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A Nossa Galáxia Está Prestes a Colidir Com a Sua Vizinha—Mas Quando?

Medições da sonda Gaia ajustaram as previsões sobre quando e como a Via Láctea colidirá com a galáxia de Andrómeda. Quarta-feira, 20 Fevereiro

Por Nadia Drake

A nossa galáxia, a Via Láctea, está destinada a colidir com a sua maior vizinha, a coleção cintilante de estrelas chamada galáxia de Andrómeda. Este cataclismo foi prognosticado pela física, e os astrónomos sabem que quando a poeira do espaço assentar, nenhuma das galáxias terá a mesma aparência: após mil milhões de anos ou mais de contacto, as duas fundir-se-ão e formarão uma galáxia elíptica muito maior.

Mas as novas medições das estrelas de Andrómeda, feitas pelo telescópio espacial Gaia, da Agência Espacial Europeia, estão a alterar as previsões sobre quando e exatamente como, a colisão vai acontecer.

Tal como reportado por astrónomos no Astrophysical Journal, a data originalmente prevista para o acidente, de 3.9 mil milhões de anos a partir de agora, foi adiada em cerca de 600 milhões de anos. E, em vez de uma colisão frontal, os astrónomos preveem agora um golpe rasante – como bater no retrovisor de um vizinho.

"O panorama geral não é demasiado diferente", diz o autor do estudo, Roeland van der Marel, do Space Telescope Science Institute. "Mas as rotas orbitais exatas são diferentes".

ISTO SÃO BOAS NOTÍCIAS? 

É inevitável. Andrómeda, que está atualmente a 2.5 milhões de anos-luz de distância, está a avançar em direção à Via Láctea a quase 400.000 quilómetros por hora.

Os astrónomos têm conhecimento disto desde que Vesto Slipher apontou pela primeira vez um telescópio a Andrómeda e mediu o movimento da galáxia em 1912. (Na época ele não sabia que era uma galáxia, a sabedoria convencional sugeria que que se tratava de uma nuvem nebulosa dentro da Via Láctea. Escusado será dizer que os cálculos de Slipher sugeriam uma revisão às ideias pré-concebidas).

Mais tarde, com recurso ao Telescópio Espacial Hubble, os astrónomos foram capazes de medir o movimento lateral de Andrómeda, determinando se as galáxias estão destinadas a um impacto direto ou a uma razia cósmica. Em 2012, com base nestes estudos, van der Marel e a sua equipa previram uma colisão frontal daqui a aproximadamente 3.9 mil milhões de anos – previsão recentemente revista pela equipa.

"É interessante, mas de certa forma é uma alteração relativamente pequena àquilo que se conhecia anteriormente", diz Brant Robertson, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz.

O QUE FEZ GAIA DE DIFERENTE RELATIVAMENTE AO HUBBLE?

Gaia observou atentamente 1084 das estrelas mais brilhantes no interior de Andrómeda e mediu os seus movimentos. De seguida, van der Marel e a sua equipa fizeram uma média dessas observações, calculando pela primeira vez a taxa de rotação de Andrómeda, para além de fazerem novos cálculos sobre os movimentos laterais da galáxia.

Esta última observação é "diabolicamente difícil de fazer a estas distâncias", diz Julianne Dalcanton, da Universidade de Washington.

Recorrendo a estes novos números, com modelos feitos em computador, a equipa reclassificou a trajetória de Andrómeda. E quando colocaram a galáxia a alta velocidade, esta tomou um rumo ligeiramente diferente, mais tangencial, em direção à Via Láctea, retardando a eventual colisão e transformando o impacto frontal num encosto lateral.

Agora, as previsões sugerem que o encontro inicial ocorrerá daqui a 4.5 mil milhões de anos, algo que, segundo Dalcanton, não é surpreendente.

"Dado que estamos a falar de milhares de milhões de anos", diz, "até as mudanças mais ligeiras nos movimentos atuais podem ser muito diferentes quando ‘aceleramos’ o tempo ao longo de várias eras.”

COMO SERÁ ESTE CONFRONTO GALÁCTICO?

Na sua primeira aproximação, as duas galáxias estarão a cerca de 420.000 anos-luz de distância, ou longe o suficiente uma da outra, de maneira a que os seus discos brilhantes não interajam. No entanto, as galáxias estão imersas em quantidades enormes de matéria negra, e à medida que a Via Láctea e Andrómeda passam uma pela outra, esses halos negros atraem-se.

"Isto provoca fricção, faz com que as galáxias abrandem e percam energia – atraindo-se", diz van der Marel.

Por outras palavras, as galáxias irão rodopiar em torno uma da outra e colidir. Este processo vai repetir-se até que eventualmente as colisões as esculpam numa única galáxia.

O QUE SIGNIFICA PARA A TERRA?

Mesmo com a previsão original, esta fusão não significa muito, se é que significa alguma coisa para qualquer forma de vida terrestre que ainda exista daqui a 4.5 mil milhões de anos. O espaço é grande e as estrelas estão muito distantes umas das outras, e mesmo quando as galáxias colidem, as estrelas individuais raramente colidem entre si.

“Estaríamos a orbitar o sol na mesma, com uma orientação orbital mais aleatória, dentro de uma galáxia elíptica gigante”, diz van der Marel.

Ainda assim, o espetáculo de luz cósmica que terá lugar no céu promete ser espantoso. Conforme as duas galáxias se aproximam uma da outra, Andrómeda crescerá cada vez mais no céu noturno, distorcendo-se eventualmente numa espiral deformada, enquanto a gravidade da Via Láctea a atrai. Depois, quando as galáxias começarem a colidir em espiral, os gases comprimidos inflamar-se-ão, explodindo e dando origem a novas formações estelares.

“É nessa altura que o céu parece mesmo bonito”, diz van der Marel.

A questão é: haverá ainda alguma coisa viva na superfície da Terra para o presenciar? Quando essa altura chegar, o sol estará perto de se transformar numa estrela gigante vermelha, que é um estágio natural na evolução estelar. Durante este processo, o sol brilha com mais intensidade e incha, engolindo Mercúrio e Vénus, transformando a Terra num bocado de carvão planetário assado.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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