Viagem e Aventuras

Bem-Vindos Ao Mais Antigo Hospital De Bonecas Do Mundo

Aninhado entre as montras lisboetas, o Hospital de Bonecas dá uma vida nova a todo o tipo de bonecas. Quarta-feira, 29 Novembro

Por Ishay Govender-Ypma

“Todos os dias, alguém pergunta se temos [a] Noiva de Chucky”, conta Manuela Cutileiro, “cirurgiã de bonecas” certificada do Hospital de Bonecas. Aberto em 1830 na buliçosa Praça da Figueira, em Lisboa, é considerado o mais antigo hospital de bonecas ainda em funcionamento nas suas instalações originais. Aqui, bonecas de todos os géneros — de plástico, porcelana, metal, lã e tecido — irão ganhar uma nova vida.

A lista de espera pode chegar aos quatro meses, e todos aqueles a precisar de cuidados médicos compõem um quadro algo macabro: rostos lascados, braços partidos, lábios pintados de vermelho cortados e globos oculares desaparecidos.

Desde bonecas de porcelana alemãs, com os seus fatos elaborados, expostas em armários de vidro, até uma boneca negra feita em Angola em 1915, Cutileiro, uma antiga professora primária, não se deixa assustar por nenhum dos seus variadíssimos pacientes.

Algumas das suas histórias perderam-se com o tempo. Outras viajaram com imigrantes e refugiados, e representam hoje, para várias famílias, a única recordação de casa. “Tratamos todas da mesma forma”, diz Cutileiro. “Para nós, todas as bonecas são preciosas.”

As bonecas são identificadas com uma ficha com a data de entrada e as doenças que as afligem, sendo-lhes atribuído um cubículo, ou “cama”, onde irão aguardar tratamento. Numa área próxima, armários repletos de pequenos braços, pernas, olhos e mesmo perucas fornecem as curas necessárias. O trabalho é meticuloso, e Cutileiro, em conjunto com três outras “cirurgiãs”, é formada e certificada pela Fundação Ricardo Espírito Santo, um museu e centro cultural cuja missão consiste em proteger e preservar as artes tradicionais. Uma vez restabelecidas e restauradas, as bonecas estão prontas para regressar aos braços carinhosos dos seus donos.

Este edifício foi, em tempos, um hospital para seres humanos e Cutileiro faz parte da quarta geração de familiares e amigos a trabalhar na loja. Outrora, o hospital pertenceu a Carlota da Silva Luz, madrinha do seu pai. Seguiu-se-lhe Lília Dinah da Silva Luz Tavares, que não deixou herdeiros, e foi então que Cutileiro, que era como uma filha para ela, tomou conta do negócio.

“Costumo visitar escolas e falar com as crianças”, diz Cutileiro. “Se adoecermos ou partirmos os braços, vão deitar-nos fora? É assim que vamos tratar os nossos familiares e amigos?” A antiga professora acredita que os portugueses têm sido constantemente vítimas de sucessivas crises económicas, o que, concomitantemente com o nosso sentimentalismo intrínseco, a saudade — aquela nostalgia tão própria — leva a que o restauro de brinquedos faça todo o sentido neste país.