Viagem e Aventuras

Aventureiro do Ano, Ueli Steck, Morreu Enquanto Escalava Perto do Evereste

A “Máquina Suíça” era conhecida pelas suas subidas rápidas e pelo amor pelas montanhas.Thursday, November 9

Por Andrew Bisharat
Steck, aqui no cume de Les Drus em 2012, tinha a alcunha de “Máquina Suíça” pela sua capacidade de fazer escalada rápida aos cumes mais altos e mais difíceis do mundo.

Ueli Steck, carismático montanhista suíço famoso pela velocidade das suas subidas a algumas das mais altas e mais difíceis montanhas do mundo — feitos de impressionante resistência que lhe valeram o apodo de “Máquina Suíça” — morreu a dia 30 de Abril quando se aclimatava à região do Evereste no Nepal. Tinha 40 anos.

Um porta-voz da família Steck confirmou a morte no website do montanhista:

“Ueli Steck morreu ao tentar escalar o Monte Evereste e o Lhotse. A família soube do falecimento hoje. As circunstâncias exatas em que aconteceu não são, para já, conhecidas. A família está infinitamente triste e pede à comunicação social que, por respeito a Ueli, evite especulações relativamente às circunstâncias da sua morte.”

Nesta temporada, Steck preparava-se para tentar subir os 8850 metros do Monte Evereste e o Monte Lhotse em maio. No dia 24 de abril de 2017, Steck partilhou uma publicação no Instagram a partir do Glaciar de Khumbu, quando se aclimatava e treinava para a expedição que estava prestes a iniciar.

De acordo com o noticiado, os restos mortais de Steck foram descobertos perto da base ocidental de Nuptse, um pico com 7800 metros de altitude a oeste do maciço do Evereste. A escalar sozinho, Steck estaria a aclimatar-se em Nuptse quando aconteceu o acidente. Esta aclimatação era a preparação para o principal objetivo de Steck: atravessar o Evereste (8859 metros) e o Lhotse (8516 metros) de uma assentada, seguindo uma rota ambiciosa até ao cume do Evereste — a infame Cadeia Ocidental, que nunca voltou a ser utilizada depois da primeira subida em 1963. Steck planeava também fazer a escalada sem oxigénio suplementar.

Steck treinava para o “Projeto Evereste-Lhotse”, como lhe chamava, há vários anos. Os seus olhos iluminavam-se com a excitação e o fantástico assombro que sentia quando o descrevia. Era este entusiasmo desenfreado pela escalada, conjugado com a sua resistência inumana, que tanto inspirava alpinistas experimentados e montanhistas de poltrona do mundo inteiro. Além disso, garantiu-lhe o reconhecimento como Aventureiro da National Geographic do Ano em 2015.

“Ueli transcendia a simples inspiração”, diz Cory Richards, fotógrafo da National Geographic que se encontra atualmente no Tibete a aclimatar-se para a sua própria subida ao Evereste. “O que ele deu à comunidade só pode ser comparado com os trilhos que deixou nas montanhas. Para mim, o espaço que Ueli deixa não pode ser preenchido. É simplesmente digno de admiração e reverência.”

A morte de Steck constitui a primeira fatalidade da temporada de 2017 no Evereste, um período que se estende de março a maio. De acordo com as notícias, este ano há mais de 1000 alpinistas com destino ao Everest na região, o que constitui um número recorde a todos os níveis. O facto de Steck, que era considerado provavelmente o melhor montanhista do mundo neste momento, ter morrido numa corrida rotineira de aclimatação é revelador dos riscos inerentes ao montanhismo nos Himalaias.

Em 2015, Steck refletia sobre os perigos do alpinismo e dizia ao National Geographic Adventure: “É uma discussão sem fim. Quando estamos nas montanhas temos de aceitar que há sempre um risco.”

“O Evereste é perigoso e nunca deixará de o ser”, diz Richards. “Por mais trágico que seja perdermos pessoas, é importante que nos lembremos de que a razão por que vamos para a alta montanha é mesmo alcançar esse limite. Fazê-lo amplifica o significado da vida.”

Talvez o feito mais impressionante de Steck tenha sido escalada rápida de ida e volta da montanha de Annapurna, com 8061 metros de altitude, em 2013, uma façanha que lhe valeu o prémio Piolet d’Or, a mais alta honra do montanhismo. Steck abordou a vertente sul, uma intimidante parede vertical de gelo e rochas em desmoronamento com 3048 metros de altitude. Em 2007, Steck quase perdeu a vida ao tentar escalar a vertente sul quando o desmoronamento de uma rocha o fez cair de uma altura de 300 metros montanha abaixo. Sobreviveu milagrosamente com feridas ligeiras.

Steck cresceu na pacata cidade de Langnau, na região de Emmental, e passou a infância a jogar hóquei no gelo com os dois irmãos mais velhos. Descobriu o alpinismo aos 12 anos quando alguns amigos do pai, caldeireiro de profissão, o levaram a alguns penhascos locais. Não demorou a trocar o rinque do hóquei pelo ginásio de alpinismo, e, pouco tempo depois, já competia na equipa júnior suíça de alpinismo. Steck sempre foi um alpinista dotado, capaz de escaladas de alto nível. De facto, em 2009, em lua de mel, fez, juntamente com a mulher, a escalada livre da “Golden Gate”, uma escalada de grau 5.13a e 914 metros em El Capitan no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia. A escalada quase sem preparação de Steck centrou as atenções e granjeou-lhe o respeito dos habitualmente pouco impressionáveis habitantes locais.

“O Evereste é perigoso e nunca deixará de o ser”, diz Richards. “Por mais trágico que seja perdermos pessoas, é importante que nos lembremos de que a razão por que vamos para a alta montanha é mesmo alcançar esse limite. Fazê-lo amplifica o significado da vida.”

por Cory Richards

Contudo, a verdadeira paixão de Steck eram as montanhas — mover-se ligeira e rapidamente e cobrir o máximo de terreno possível de uma assentada. Treinou para as maiores subidas que fez aos Himalaias fazendo corridas e escaladas a solo nos Alpes europeus. Uma das suas atividades preferidas era fazer a escalada rápida da famosa Eiger Nordwand (Vertente Norte), um marco histórico escalado pela primeira vez ao longo de quatro dias épicos em 1938. Steck escalou a Nordwand pela primeira vez a solo quando tinha 28 anos, tendo demorado apenas 10 horas. Ao longo dos anos, continuou a melhorar o seu tempo, tendo acabado por, em 2015, acelerado até ao cume em apenas 2 horas, 22 minutos e 50 segundos — recorde que se mantém.

A carreira de Steck não esteve isenta de controvérsia. Em 2013 estava a aclimatar-se ao Evereste com Simone Moro, famoso montanhista de alta altitude e piloto de helicóptero italiano, e Jonathan Griffith, alpinista e fotógrafo inglês. O trio tomou a decisão de escalar por cima de uma equipa de Sherpas que instalavam cordas, o que levou os Sherpas a ficarem ofendidos. Seguiu-se uma altercação num campo mais abaixo na qual um grande grupo de Sherpas zangados que ali trabalhavam confrontou os alpinistas europeus, tendo acabado por atirar pedras contra as suas tendas.

Ueli Steck escala o primeiro campo de gelo de Colton-Macintyre na vertente norte dos Grandes Jorasses em 2014.

Num vídeo recente, Steck deu uma definição inquietante de sucesso a respeito do seu projeto Evereste-Lhotse. “Não vou dar uma definição de sucesso... A única definição [de fracasso] é ter um acidente e morrer.”

Para muitos, Steck será sempre lembrado como a Máquina Suíça — um animal poderoso e raro que passeava as extraordinárias pernas e formidáveis pulmões pela vastidão incomensurável da montanha. Mas para quem o conhecia, ele é muito mais do que isto. Como escreveu no Twitter o jornalista britânico Ed Douglas, que acompanhou a carreira de Steck ao longo dos anos:

“Se há coisa que Ueli Steck não era é uma máquina. Caloroso e, por vezes, surpreendentemente frágil. Mas não uma máquina.”

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