está a Terra a surgir. Uau, é mesmo bonita!”

Ele tirou uma foto rápida da cena a preto-e-branco, enquanto Lovell lutava para encontrar um rolo de filme a cores, e cerca de 40 segundos mais tarde, quando finalmente conseguiu carregar o rolo, a vista tinha desaparecido.

“Bem, penso que a perdemos”, lamentou Anders.

Mas o planeta apareceu novamente numa janela diferente e Anders flutuou até lá para capturar a cena, ao mesmo tempo que discutia com Lovell sobre os tempos de exposição e o enquadramento. Aquele conjunto de imagens a cores, que hoje em dia é muitas vezes apresentado com uma rotação de 90 graus para a direita, contém a foto agora imortalizada e venerada; o produto momentâneo de excitação e 90 segundos de atividade fervorosa.

“Quando algo assim acontece, toca-nos de uma forma que talvez ainda não consigamos compreender por completo”, diz Skerry. “Não se consegue – enquanto artista, enquanto fotógrafo, enquanto escritor – não se consegue prever. Apenas acontece. E essa é uma espécie de magia da arte, não é? Nós criamos coisas, enquanto seres humanos, que tocam as pessoas de formas diferentes.”

 

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UM PÁLIDO PONTO AZUL

Aquela foto da Terra é muitas vezes creditada por ter ajudado a lançar o movimento ambientalista, e inspirou 50 anos de imagens da nossa casa tiradas a partir do espaço. Muitas dessas imagens também nos tocam emocionalmente ou deliciam de diferentes formas.

Uma foto da Apollo 17, a última missão tripulada à lua, mostra o astronauta Jack Schmitt na superfície lunar, com a Terra a tomar o lugar da lua bem alto no céu. Décadas mais tarde, uma imagem tirada por uma nave a caminho de Marte, mostra a Terra e a lua em quarto crescente, onde os seus tamanhos e distância relativos estão fortemente acentuados.

Muito poucas imagens que seguem o espírito de Nascer da Terra conseguem ser tão profundamente reveladoras – exceto, talvez, uma foto tirada pela nave espacial Voyager 1 no dia de São Valentim em 1990. De saída do sistema solar, dirigindo-se para uma interminável viagem solitária através do espaço interestelar, a Voyager virou-se para trás e olhou prolongadamente para casa. Ali, à beira do desconhecido, o nosso pálido ponto azul permanecia suspenso “como um grão de pó à luz do sol”, escreveu Carl Sagan em 1994.

“Aquilo é casa. Somos nós”, escreveu Sagan. “Talvez não exista uma demonstração melhor da insensatez dos conceitos humanos do que esta imagem do nosso pequeno mundo. Para mim, sublinha a nossa responsabilidade em sermos mais generosos uns com os outros, a nossa responsabilidade em preservarmos e apreciarmos este pálido ponto azul, a única casa que alguma vez conhecemos.”

Para muitas pessoas, Nascer da Terra, e a família de retratos terrestres que fomentou, evidencia o contexto paradoxal no qual existimos: o nosso planeta é simultaneamente insignificante em termos cósmicos, como é a coisa mais importante que partilhamos enquanto espécie.

TERRA EM 2068

A questão agora é saber se alguma vez será possível replicar o impacto original de Nascer da Terra, que foi a primeira imagem a colocar toda a humanidade naquele contexto completamente novo.

“Nunca digas nunca, mas eu não sei se existe algo que possa ser feito e que possa vir a ter a mesma magnitude de revelação, a vários níveis, como a que foi criada pela imagem, e que ainda hoje subsiste”, diz Skerry. “Podemos olhar para ela durante décadas e nunca envelhece.”

É possível transportar o legado desta imagem para o futuro, de maneira a que possamos celebrar o centésimo aniversário da sua criação. O astronauta da Nasa, Leland Melvin, em colaboração com um pequeno grupo de viajantes espaciais, está a tentar fazer isso ao partilhar as lições que aprendeu quando estava em órbita.

“Fez-me querer regressar a casa e quebrar todas as barreiras e hostilidades, tentar agir como mediador entre as pessoas e dizer: temos este planeta singular no qual existimos, se não tomarmos medidas, vamo-nos matar uns aos outros e dizimar o planeta ao mesmo tempo”, diz Melvin.

“O que podemos fazer agora”, pergunta ele, “para nos assegurarmos que temos um 2068 para a nossa Terra?”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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