Exclusivo: Alpinista Completa a Escalada Sem Corda Mais Perigosa de Sempre

Alex Honnold tornou-se no primeiro alpinista a escalar a solo a parede do El Capitan, com cerca de 910 metros de altura, em Yosemite.quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O alpinista Alex Honnold no cimo do El Capitan depois de quase quatro horas de escalada sozinho, sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança.
O alpinista Alex Honnold no cimo do El Capitan depois de quase quatro horas de escalada sozinho, sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança.
fotografia de Jimmy Chin
Veja a Mais Perigosa Escalada sem Cordas (Alex Honnold)
Veja a Mais Perigosa Escalada sem Cordas (Alex Honnold)

PARQUE NACIONAL DE YOSEMITE, CALIFÓRNIA — O famoso alpinista Alex Honnold tornou-se, este sábado, a primeira pessoa a escalar a emblemática parede de granito, de aproximadamente 910 metros, conhecida como El Capitan, sem usar cordas ou outros equipamentos de segurança, completando aquele que pode ser o maior feito de escalada pura na história deste desporto.

Demorou 3 horas e 56 minutos a chegar ao pico, tendo feito a ultima inclinação moderada a passo de corrida. Às 9 h 28 min (PDT), sob um céu azul e algumas pequenas nuvens, Honnold impulsionou o seu corpo sobre a orla do cume e apoiou-se num patamar do tamanho do quarto de uma criança.

Honnold começou a sua histórica escalada sem cordas  ­— um estilo conhecido como "escalada em solo" — às 5 h 32 min, ainda com a luz alaranjada do amanhecer. Passou a noite na sua carrinha adaptada que funciona como acampamento de base móvel, que sobressai na escuridão, vestido com sua t-shirt vermelha favorita e bermudas de nylon, e tomou o seu pequeno-almoço habitual, composto por aveia, linhaça, sementes de chia e mirtilos, antes de conduzir até ao sopé do El Capitan.

O alpinista Alex Honnold treina no Freerider para a primeira escalada sem corda do El Capitan, no Parque Nacional de Yosemite. Honnold completou a proeza no sábado, dia 3 de junho. O evento histórico foi documentado para uma futura longa metragem e história da revista National Geographic.
O alpinista Alex Honnold treina no Freerider para a primeira escalada sem corda do El Capitan, no Parque Nacional de Yosemite. Honnold completou a proeza no sábado, dia 3 de junho. O evento histórico foi documentado para uma futura longa metragem e história da revista National Geographic.
fotografia de Jimmy Chin, National Geographic

Estacionou a carrinha e subiu por entre rochas até a base do penhasco. Quando lá chegou, calçou um par de sapatos de escalada de sola aderente, prendeu na cintura um pequeno saco de giz para manter as mãos secas, encontrou a primeira saliência de apoio e começou, aos poucos, a subir rumo à história da escalada.

Durante mais de um ano, Honnold treinou escalada em vários locais nos Estados Unidos, na China, na Europa e em Marrocos. Um pequeno círculo de amigos e outros alpinistas que conheciam os seus planos juraram guardar segredo.

Uma equipa de cineastas, liderada por Jimmy Chin, um dos parceiros de escalada de longa data de Honnold, e Elizabeth Chai Vasarhelyi, filmaram a escalada para um futuro documentário da National Geographic. Em novembro passado, Honnold fez sua primeira tentativa de escalada em solo, mas recuou, depois de menos de uma hora de escalada, porque não estavam reunidas as melhores condições.

A ALUNAGEM DA ESCALADA EM SOLO

Honnold, de 31 anos, que treinou num ginásio de escalada em Sacramento, internacionalizou-se em 2008 com duas escaladas sem corda de alto risco­ — o lado noroeste do Half Dome, em Yosemite, e o Moonlight Buttress, no Parque Nacional de Sião, Utah. Estas escaladas em solo surpreenderam o mundo da escalada e estabeleceram novos marcos, à semelhança do que fez Roger Bannister, em 1954, quando redefiniu a distância de corrida ao estabelecer o recorde de 1600 km em quatro minutos.

"O que Alex fez no Moonlight Buttress desafiou tudo aquilo para que fomos treinados, educados e geneticamente concebidos para pensar", afirmou Peter Mortimer, um alpinista que fez vários filmes com Honnold. "É o lugar mais antinatural para estar um ser humano".

VEJA ALGUMAS FOTOS DA IMPRESSIONANTE ESCALADA

Mas essas escaladas pioneiras não são nada em comparação com o El Capitan. É difícil haver algo mais desafiador do que superar as dificuldades físicas e mentais de uma escalada em solo até este pico, que é considerado por muitos como o epicentro do mundo da escalada. É uma acensão vertical que se estende por mais de 800 metros — mais alto do que o prédio mais alto do mundo, o Burj Khalifa, no Dubai. Do sopé do El Capitan, os alpinistas que estão no pico são praticamente invisíveis a olho nu.

"Este é a ‘alunagem’ da escalada em solo", afirmou Tommy Caldwell, que em 2015 também fez história ao escalar o Daen Wall, a escalada mais difícil do El Capitan, na qual ele e seu colega Kevin Jorgeson só usaram cordas e equipamentos por questões de segurança e nunca para ajudar no progresso da escalada.

(O que Caldwell e Jorgeson fizeram é chamado escalada livre (free climbing), o que significa que os alpinistas não usam equipamento para ajudá-los a subir a montanha e as cordas a que estão presos servem apenas para segurá-los em caso de queda. Na escalada em solo (free soloing), o alpinista está sozinho e não usa cordas nem nenhum outro equipamento que o ajude ou o proteja enquanto ele escala, não deixando margem para erros.)

Há anos que os alpinistas tem vindo a especular sobre uma possível escalada em solo do El Capitan, mas apenas duas outras pessoas afirmaram publicamente que queriam verdadeiramente fazê-lo. Uma foi Michael Reardon, um alpinista de escalada em solo que morreu afogado, em 2007, depois de ter escorregado de um patamar numa falésia na Irlanda. A outra foi Dean Potter, que morreu num acidente a fazer base jumping em Yosemite, em 2015.

John Bachar, o maior alpinista de escalada em solo da década de 70, que morreu em 2009, com 52 anos, enquanto escalava sem corda, nunca quis fazê-lo. Quando Bachar estava no seu auge, ainda ninguém tinha escalado em solo o El Capitan. Peter Croft, de 58 anos, que realizou a histórica escalada em solo da década de 80 — o Astroman, em Yosemite, com cerca de 305 metros de altura — nunca considerou seriamente escalar o El Capitan, mas ele sabia que alguém eventualmente o faria.

"Foi sempre o passo seguinte mais lógico", diz Croft. "Mas, depois disto, eu realmente não vejo qual será o próximo. Este é o verdadeiro salto clássico ".

“Na escalada em solo, sei perfeitamente que estou em perigo, mas o sentimento de medo não me ajuda de forma nenhuma quando estou lá em cima.”

por Alex Honnold

No final de 2014, Honnold conquistou fama internacional pelos seus feitos. Foi tema de destaque nas capas da National Geographic, da revista New York Times, da Outside e o programa  60 Minutes fez um episódio sobre Honnold. Tinha uma série de patrocinadores corporativos, escreveu em coautoria um livro de memórias que se tornou num bestseller e iniciou uma fundação sem fins lucrativos para melhorar a vida das comunidades mais necessitadas em todo o mundo. Mas ele sentia que ainda não tinha deixado a marca que esperava na história da escalada.

Em janeiro de 2015, quando Caldwell e Jorgeson subiram ao topo da Dawn Wall, um projeto para o qual estudaram e treinaram durante vários anos, Honnold estava lá para conhecê-los. “Penso que todos nós temos secretamente a nossa “Dawn Wall” privada que temos, um dia, de completar”, disse Jorgeson a um jornalista.

Qual é a minha “Dawn Wall”? Foi a pergunta que Honnold fez a si próprio. Mas ele já sabia a resposta. Durante anos, refletiu sobre o que seria necessário para escalar em solo o El Capitan.

UMA CAPACIDADE DE CONTROLAR O MEDO

A via escolhida por Honnold para alcançar o topo do El Capital, também conhecida por Freerider, é uma das escaladas mais premiadas em Yosemite. A via tem 30 secções — ou inclinações — e o nível de dificuldade é tão elevado que, nos últimos anos, mesmo quando um alpinista chegava ao cume utilizando cordas de segurança, o feito era noticiado.

É uma odisseia ao longo de uma linha sinuosa que percorre várias redes complexas de rachas e fissuras, algumas muito grandes e outras que nem chegam à largura de um nó. Ao longo do trajeto, Honnold encolhe-se para atravessar estreitas chaminés, utiliza a ponta dos dedos dos pés para se deslocar em saliências do tamanho de caixas de fósforos e, em algumas zonas, balança-se no ar segurando-se apenas com a ponta dos dedos das mãos.

O Freerider é um teste a praticamente todos os aspetos das capacidades físicas de um alpinista: força de dedos, antebraços, dedos dos pés e do abdómen, bem como flexibilidade e resistência. Os fatores ambientais, como o sol, o vento e a possibilidade de tempestades repentinas, são igualmente aspetos que Honnold tem de calcular cuidadosamente.

Mas o que estava realmente à prova era a capacidade de Honnold manter a calma sozinho num penhasco, a dezenas ou centenas de metros de altura, no momento de executar as sequências complexas da escalada, onde o posicionamento de um pé ligeiramente mais para cima ou para baixo do que seria suposto poderia representar a diferença entre viver e morrer. Os alpinistas de elite chamaram a atenção para uma caraterística única de Honnold: manter-se calmo e com o controlo analítico em situações perigosas como esta. Honnold desenvolveu lentamente esta capacidade ao longo dos 20 anos em que tem praticado alpinismo.   

Parte do seu equilíbrio pode ser atribuído à preparação minuciosa. Honnold é obsessivo pelos seus treinos, que incluem sessões de uma hora pendurado pelos dedos das mãos, de dois em dois dias, e  elevações, tanto com apenas um braço como com os dois braços,  num aparelho concebido especialmente para o efeito que aparafusou por cima da porta da carrinha. Além disso, dedica horas a aperfeiçoar, ensaiar e memorizar as sequências exatas dos movimentos dos pés e das mãos a realizar em cada uma das principais secções. É um anotador inveterado, que utiliza um diário para registar pormenorizadamente os exercícios e analisar o desempenho após cada escalada. 

Há outros alpinistas que têm a mesma capacidade física de Honnold, mas nunca ninguém conseguiu igualar a sua capacidade mental para controlar o medo. A tolerância de Honnold a situações assustadoras é tão extraordinária que os neurocientistas estudaram as áreas do seu cérebro relacionadas com o medo para observarem se há diferenças relativamente ao padrão.

Honnold tem uma visão mais pragmática. “Na escalada em solo, sei perfeitamente que estou em perigo, mas o sentimento de medo não me ajuda de forma nenhuma quando estou lá em cima”, afirma. “É apenas um entrave ao meu desempenho, pelo que simplesmente o ponho de lado e sigo o caminho.”

Na Freerider, um dos desafios físicos e mentais mais assustadores que Honnold enfrentou foi duas secções de uma extensa rocha ondulada e íngreme, a cerca de 180 metros de altura. O granito, suavemente polido pelos glaciares ao longo dos milénios, não tem saliências que sirvam de apoio, o que exige que o alpinista suba utilizando apenas os pés. Honnold utiliza uma técnica difícil chamada smearing, que consiste em fazer pressão com a sola de borracha dos sapatos contra a rocha para gerar bastante aderência, de forma a suportar o seu peso na inclinação. Honnold teve de manter o peso perfeitamente equilibrado e de dar o impulso certo para a frente para evitar escorregar. “É como se estivesse a subir um vidro”, diz Honnold.

No fim de semana em que se comemora o Dia da Memória, Honnold fez um ensaio geral na Freerider na companhia de Caldwell. O par chegou ao topo em pouco mais de cinco horas e meia, quebrando o recorde pessoal de velocidade. “O Alex estava imparável”, referiu Caldwell. “Nunca o tinha visto escalar tão bem”.

Alguns dias antes da escalada desta semana, Honnold fez uma caminhada até ao topo do El Capitan e desceu em rapel pela via Freerider para assegurar-se de que a recente tempestade não tinha apagado as marcas de giz que ele tinha feito para assinalar os principais apoios da via. Observou que estava seco e em perfeitas condições. Tudo o que havia naquele momento a fazer era descansar e preparar-se mentalmente para a escalada da sua vida.

“Há alguns anos, quando, pela primeira vez, tracei mentalmente o mapa para compreender o que a escalada em solo da Freerider representava, havia meia dúzia de secções em que pensei: ‘Ui, ali há um movimento assustador e ali uma sequência verdadeiramente arrepiante, e aquela pequena placa e aquela passagem’”, conta Honnold. “Havia tantas pequenas seções em que pensei ‘Isto é verdadeiramente assustador!’. Mas, desde aí, fui desafiando a minha zona de conforto e conseguir ir aumentando-a cada vez mais até chegar o momento em que estes objetivos que pareciam completamente loucos acabaram por entrar no domínio do que é possível”.

No sábado, a possibilidade tornou-se finalmente realidade. Depois de confiar a sua capacidade e resistência em centenas de apoios de mãos e pés, e de controlar o medo durante apenas cerca de quatro horas, Honnold conseguiu levar o seu corpo a passar pelas últimas saliências. Chin e o seu assistente, Cheyne Lempe, desceram desde o topo em rapel com as câmaras para acompanhar Honnold na subida da última metade da parede, e mesmo utilizando bloqueadores — um tipo de guincho mecânico — para se conseguirem puxar para cima, ambos tiverem dificuldades em acompanhar o ritmo do alpinista.

Chin, completamente ofegante e transpirado, lutou por chegar à frente e filmar Alex Honnold no topo do mundo.

 

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