O Fim do Rover Opportunity – o Seu Contributo à Humanidade

A sonda durou 50 vezes mais do que estava planeado, oferecendo ciência inovadora e inspirando uma geração.Monday, March 4, 2019

Por Michael Greshko
Um Rover Explorador de Marte da NASA, na superfície de Marte, numa ilustração. Versões gémeas deste veículo, Spirit e Opportunity, foram lançadas em 2003 e aterraram em locais diferentes em Marte, em janeiro de 2004.

Depois de mais de 14 anos a percorrer a superfície de Marte, o Opportunity da NASA ficou em silêncio – assinalando o fim de uma missão marcante a outro mundo.

Em conferência de imprensa, no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), em Pasadena, na Califórnia, a NASA despediu-se do rover que colocou em Marte a 25 de janeiro de 2004: antes do Facebook, antes do iPhone e até mesmo antes de alguns dos cientistas agora responsáveis terem terminado o ensino secundário. Durante o seu tempo recorde em Marte, o rover percorreu mais de 45 quilómetros, tendo encontrado alguns dos primeiros sinais definitivos de água líquida existente no passado, na superfície do planeta vermelho.

“Com esta missão, mais do que com outras missões robóticas, criámos este laço humano, portanto, dizer adeus, é muito mais difícil. Mas, ao mesmo tempo, temos de nos lembrar deste feito incrível – esta exploração histórica que fizemos”, afirma John Callas, diretor de projeto da missão Rovers Exploradores de Marte. "Acho que vai demorar muito até que alguma missão ultrapasse o que conseguimos fazer."

A NASA não tinha notícias do rover desde junho de 2018, altura em que uma das mais severas tempestades de poeira, alguma vez observadas em Marte, obscureceu grande parte do céu do planeta vermelho, tendo atingido o veículo movido a energia solar. Inicialmente, a tempestade não fez a equipa parar. De novembro a janeiro, o planeta vermelho registou ventos sazonais fortes o suficiente para limpar a poeira acumulada nos painéis solares do Opportunity, uma das principais razões pelas quais o rover durou tanto tempo. Mas quando a temporada de “limpeza do rover” terminou sem sinais do Opportunity, as esperanças de que este tivesse sobrevivido começaram a diminuir.

A 25 de janeiro, a equipa enviou ao Opportunity um conjunto de comandos de última hora, esperando que o rover tivesse ficado em silêncio por causa do mau funcionamento das antenas e de um relógio interno. Mas os comandos destinados a consertar este cenário evidentemente improvável não despertaram o rover.

Agora, com o outono e o inverno marcianos a atingir o veículo, a NASA diz que o rover permanecerá para sempre parado no meio de uma vala fustigada pelo vento, chamada “Vale da Perseverança”, enaltecendo o esforço obstinado do rover.

Em março de 2014, o Opportunity tirou este autorretrato. Os ventos sazonais limpavam periodicamente a poeira das matrizes solares do veículo.

Este anúncio marca o fim da missão recorde Rovers Exploradores de Marte, que construiu e operou o Opportunity e o seu rover gémeo, o Spirit. Os dois foram projetados para percorrer pouco mais de 1 quilómetro e durar entre 90 a 100 dias marcianos, ou sóis (nome que designa os dias solares marcianos). Mas a dupla superou todas as expetativas possíveis e imagináveis. Depois de aterrar a 4 de janeiro de 2004, o Spirit atravessou arduamente terreno acidentado até ficar parado, em 2009, entrando em silêncio em 2010. Enquanto isso, o Opportunity foi mais longe, durante muito mais tempo, do que qualquer outro veículo noutro mundo – mais do que todos os outros rovers de Marte combinados. "Foi uma missão incrível, não foi?", disse Mike Seibert, ex-operador do Opportunity, por e-mail. “Estou ansioso pelo futuro, quando os registos do Opportunity forem ultrapassados, porque isso significa que continuaremos a explorar o nosso sistema solar. E estou ansioso para dar os parabéns à equipa que conseguir colocar o Opportunity em segundo lugar.”

“Eu sempre senti que estas eram realmente duas formas honrosas de uma missão como esta terminar”, acrescenta o cientista planetário da Cornell, Steve Squyres, que era desde há muito o principal investigador da missão. “Uma das formas era simplesmente desgastarmos os veículos. A outra, era Marte levar finalmente a melhor e acabar com eles. Ter o Opportunity durante 14 anos e meio e ser derrotado por uma das mais ferozes tempestades de poeira de Marte em décadas – se é assim que tem de ser, podemos ir embora de cabeça erguida.”

MISSÃO "MILAGRE" A MARTE

O caminho do Opportunity até Marte foi tão inconstante quanto as colinas do planeta vermelho. A equipa principal da missão passou mais de uma década a enviar propostas malsucedidas à NASA, até que a agência finalmente aprovou, no início de 2000, uma missão de dois rovers. Mas o entusiasmo depressa deu lugar ao pânico: a equipa esperava ter pelo menos 48 meses para construir os dois rovers, mas teriam apenas 34.

Enquanto a equipa corria contra o tempo, os engenheiros também estavam a tentar reinventar a construção dos rovers. O antepassado mais direto destes veículos, na missão Pathfinder, consistia num lander e num rover separados. Aqui, o JPL estava a tentar encaixar todos os recursos de um lander num rover, com uma autonomia muito maior do que a Pathfinder alguma vez teve.

“Nós trabalhámos arduamente, projetámos tudo corretamente, fizemos as devidas diligências e engenharia, e aquelas coisas duraram para sempre.”

por JENNIFER TROSPER
NASA JPL

“As pessoas dizem-me, foi um milagre terem durado tanto tempo, e só me apetece dizer, foi um milagre termos chegado até à Flórida!” diz Squyres, fazendo referência ao local de lançamento dos rovers, em Cabo Canaveral. “O prazo que enfrentámos, na tentativa de fazer algo que nunca tinha sido feito antes, foi brutal.”

As equipas, lideradas pelo diretor de projeto Peter Theisinger, reuniram-se para descobrir como avançar com a construção. A vice-diretora de projetos do JPL, Jennifer Trosper, responsável pelos sistemas de engenharia, lembra o esforço como uma experiência conjunta de “mãos na massa”. O hardware e o software estavam a ser testados em três turnos de oito horas, 24 horas por dia, sete dias por semana. Mesmo assim, os engenheiros enviavam atualizações finais de software para os rovers, enquanto estes ainda estavam no espaço a caminho de Marte.

“Era preciso ter tudo a funcionar ao mesmo tempo”, diz Trosper.

As atualizações não pararam quando os rovers chegaram a Marte. Dezoito sóis depois do Spirit aterrar, a equipa de Trosper perdeu de repente o contacto com o rover. Os longos dias de silêncio foram agravados pela noção de que aquilo que tinha incapacitado o Spirit, podia também vir a incapacitar o Opportunity, que continuava a caminho de Marte. Mas a equipa isolou o problema, enviando uma atualização para o Opportunity em cima da hora. Quando o Opportunity aterrou a 25 de janeiro de 2004, fê-lo sem problemas.

“Nós trabalhámos arduamente, projetámos tudo corretamente, fizemos as devidas diligências e engenharia, e aquelas coisas duraram para sempre”, diz Trosper. “É triste para mim ver o Opportunity partir; era sempre bom tê-lo lá, de um lado para o outro, era uma espécie de... Uau, isto correu mesmo bem.”

Esquerda: À medida que o Opportunity penetrava cada vez mais na Cratera Endurance, em agosto de 2004, começava a revelar-se um surpreendente campo de dunas no chão da cratera – visto aqui com cores próximas das reais. Direita: O Opportunity chegou pela primeira vez à orla da Cratera Victoria, com 800 metros – visto aqui pelo Orbitador de Reconhecimento de Marte – a 27 de setembro de 2006, durante o Sol 951 do rover em Marte.
Dois engenheiros, com três gerações de rovers de Marte desenvolvidos no JPL. Na zona central inferior da imagem, uma versão suplente do rover Sojourner de Marte, de 1997. À esquerda, um “irmão” funcional do Spirit e do Opportunity; à direita, uma versão de teste do seu sucessor, o Curiosity.

ALCANÇAR O JACKPOT CIENTÍFICO

Originalmente, a equipa pensava que os dois rovers não durariam mais do que 90 sóis, tendo por base a acumulação de poeira nos seus painéis solares. Os cientistas não levaram em consideração que os ventos de Marte fossem fortes o suficiente para limpar os painéis. Assim, inesperadamente renovados a cada mudança sazonal, os rovers fizeram mais trabalho do que se julgava ser possível, deixando agora um legado científico enorme.

Durante décadas, o mantra da NASA para Marte era “seguir a água”, com robôs à superfície e satélites a orbitar. Mas o Spirit e o Opportunity foram os primeiros a descobrir evidências definitivas de que a água líquida existiu em Marte, durante períodos consideráveis de tempo. Ao longo do caminho, os rovers também revelaram que o planeta vermelho era mais complexo e variado do que os cientistas inicialmente pensavam.

“Quando aterrámos pela primeira vez, eu costumava ter esta noção reconfortante de que a determinada altura poderíamos sentar-nos, cruzar os braços e dizer: 'Ei, conseguimos, fizemos o nosso trabalho', diz Squyres . "Eu subestimei Marte de forma substancial.”

O Opportunity atingiu o jackpot científico desde o início. O local de aterragem do rover forneceu aos cientistas evidências convincentes de que água líquida tinha estado presente debaixo do chão e, há muito tempo, fluíra pela superfície de Marte. Dito isto, caso existisse água na zona de aterragem do Opportunity, teria sido mais como um frasco de ácido sulfúrico do que como um lago sereno.

Durante a primeira década do rover em Marte, estudar os restos desse banho ácido primordial fazia normalmente parte de um dia de trabalho. Ao longo do caminho, o Opportunity mergulhou em crateras, examinou o local de impacto do seu próprio escudo térmico e descobriu meteoritos intactos, na superfície do planeta vermelho.

E quando o rover chegou à orla da Cratera Endeavor, em 2011, pôde estudar rochas mais antigas do que as encontradas no primeiro local de estudo. Estas formações antigas – algumas das mais antigas alguma vez estudadas em Marte – continham minerais de argila e gipsita, demonstrando que, há quatro mil milhões de anos, a água líquida neutra fluía na superfície de Marte.

“Se recuarmos até ao nosso conhecimento de Marte de há 15 anos, nem sabíamos se no passado havia realmente água líquida na sua superfície”, diz Abigail Fraeman, cientista adjunta no projeto da missão. “Foi isto que o Spirit e o Opportunity nos mostraram, que sim, que existem evidências incontestáveis de que Marte já teve um clima muito diferente. E responder a esta questão permitiu-nos ir mais longe e fazer questões ainda mais complexas.”

Esta fotografia espetacular da sombra do Opportunity foi tirada quando o rover prosseguia a sua marcha em direção à Cratera Endurance. A imagem foi captada a 26 de julho de 2004, data que marcou os 180 sóis, o dobro do tempo previsto para a missão inicial do rover, de 90 sóis.
A 15 de agosto de 2014 – o 3754º sol marciano da missão do Opportunity – o rover olhou novamente para a orla oeste da Cratera Endeavour, captando as marcas dos seus pneus, numa jornada sem precedentes pela superfície do planeta vermelho.

CRESCIMENTO MARCIANO

O sucesso do Spirit e do Opportunity não abriu apenas caminho para outras missões robóticas a Marte; tornou também o planeta vermelho mais familiar para as pessoas na Terra: uma paisagem rica em colinas e vales esculpidos pelo vento que pode ser vista em várias paisagens semelhantes do nosso mundo.

O design antropomórfico dos rovers gémeos também facilitou a identificação das pessoas com as sondas. As pessoas ficaram maravilhadas com esta jornada – de anúncios de cerveja, a conjuntos LEGO – e os futuros membros da equipa também. Fraeman estava no ensino secundário quando o Opportunity aterrou, e pôde estar no JPL naquela noite, integrada num evento de divulgação.

"O facto disto durar desde a altura em que eu andava no secundário, a decidir se era isto que eu queria, até ao momento em que consegui a formação para fazer disto a minha carreira, é maravilhoso”, diz Fraeman.

Heather Justice, operadora principal do rover, também viu o Opportunity como um ponto de viragem. Quando ela estava no ensino secundário, em Maryland, viu um documentário sobre os rovers.

“Para mim, enquanto pessoa mais jovem, essa foi uma das grandes conquistas da NASA: a possibilidade de conduzir um veículo pela superfície de outro lugar”, diz. "Eu ainda não consigo acreditar na sorte que tenho."

Quando o Spirit parou, mas a missão do Opportunity prosseguiu, os seus observadores humanos ganharam uma ligação ainda maior ao rover. Os filhos dos cientistas na missão ouviam falar do Opportunity quase como se o veículo fosse um primo distante. Os pares de operadores do rover passavam tanto tempo juntos que liam praticamente a mente um do outro.

"Nós começamos a conhecer todas as pessoas pelo primeiro nome", diz Seibert. “Vi membros da equipa a obter a cidadania, muitas pessoas que se casaram, regressaram à escola e se formaram. Muita vida acontece.”

Agora, a equipa tem seis meses para fechar tudo e arquivar os dados da missão, desligando-se lentamente de algo que fez parte das suas vidas durante décadas.

"Existem definitivamente algumas conversas sobre o lado operacional disto tudo, pois esta pode ser a última vez que trabalho com algumas destas pessoas", diz Tanya Harrison, cientista planetária da Universidade Estadual do Arizona e membro da equipa científica do Opportunity. "Eu acho que vamos ter muitas lágrimas."

LEGADO DURADOURO

Embora isto possa ser o fim para o Opportunity, o estudo e a exploração de Marte estão longe de estar concluídos. O rover Curiosity ainda está a avançar, assim como vários orbitadores de Marte e o lander InSight. As agências espaciais europeia e russa estão a preparar o seu próprio rover de Marte, chamado recentemente de Rosalind Franklin, em homenagem ao pioneiro cristalógrafo em raios-X. E muitos ex-membros do Spirit e do Opportunity estão a trabalhar arduamente no rover Marte 2020, que irá procurar sinais de vida passada e recolher amostras de rochas para enviar futuramente à Terra.

Entretanto, o Opportunity permanecerá como um monumento à ciência durante centenas de milhares de anos – e possivelmente um local onde futuros exploradores prestem homenagem. Nas próximas décadas talvez os humanos aterrem no Meridiani Planum, zona de aterragem do Opportunity. Alguns cientistas e engenheiros, incluindo Seibert, sugeriram formalmente essa região como um local de aterragem para as missões tripuladas a Marte.

“Seria um momento tão poderoso”, diz Harrison, “ter humanos cara a cara com o emissário que tinham enviado para lá antes deles.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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