Starstruck

Uma Missão do Outro Mundo Que Prepara Humanos Para Marte

Enfrentando o isolamento profundo e fatos espaciais suados, seis "astronautas análogos" testaram os seus meios, talentos e coragem numa viagem simulada ao planeta vermelho. Quarta-feira, 6 Fevereiro

Por Michael Greshko
Fotografias de Florian Voggeneder

Num dia normal, podemos encontrar Kartik Kumar na Holanda, onde está a terminar o seu doutoramento em engenharia aeroespacial, na Universidade de Tecnologia de Delft, ou na sua empresa startup. Mas em fevereiro de 2018, Kumar encontrava-se na superfície de Marte.

Bem, quase. Depois de treino intensivo, Kumar tornou-se um dos seis “astronautas análogos” que se voluntariaram para uma missão simulada de um mês ao planeta vermelho, chamada AMADEE-18. O principal objetivo do projeto: testar ferramentas, procedimentos e desafios físicos e mentais que uma futura missão real a Marte possa vir a enfrentar.

Quantos mais pontos fracos a equipa conseguir identificar, melhor. Cometer erros na Terra não é nada comparado com cometer erros em Marte, um deserto congelado com ar irrespirável, recheado de poeira tóxica. Em Marte, até o mínimo erro pode ser fatal.

"Quando temos uma pessoa num fato espacial, [é fascinante] o quão difícil algumas coisas podem ser – até as coisas mais simples, como carregar num botão numa experiência científica, ou estar de pé na areia", diz o líder do esquadrão da Força Aérea Real britânica Bonnie Posselt, estudante de doutoramento no Laboratório de Pesquisa da Força Aérea dos EUA, que serviu como oficial médico da AMADEE-18.

De pé, nos desertos de Omã, usando um fato espacial de 45 quilos que brilhava ao sol, Kumar descobriu que o exo-esqueleto do fato o imobilizava e debilitava os seus sentidos. Não conseguia ouvir nada para além do rádio a estalar nos auscultadores; o suor colava-se ao corpo. Ali, para além da curva de vidro do seu capacete, havia quilómetros e quilómetros de poeira vermelha ameaçadora. Por momentos, Kumar sentiu como se tivesse dado um salto no espaço e no tempo.

"Estas sensações são realmente estranhas", diz Kumar. “Os nossos sentidos estão envolvidos – os nossos pensamentos estão envolvidos – na sensação de se estar em Marte.”

DE INNSBRUCK PARA O MONTE OLIMPO DE MARTE

O fotógrafo austríaco Florian Voggeneder também treinou para a missão e integrou a equipa de campo da AMADEE-18, para poder documentar o empreendimento na totalidade.

Há quase quatro anos, Voggeneder começou por querer fazer uma ode irónica aos entusiastas espaciais amadores austríacos, brincando com a ausência relativa de um legado espacial no país. Já passaram mais de 25 anos desde que o único astronauta austríaco, Franz Viehböck, voou a bordo da estação espacial russa Mir. Mas a sua abordagem tomou um rumo mais sério quando descobriu um grupo privado chamado Austrian Space Forum, ou OeWF, abreviado.

"O grupo era muito sincero na sua abordagem de ‘mãos na massa’", diz Voggeneder. "Isso despertou a minha curiosidade."

Desde 1997, o OeWF organizou 12 missões análogas a Marte em todo o mundo, incluindo uma à altitude mais elevada alguma vez encenada, nas altas grutas de gelo austríacas. A sua equipa publica regularmente artigos científicos. Os observadores da NASA e da Agência Espacial Europeia mantêm-se a par das suas descobertas.

“Existe um nicho específico onde podemos fazer missões de baixo custo com alto rendimento” diz o diretor da OeWF, Gernot Grömer, que serviu como comandante de campo, ou chefe de apoio à missão, em 11 missões AMADEE. “Há dois anos atrás, houve um encontro da NASA JSC [Centro Espacial Johnson], onde as pessoas tinham um problema que não conseguiam resolver, e alguém se levantou e disse, eu ouvi falar de um estranho grupo austríaco que está a fazer algo semelhante, perguntemos aos austríacos.”

“Para mim, essa é a maior referência”, acrescenta Grömer. “Estou muito orgulhoso disto.”

VIDA EM MARTE (NA TERRA)

Uma viagem real a Marte demoraria nove meses de viagem pelo espaço profundo, mas a missão AMADEE-18 fez um voo comercial de Munique para Mascate, capital de Omã. De lá, um avião fretado levou a tripulação para Dhofar, região mais a sul de Omã. Quando saíram dos autocarros na Estação Kepler, a sua base temporária, eram os únicos humanos num raio de quilómetros.

O isolamento e a areia vermelha são fatores que contribuem para aquilo que o OeWF chama de “fidelidade de missão” ou o quão real a simulação parece. O apoio da missão na “Terra” – um edifício em Innsbruck, na Áustria – planeava minuciosamente os horários dos astronautas até ao quarto de hora. Todas as comunicações de e para a Áustria ocorreram com um atraso de 10 minutos, para simular o tempo de latência entre a Terra e Marte.

Todos os dias, dois astronautas análogos aventuravam-se a quilómetros de distância da Estação Kepler, por períodos de até seis horas, testando equipamentos que um dia poderão ser usados para encontrar vida em Marte. A dupla estava equipada com o orgulho e a alegria do OeWF: um simulador de fato espacial projetado meticulosamente, com o nome de Aouda.X.

O exo-esqueleto de três camadas tenta simular tudo com precisão, incluindo as partes aborrecidas. O fato pode demorar até três horas a ser colocado e uma hora a ser retirado. Apesar do seu sistema de ventilação, faz suar tanto que é possível beber 2 litros de água no exterior sem ser necessário usar a casa de banho.

“É mais difícil movermo-nos; é como [levantar] uma banana de cinco quilos ”, diz Carmen Köhler, astronauta análoga da AMADEE-18.

Todos estes inconvenientes simulados fornecem informações reais para futuros fatos de Marte. Numa missão anterior da AMADEE, a tripulação ouviu um astronauta no campo a gemer de angústia pelo rádio. Gotas de suor tinham-se acumulado no seu nariz, mas como estava a usar um capacete, não as podia limpar. É aqui que entra uma das inovações do OeWF: o “dispositivo razzle-frazzle”, uma tira de velcro absorvente de suor, colocada na parede interna do capacete.

O compromisso com a fidelidade estendeu-se a Voggeneder. Como membro da equipa de campo, teve de pedir permissão ao suporte de missão para mudar o seu horário de fotografar. Recebeu aprovação formal dias depois, tal como num pedido de uma missão real para mudar o plano de voo.

Embora os participantes nunca percam a noção do facto de estarem na Terra, a experiência fica com eles. Quanto mais Voggeneder se lembra do tempo que passou na AMADEE-18, mais se refere ao apoio à missão na Áustria como “Terra” e a Omã como “Marte”.

“Estávamos numa espécie de limbo”, diz.

ARTE NA LUA - E HUMANOS EM MARTE

Agora, enquanto as areias de Omã engolem o antigo local da AMADEE-18, a equipa de Grömer está ocupada a planear um regresso ao “planeta vermelho”. Em outubro de 2020, seis astronautas análogos da OeWF irão passar quatro semanas a viver no deserto de Negev, em Israel. Os projetistas da missão estão até a considerar separar os astronautas da equipa de suporte no local, para tornar o isolamento ainda mais extremo – e mais realista.

Entretanto, os cientistas estão a analisar o desempenho dos instrumentos de teste da AMADEE-18, e as suas descobertas serão publicadas numa edição futura da revista Astrobiology.

 

Voggeneder ainda tem o espaço na sua mente e está a debater ideias para perceber como poderia contribuir para construir uma futura instalação de arte na lua. "O que é que é necessário para se estar em casa seja lá onde for?", pergunta. "Podemos ser um viajante espacial, mas quando decidimos ficar em algum lugar, temos de introduzir os nossos próprios hábitos, os nossos próprios rituais, a nossa própria cultura".

Os outros membros da equipa da AMADEE-18 continuam convencidos de que, quando se trata de Marte, não é uma questão de se os humanos alguma vez terão realmente de refletir sobre estas questões – é uma questão de quando.

“A primeira pessoa a andar em Marte já nasceu”, diz o astronauta análogo da AMADEE-18, João Lousada. “Se eu tivesse de lhe dizer algo, diria definitivamente para se lembrar de todo o esforço que foi necessário para chegar lá – para não dar as coisas como garantidas, mas também para aproveitar. Esta é uma das maiores conquistas que podemos ter nas nossas vidas”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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