Viagem e Aventuras

Envolta em Gelo e Nevoeiro, Esta é a Cidade Mais Fria do Mundo

Com temperaturas que rondam os -40º C nos meses de inverno, a vida em Yakutsk, Sibéria, é ditada pelo frio. Quinta-feira, 25 Janeiro

Por Laurence Butet-Roch
Fotografias Por Steeve Iuncker

Com temperaturas que rondam os -40º C durante, no mínimo, três meses por ano, Yakutsk no leste da Sibéria, é a cidade mais fria do mundo. Obviamente, existem outros locais que registaram temperaturas mais baixas, como a povoação de 500 pessoas de Omyakon, a cerca de 925 km a leste, que sofreu recentemente uma vaga de frio com temperaturas na casa dos -66º C, ou a Antártida, onde a temperatura média no inverno ronda os -60º C, mas nenhum destes locais tem uma vida totalmente funcional como Yakutsk, com mais de 280 mil habitantes. Uma vez que o solo está permanentemente congelado, a maioria dos edifícios está sobre estacas. As que não estão, estão a afundar-se lentamente porque o calor gerado no interior dos edifícios está a derreter o permafrost.

Mesmo assim, as riquezas que se escondem no solo da região compensam os desafios colocados pela meteorologia. As minas locais representam cerca de 1/5 da produção mundial de diamantes, ao passo que outros locais possuem gás natural, petróleo, ouro, prata e outros minerais procurados.

Em 2013 Steeve Iuncker, que cresceu nos Alpes Suíços (com uma temperatura média de -31º C de dezembro até finais de fevereiro) decidiu ver com os seus próprios olhos como é que temperaturas glaciais afetam o corpo, mente e vida social. Após ter aterrado, como recorda, a filha do seu anfitrião, que veio buscá-lo ao aeroporto, fez a lista de verificação completa. Gorro? Confere. Luvas? Confere. Cachecol? Confere. Botas? Confere.

"Quem diria que o simples facto de sair para chamar um táxi exigisse tanto cuidado?", relembra. Em Yakutsk, todas as saídas são cuidadosamente planeadas. Não se fazem desvios desnecessários. Não há passeios nem se vêm montras. "Aqui, o frio dita tudo", acrescenta. "Digamos que é a forma como o corpo reage ao frio que define as ações."

Caso em questão: Iuncker reparou que os locais visitam-se muito mas apenas durante alguns minutos: "Entram, tiram a primeira camada de roupa, bebem um chá quente e comem uma torrada com doce e voltam a vestir-se para enfrentar o frio. Como se as casas dos vizinhos servissem de ponto de paragem ao longo do seu percurso." Tal como eles, Iuncker teve de adaptar os seus hábitos de trabalho aos elementos. A sua máquina fotográfica, uma Rolleiflex de lente dupla, só lhe permitia períodos de 15 minutos a fotografar. Após esse tempo, o mecanismo de corda congelava e corria o risco de a película rebentar. Mas também não podia ir além desse tempo, pois os dedos ficavam dormentes.

Como ninguém fica na rua durante muito tempo, a presença humana é esquiva nas suas fotografias. Os habitantes locais, vestidos com peles, parecem ser exploradores míticos numa paisagem gélida e vítrea, aparentando ser ainda mais espectrais devido ao espesso nevoeiro que cobre a cidade e cobre a maioria dos seus monumentos como um manto. Mas, embora pareça ser estranho, não nos devemos deixar enganar, avisa Iuncker. Esta não é uma maravilha de inverno mas sim um terreno traiçoeiro. "É fácil uma pessoa perder-se quando não se consegue ver 10 metros à frente e quando todas as ruas parecem ser iguais." E essa é a última coisa que queremos que aconteça quando existe um risco constante de queimadura de frio.

A exploração de Yakutsk por Iuncker integra um projeto maior, no qual irá visitar uma "cidade recorde" todos os anos, durante 10 dias, com o mesmo orçamento. Até agora, já visitou Tóquio, Japão (a cidade mais povoada) e Ahwaz, Irão (a mais poluída). Tal funciona como um exercício para ver como o fotógrafo reage neste tipo de ambientes. Fica num quarto de hotel? Quanto tempo passa no exterior? E como é que tal afeta a sua profissão? E durante o seu percurso está a confirmar que as pessoas na Sibéria sentem o frio como nós. Simplesmente, estão melhor preparadas.

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