Viagem e Aventuras

Conheça o Homem que Vive Numa Cidade Perdida Esculpida na Pedra

Depois de ter sido reconhecida como Património da Humanidade em 1985, a UNESCO e o governo da Jordânia iniciaram o deslocamento dos beduínos de Petra – este homem ficou. Quarta-feira, 24 Janeiro

Por Abby Sewell

Mofleh Bdoul cresceu na cidade antiga de Petra, arrastando-se para cima e para baixo nas encostas rochosas com rebanhos de cabras, no meio de ruínas de túmulos e templos.

O homem, de 73 anos, vive numa caverna que fica muito próxima daquela onde nasceu. Mas, ao longo dos anos, tem assistido à transformação da sua casa: o que antes era um local no interior desconhecido é, hoje, agora uma atração turística que atrai centenas de visitantes todos os anos.

Agora Mofleh é um de entre uma mão cheia de beduínos da tribo de Bdoul que ainda vive dentro do local histórico.

Apesar de a sua caverna estar nas traseiras de Jebal Habis, ou a montanha da prisão, e de demorar apenas cinco minutos a subir até chegar à principal atração turística, parece estar bastante mais longe. Do lado de fora da caverna – mais espaçosa do que muitos apartamentos de muitas cidades e com janelas embutidas na pedra que permitem a entrada de luz natural – Mofleh construiu um terraço entre paredes com um jardim de arbustos floridos onde ele recebe visitantes para tomar chá. No inverno, a chuva rega as plantas; no verão, puxa água de um restaurante da zona turística para as regar. Uma bandeira da Jordânia faz sentinela ao desfiladeiro que fica lá em baixo.

“Este é o sítio mais bonito”, diz Mofleh da sua casa. “Isto aqui é terapêutico. Se tiver problemas, esquece-os rapidamente.”

Petra, a cidade esculpida nos penhascos de arenito do deserto da Jordânia, foi a capital do Reino Nabateu entre 400 a.C. e 106 d.C. Não se sabe exatamente quando foi que a tribo de Bdoul tomou as ruínas como sua residência, mas as tribos nómadas têm ocupado a zona desde pelo menos os anos 1500, declara Steven Simms, um professor de antropologia da Universidade do Estado de Utah já reformado, que estudou o local e os Bdoul, nos anos 80 e 90 do século passado.

Tradicionalmente, os beduínos viviam do pastoreio de cabras e de agricultura de pequena escala. Muitos, incluindo Mofleh, também encontraram trabalho em escavações arqueológicas e na indústria do turismo.

O local começou lentamente a atrair turistas ocidentais depois de ter sido ‘descoberto’ pelo explorador suíço John Lewis Burckhardt, em 1812.

“Quando eu era mais jovem, algumas pessoas vinham hospedar-se com os beduínos durante um mês”, relembra Mofleh. Ele apontou para uma encosta do outro lado do desfiladeiro. “Uma senhora canadiana ficou naquela caverna sozinha durante um mês.”

Por vezes o encontro de culturas deu origem a romances, como aconteceu a Mofleh. Ele casou com uma senhora suíça, teve uma filha, e durante um tempo dividiu o seu tempo entre a Suíça e Petra. Mas o casamento não deu certo, e ele voltou para a sua caverna. Essa não foi a sua única aventura pelo matrimónio – quando lhe perguntamos a primeira vez ele disse ter sido casado quatro vezes. Mas depois de pensar melhor e de contar pelos dedos, o número subiu para oito.

Depois de Petra ter sido classificada como Património Mundial da Humanidade em 1985, a UNESCO e o governo da Jordânia iniciaram esforços para recolocar os Bdoul de Petra para a recém-construída e vizinha vila de Um Sayhoun.

Houve vários tipos de reações à deslocação. Muitos, especialmente famílias com crianças, gostaram de estar mais próximas de escolas e de hospitais. Mas outros, como Mofleh, não queriam abdicar do seu estilo de vida tradicional, e, de qualquer forma, a oferta de habitações da vila não era suficiente para acompanhar o ritmo de crescimento das famílias, declara Allison Mickel, uma professora assistente de antropologia da Universidade de Lehigh.

“[A recolocação] era para ser geral, mas agora como Um Sayhoun não é assim tão grande... as pessoas que não tinham casa garantida ficaram no parque”, afirma.

Segundo Mofleh, antes da construção de Um Sayhoun, havia cerca de 150 famílias a morar na cidade de Petra; agora são apenas dez, e Mofleh é o único que habita o centro do parque. A UNESCO tentou convencê-lo a ficar com uma casa na vila, conta-nos, mas ele recusou.

“Eu gosto disto aqui – é melhor”, confessa. “Na cidade, é provável que passemos um dia inteiro sem andar.”

Nada Al Hassan, presidente da Unidade dos Estados Árabes do Centro do Património Mundial da UNESCO, disse, em declarações, que estão a trabalhar com as autoridades da Jordânia e com as comunidades locais para definir um plano de gestão para Petra que pretende equilibrar “os imperativos de conservação do local; as necessidades das comunidades locais, bem como o seu sentido de propriedade e pertença; a fonte de rendimentos das comunidades locais; [e] as práticas de turismo sustentável que não impeçam a integridade e autenticidade do local.”

Como a maior parte dos Bdoul, Mofleh conta com a economia do turismo. O número de visitantes de Petra cresceu gradualmente depois da classificação como património da humanidade, mas subiu a pique desde 1994 com a assinatura do tratado de paz entre Israel e a Jordânia. De 1994 a 1995, o número de visitantes ao local mais do que duplicou, passando de 138 577 para 337221, e continuou a crescer, atingindo o máximo de 918 136, em 2010. Mas no ano seguinte, com o surgimento da guerra na vizinha Síria, o turismo decaiu. No curso nos cinco anos seguintes, o número de visitantes caiu para metade.

Muitos Bdoul vendem recordações e viagens de burro na principal rua turística. Mofleh oferece chá, conversa e, por vezes, oferece também almoço aos visitantes que se aventuram a sair da rua principal e a cruzar-se com os habitantes da cidade. Ele recebe alguns dinares pelo chá, e faz pequenas esculturas de pedra para vender. Por vezes oferece visitas guiadas.

É certo que conta com o dinheiro que os visitantes trazem, mas Mofleh oferece também hospitalidade sem contrapartidas.

Shannon Mouillesseaux oriunda do norte do estado de Nova York cruzou-se com a caverna de Mofleh durante uma viagem a Petra, na primavera. Depois de entabular uma conversa, Mofleh passou duas horas a mostrar a Mouillesseaux ao seu amigo as suas paisagens favoritas pelos caminhos mais escondidos de Petra. Ele recusou receber dinheiro ou até que lhe pagassem o almoço, contou-nos a turista.

“Quando ele começou a falar, percebemos que era alguém com muito para partilhar e alguém que quer que as pessoas apreciem a cidade de Petra, a sua cultura e a sua história” conta-nos. “é fantástico que ele tenha ficado e é uma mais-valia para a cidade, na minha opinião.”