Viagem e Aventuras

Esta Igreja Está Decorada com Ossos de 30 000 Vítimas da Peste

Visite, se for capaz. Friday, October 27

Por Christine Blau
Uma beleza trágica, o Ossuário de Sedlec está decorado com ossos humanos que foram branqueados e esculpidos.

A igreja gótica que existe em Sedlec, perto da pitoresca cidade checa de Kutná Hora, parece ser uma igreja como todas as outras do género, vista de fora. Mas se entrar na sua cave, descobrirá algo assustador: tudo o que está à vista está artisticamente coberto pelos ossos de milhares de pessoas, que foram branqueados e esculpidos para o efeito.

Reza a lenda que um abade local fez uma peregrinação a Jerusalém, no século XIII, e trouxe um pouco de solo sagrado para espalhar pelo cemitério. A notícia espalhou-se, e isso tornou o cemitério de Sedlec um dos mais populares locais para se ser enterrado.

Quando a peste assolou a Europa, no século XIV, foram acrescentadas perto de 30 000 vítimas aos lotes funerários. Mais tarde, os Cruzados trouxeram mais 10 000 corpos para o descanso eterno neste cemitério. Isto sem contar com os enterros que ali se foram fazendo.

Quando a comunidade começou a construir a igreja gótica, no século XV, muitos ossos foram retirados e empilhados em pirâmides no ossuário, por baixo do novo edifício. Nada foi alterado até 1870, altura em que a igreja contratou um escultor de madeiras local, chamado Francis Rint, para transformar as perturbadoras pilhas de ossos em algo belo.

O autêntico brasão de armas feito como agradecimento à família mecenas do trabalho de Francis Rint.

Rint foi, de facto, muito bem-sucedido nesta tarefa. Depois de branquear e esculpir os ossos, utilizou-os para decorar o espaço sagrado. Fez correntes com crânios que se esticavam ao longo das entradas da igreja. Esculpiu cálices e cruzes a partir de ancas e fémures. Existe até um brasão de família cheio de pormenores que ocupa uma parede, como forma de agradecimento à família aristocrata, mecenas da iniciativa.

Mas a pièce de résistance do Ossuário de Sedlec é o seu espantoso candelabro, que se diz ter, pelo menos, um de cada osso do esqueleto humano. As velas iluminam o espaço pousadas em caveiras brilhantes que fitam os visitantes que se atrevem a entrar. A funcionária Vendula Krůlová explica-nos que, atualmente, é um especialista que limpa os ossos, um por um, com a ajuda de uma escova de dentes.

O Ossuário de Sedlec é um dos destinos macabros que integram uma curta lista europeia. Na República Checa, temos também o Ossuário de Brno, que contém ossos de 50 000 humanos. Na Polónia, temos a capela das caveiras Kaplica Czaszek; em Portugal, existe, em Évora, a Capela dos Ossos, e nas catacumbas de Paris estão os restos mortais de mais de seis milhões de pessoas. Ainda assim, o Ossuário de Sedlec é o segundo destino mais procurado da República Checa, com turistas a chegar todos os dias depois de uma hora de viagem a partir de Praga.

Sem dúvida que o singular destino tem um grande impacto, mas, segundo Krůlová, afeta todos de formas diferentes: “é um sítio transcendental, cheio de questões. Há quem encontre aqui paz, e quem sinta ansiedade. Todas as pessoas são diferentes, mas sabemos com certeza, que um dia seremos iguais às pessoas que habitam o ossuário: Memento mori.