Viagem e Aventuras

“É um dos Desportos Mais Mortíferos do Mundo Mas Não o Vou Deixar”

Apesar dos enormes riscos e de uma taxa de mortalidade crescente, um grupo de atletas radicais continua a fazer BASE jump em wingsuits. Jeb Corliss conta-nos porque não desiste deste desporto perigoso.Thursday, November 9, 2017

Por Nina Strochlic
Um BASE jumper voa sobre o vale de Lauterbrunnen, na Suíça, num wingsuit (traje planador).
Os BASE-jumpers arriscam a vida sempre que saltam de um penhasco, de uma ponte ou de um edifício. Mas, ao longo dos últimos anos, uma variante ainda mais perigosa deste desporto radical ganhou uma enorme popularidade. Os pilotos de wingsuits (trajes planadores) utilizam fatos insufláveis, com uma estrutura em teia, que lhes permitem serpentear por vales, navegar pelas fendas das rochas e acertar em alvos como balões. Este tornou-se num dos desportos mais mortíferos do mundo. No ano passado, pelo menos 24 pessoas morreram a efetuar BASE jumping com este tipo de fato.
Jeb Corliss, um dos primeiros utilizadores do wingsuit, fala sobre escapar por um triz, a evolução da raça humana para voar e por que é que não consegue parar mesmo após ter assistido à morte de amigos seus.

Quando comecei a praticar paraquedismo aos 18 anos, o voo com wingsuits não se fazia. No início, usavam-se cabos de vassoura e lonas, e isso matou muitas pessoas. Mas, nos anos 90, o paraquedista francês Patrick de Gayardon agarrou na tecnologia utilizada nos paraquedas e criou um wingsuit que era seguro para utilizar para voar. Em 1998, vi um modelo em Itália construído a partir de um fato de mergulho e convenci o tipo a criar-me um wingsuit todo em preto. Foi mesmo no início dos wingsuits modernos.

O meu primeiro BASE jump com wingsuit transformou-se num voo de proximidade. Imaginámos que conseguiríamos saltar de um penhasco e voar sobre o vale aberto. O problema seria se não conseguíssemos saltar além do limite do penhasco, iríamos contra o mesmo. Saltei, mas não tinha hipótese de ultrapassar o limite e, por isso, virei à esquerda, para dentro da fenda que atravessava o penhasco. Estava a 6 metros das rochas, foi uma ideia de loucos, escapei por um triz.

Jeb Corliss, paraquedista e utilizador de wingsuit, voa por cima da estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, Brasil.

Existe algo a dizer sobre voar. É quase um impulso incontrolável. É tão forte que as pessoas estão dispostas a morrer por isso. É altamente arriscado com uma margem de erro incrivelmente pequena. Somos humanos e cometemos erros. Se cometermos um erro num wingsuit, podemos morrer. Ninguém faz voos de proximidade com wingsuits por pensar que é um desporto seguro. Nem podemos utilizar a palavra "segurança" na mesma frase. É "perigoso", "muito perigoso" e "estupidamente perigoso". É, indiscutivelmente, o desporto mais mortífero do mundo.

APRENDER A TER MEDO DO VOO

No início, não tinha o conhecimento necessário para ter receio. Quanto mais praticava, mais assustado ficava. O voo com wingsuits conduz as pessoas a uma falsa sensação de segurança. A única parte assustadora é saltar. Quando fazemos uma boa saída e o wingsuit começa a voar, temos uma enorme sensação de controlo e sentimos que podemos tocar em qualquer folha ou árvore à nossa escolha. Mas a verdade é que não podemos nem conseguimos.

Corliss inicia um BASE jump num penhasco rochoso na Noruega.

O excesso de confiança está a matar as pessoas. Estamos em queda a 144 a 241 km/h, e, se cometermos um erro, acabou-se. Fui uma das poucas pessoas sortudas a cometer um erro. Caí em granito sólido quando voava acima dos 193 km/h e não morri. Essa experiência fez-me acordar. Não fomos criados para estar a fazer isto. Somos a primeira geração de esquilos-voadores, a tentar saltar de árvore em árvore e voar, e muitos de nós acabamos no chão. Uma grande percentagem de criaturas que tenta evoluir acabar por morrer. É essa a definição de evolução.

Se uma pessoa já faz voos de proximidade com um wingsuit há cinco anos, já cometeu um erro que deveria ter sido fatal e teve sorte. Todas as pessoas envolvidas neste desporto cometeram um erro que deveria ter sido fatal e tiveram sorte.

Há medida que vou envelhecendo, comecei a encarar os voos com wingsuit como uma forte chama incandescente, e os pilotos a realizar voos de proximidade como traças: não percebemos por que é que se dirigem para o fogo. As traças não se conseguem controlar. É isso que acontece com os praticantes de voo de proximidade.

NÃO DESISTIR

Desde o início que tenho lutado com a ideia de desistir. Em 2003, estava com o meu amigo Dwain Weston quando ele foi contra uma ponte no Colorado. Eu aterrei, coberto com o seu sangue, junto à sua perna. Isso teve um enorme impacto em mim. Durante seis meses, questionei-me "Por que é que estamos a fazer isto?" Cheguei à conclusão de que podia parar de fazer todas as coisas perigosas que fazia e, mesmo assim, podia morrer.

Se tivermos sorte, vamos sentir paixão por algo. Se tivermos mesmo muita sorte, iremos morrer ao transformar esse objetivo numa realidade. Muitas pessoas dizem que estamos a desperdiçar a nossa vida e nós respondemos: "Então, diga-me uma boa forma de morrer?" Quando Dwain morreu, apercebi-me de que estas coisas enriqueciam a minha vida. Quando desistimos destas coisas, é quando falhamos.

Em fevereiro de 2010, estava na África do Sul e criei um alvo com um balão. Não consegui ver a saliência na qual embati, foi uma ilusão ótica. Fui a única pessoa a sobreviver um salto terminal sobre granito sólido. É possível ver isso na minha página no YouTube. Fui filmado de 16 ângulos diferentes.

Fiquei magoado e partido e vi morrer todos os meus amigos. Aprendi a voltar a andar. Passei três anos inteiros da minha carreira de 20 anos a recuperar de lesões. Já passei por muito, passei por coisas que fariam qualquer homem são e racional desistir de tudo.

Corliss voa num wingsuit pela caverna de Tianmen no Parque Florestal Nacional de Tianmen na China, após ter saltado de um helicóptero a seis mil pés de altitude.

LEVAR A RAÇA HUMANA MAIS ALÉM

A partir do momento em que vimos uma pessoa a voar com um wingsuit entre árvores e a entrar numa fenda na terra, vamos querer fazê-lo. Quando um animal vê o que é possível, experimenta fazê-lo. Depois, se sobreviver o tempo suficiente para se reproduzir, as suas crias vão fazê-lo. E, no final de contas, este é o tipo de pessoa que faz avançar a espécie humana e é o que nos vai ajudar a sobreviver. Correr riscos é importante no que diz respeito à evolução. Se ninguém corresse riscos, ainda estaríamos em cavernas a brincar com o fogo.

Os wingsuits já conseguem executar coisas que ninguém acreditava serem possíveis. Todos os anos, é inventado algo que vai mais além, mais rápido. Não sei quando é que aconteceu, mas, de repente, tornei-me num tipo velho e conservador. Adoro a minha vida e a minha família. Mas continuo a adorar voar com wingsuit. Vou só afastar-me. Não preciso de estar a 1,50 metros das coisas. Posso estar a seis metros de distância.

Entrei no mundo dos wingsuits por sentir que era inovador. Agora, penso que não posso avançar mais. Não me importo de morrer a fazer algo de especial e único. Mas morrer a fazer algo que já fiz 100 vezes e que toda a gente está a fazer? Isso é aborrecido. Agora estou numa de propulsores a jato. Quero ser piloto de testes. Querem que parta ovos? Eu parto ovos. Ponham-me num propulsor a jato. Não me importo se me derreterem o cérebro. Não iriam colocar ninguém jovem e saudável a fazê-lo, mas sim alguém velho e lesionado.

Temos de quebrar barreiras, fazer a espécie humana evoluir. Se o fizermos, então, faremos o que for necessário para que as coisas aconteçam.

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