Viagem e Aventuras

Este Destino Idílico Continua a Inspirar Autores de Livros Fantásticos

As montanhas épicas e os vales cobertos de encantos da Nova Zelândia inspiram o cenário dramático da Terra Média. Thursday, January 11, 2018

Por Carrie Miller
As tocas dos hobbit de Hobbiton, um cenário de filmes na Ilha Norte, funcionam como um portal para o património cinematográfico da Nova Zelândia.

Na Nova Zelândia, até um anódino recorte na floresta pode levar-nos a um lugar extraordinário. O impulso magnético para vermos o que haverá depois da próxima curva, seja um cintilante glaciar ou uma floresta primitiva, é o que mais gosto no país — é aquilo a que chamo o "fenómeno do virar de esquina".

Aqui, numa quinta de criação de ovelhas na Ilha Norte, no vale das acidentadas Montanhas Kaimai, a excitação aumenta. Há uma clareira que se abre e eu entro numa história. A vista que tenho à minha frente também prendeu o realizador local Peter Jackson. Mal viu esta paisagem, Jackson soube que se tratava de Hobbiton, a comunidade de hobbits que J. R. R. Tolkien tornou lendária em O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (1954), e imortalizou o local em seis filmes, o último dos quais estreado em 2014.

Ao perscrutar a paisagem, consigo ver Gandalf, o mago sábio da história, a conduzir a sua carruagem puxada por um pónei pelos recortes das colinas escarpadas. Imagino Bilbo Baggins a correr portão fora sem o seu lenço de bolso. À minha frente, estão 44 tocas de hobbits abrigadas sob colinas verdejantes. Há caminhos para a esquerda e para a direita; para cima e para baixo. A roupa está a secar nas cordas. Frondosas pereiras tem os últimos frutos da estação à mão de semear.

Sinto um nó na garganta. Embora me tivesse mentalizado para um sem-fim de quiosques com lembranças, Hobbiton parece ser mais do que o cenário de um filme para turistas: é a minha imaginação tornada realidade.

Com 14 anos no Minnesota, a ler Tolkien sob os lençóis à luz de uma lanterna, eu ansiava pela aventura e a amizade que descobria naquelas páginas. Há dez anos, segui o meu próprio caminho até Wellington, o coração da indústria cinematográfica da Nova Zelândia.

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Naquela altura, com a afluência de milhares de turistas motivados pelo Senhor dos Anéis  — aos quais não se demoraram a juntar os fãs de O Hobbit — muitos realizadores faziam da paisagem surreal deste país remoto o pano de fundo de filmes como King KongDois Mundos em GuerraAs Crónicas de Narnia e O Último Samurai.

Até James Cameron, figura incontornável de Hollywood, recorreu à capacidade técnica  da empresa de efeitos visuais Weta Digital, de Wellington, para criar a paisagem distópica e onírica de Pandora, no seu filme Avatar, grande sucesso de bilheteira. A Ilha Norte fascinou Cameron de tal maneira que o realizador comprou um terreno em Wairarapa, a este de Wellington, onde está a trabalhar em três sequelas de Avatar.

Apesar de tudo isto — ou talvez por tudo isto — eu nunca quis ver a Nova Zelândia como um cenário para um filme. Sempre preferi separar o meu amor por Tolkien e a paisagem irregular que se tornou o meu lar.

Mas quando o meu amigo Lance Lones, um californiano transplantado que trabalha na indústria cinematográfica desde os 17 anos, sugeriu que usássemos os locais dos filmes como marcos para uma viagem de automóvel, convenceu-me de que o poder das histórias poderia aprofundar a minha ligação ao país e às histórias. "Temos uma ligação verdadeiramente emocional com o cinema. Não a subestimes", disse ele. "Vem comigo para Hobitton e verás."

Cada pormenor de Hobbiton é fruto do amor de Jackson e da sua equipa de magos — até o musgo nas cercas, explica o nosso simpático guia, Aidan O’Malley, numa das 17 visitas diárias. "Jackson decidiu reverter o nascer e o pôr do sol naturais do local, pelo que também mudou o musgo nas cercas para refletir esta mudança", diz O’Malley com um sorriso. "Hobbiton só aparece em O Hobbit  durante sete minutos e em O Senhor dos Anéis durante 35 minutos — é muita perfeição para 42 minutos."

Depois de visitar o local, Lones e eu terminámos o dia no Green Dragon, o bar em funcionamento de Hobbiton que aparecia nos filmes. Há uma fogueira que crepita à nossa frente e o pôr do sol brilha para lá das janelas redondas ao nosso lado. O teto é composto por vigas de cipreste com gravações de uvas, cevada e um dragão serpentino em verde esbatido. Na cozinha, veem-se ervas. Há gaitas de foles delicadamente colocadas numa posição mais elevada. Afundo-me um pouco mais no meu cadeirão de pele e bebo mais um trago de cerveja numa caneca de barro.

Começo a conversar com Gemma Youlten e Tom Boreham, um casal britânico que está a meio de uma viagem à volta do mundo. Digo-lhes que o Green Dragon é capaz de ser o bar por que procurei a vida inteira. "Eu diria que este é o ponto alto", diz Gemma, concordando comigo. Baixa a voz como se em confidência: "E nem sequer sou fã do Senhor dos Anéis."

Tom é. "Li o livro pela primeira vez quando tinha dez anos — há 25 anos — e é o meu preferido", diz. "Para dizer a verdade, receava que fizessem uma versão tipo Disney da minha adorada Hobbiton. Mas reconheci este bar imediatamente. É espantosa a forma como o idílico Condado é aqui retratado. Só a Nova Zelândia seria capaz de pegar numa atração cinematográfica e torná-la um lugar com o qual estamos familiarizados.”

Na manhã seguinte, dirigimo-nos para sul em autoestradas estatais que atravessam Piopio e Te Kuitiarea, que, em O Hobbit, serviram para representar uma densa floresta montanhosa chamada Trollshaw — o covil dos trolls e o local de várias cenas centrais do filme.

O cenário transforma-se rapidamente, passando de montanhas rochosas irregulares para ondulações ligeiras, cercas de arame e formações de calcário erodido — uma geografia em constante mutação mesmo como eu gosto. A célebre paisagem verdejante da Ilha Norte enche as janelas do carro.

Lembro-me do meu amigo Grant Roa. É um escritor, produtor e ator que participou na maioria dos filmes rodados na Nova Zelândia em diferentes funções e tem um fraquinho por esta parte do país. "A Ilha Sul tem uma paisagem épica, mas eu gosto dos contrastes que vemos na Ilha Norte", tinha-me dito quando eu planeava a viagem. "Gosto de ver colinas verdejantes e dar meia volta e ver montanhas cobertas de neve. Ou de estar na praia e saber que atrás de mim há um bosque primitivo."

Cerca de 225 km a sul das colinas de Hobbiton, o Parque Nacional de Tongariro simboliza estes extremos. Com três vulcões — Ruapehu, Tongariro, e Ngauruhoe — e o campo de esqui de Whakapapa, o parque foi usado para representar Mordor, a Terra da Sombra, a maldita e desolada fortaleza do mal na Terra Média.

Tongariro é também uma zona Património Mundial, e um dos meus locais favoritos na Nova Zelândia. Em meia dúzia de visitas, percorri a Travessia de Tongariro a pé, fiz esqui nas encostas de Whakapapa e deliciei-me com vistas de montanhas cobertas de neve numa atmosfera fresca e crepitante naquele que parece o telhado do mundo.

Hoje, porém, Lones e eu estamos sozinhos na Vila de Iwikau, no topo do campo de esqui, bloqueados pela neblina. A temperatura baixou 26 graus desde Matamata e sente-se o ar gelado e um vento cruzado que nos fustiga vindo de todas as direções. Lones acha estranho: "Mordor deveria ser quente e seca", diz.

A minha interpretação de Mordor é simplesmente a de um lugar absolutamente desagradável — e enganador, o que corresponde à Tongariro de hoje. Sempre que estive cá em cima o céu estava claro como o vidro. Eu sei que o clima pode mudar rápida e violentamente no local, mas é a primeira vez que Tongariro me mostra o seu lado selvagem.

Agora vejo mais distintamente a aglomeração de cascalho de lava em tons de preto e vermelho, no meio do qual uma vegetação verde e luminosa tem dificuldade em crescer. A rochas arranham o céu. Consigo imaginar-me perdido naquele lugar. No entanto, estamos na verdade apenas a dez minutos de carro do Chateau Tongariro, o avô dos hotéis da Nova Zelândia, situado na histórica Vila de Whakapapa.

Construído nos anos 20 do século passado, apresenta uma elegante estrutura neo-Georgiana que emana um ambiente de sumptuosidade do velho mundo, uma era de trajes cerimoniosos e copos de cristal, imediatamente ao lado de um vulcão ativo. Enquanto bebo um copo de vinho tinto de Gisborne, uma região vinícola a 420 km de distância na costa este, reflito sobre o facto de estar a passar tempo com dois bons amigos — não só Lones, mas também um lugar que arrebatou o meu coração na primeira vez que o vi.

"É o que os lugares que servem de cenários de filmes têm de bom", diz Lones. "Quando sentimos a falta dos lugares de que gostamos, podemos sempre revisitá-los nos filmes." Isso e visitar Tongariro com os Anéis em mente permitiu-me ver o local com outros olhos: Tongariro tem uma imprevisibilidade que é magnífica e profunda.

As faias procuram um lugar ao sol e ensombram a estrada que nos leva da vila alpina de Ohakune até ao extremo sul de Tongariro. É difícil de acreditar que este centro de esqui adormecido à espera do inverno se encontra apenas 45 minutos a leste de Pipiriki. Ali, no extremo do Parque Nacional de Whanganui, florestas exuberantes são o cenário de Dois Mundos em Guerra, um filme sobre a batalha entre a população Maori nativa e os colonizadores europeus nos anos 60 do século XIX.

Alguns minutos depois de Ohakune, a maioria dos vestígios do mundo exterior desaparessem no nosso espelho retrovisor. Dirigimo-nos para o campo de esqui de Turoa, no sopé do Monte Ruapehum, 30 minutos a sul do hotel, em busca das Cataratas de Mangawhero. Fiz esqui em Turoa várias vezes, mas nunca prestei atenção a nenhum dos lados da estrada — estive sempre focado nas encostas. Três quilómetros antes do campo de esqui, à direita, encontramos um sinal a indicar o caminho para as cataratas. Sob um arco de faias a pingar, um trilho cor de turfa, pontuado por cogumelos vermelhos e brotos de líquenes brancos, leva-nos de repente para um cenário familiar.

Ver o riacho a galgar as rochas cor de ferrugem que encontra pelo caminho antes de se precipitar nas cataratas tem em mim o mesmo efeito de ouvir a minha canção preferida. Aqui, o impostor Gollum perseguiu um peixe em As Duas Torres, o segundo filme da série Senhor dos Anéis. Mais forte do que um déjà vu, a minha memória deste lugar é tão clara como a água, embora o esteja a ver pela primeira vez. Atravesso a corrente a custo, a água ardentemente fria, tão fria que sinto dores nos pés.

Já passei nesta estrada uma mão-cheia de vezes e nunca soube da existência deste lugar. "E tê-lo-íamos perdido, se não tivesse aparecido num filme", diz Lones. "Os exploradores de locais já fizeram todo o trabalho, escolhendo a dedo estas paisagens deslumbrantes. É como um mapa do tesouro: basta segui-lo."

Voltamos a Wellington, a cidade mais a sul da Ilha Norte da Nova Zelândia. Foi o local onde comecei por viver na Nova Zelândia —  base para as minhas primeiras explorações — e é também o lar dos génios cinematográficos que traduziram Tolkien para o grande ecrã. Mais ainda tenho mais uma paragem para fazer.

Escolho um caminho que nunca tinha experimentado e dou por mim a caminhar nos misteriosos trilhos cobertos de caruma do Monte Victoria, em Wellington. Ao subir a encosta, detenho-me subitamente em choque perante uma evidência. À minha frente estão as raízes deformadas onde quatro pequenos hobbits se esconderam um dia das perversas e encobertas aparições de Nazgul, depois de terem encontrado um atalho para os cogumelos em O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel.

Conheço agora esta sensação: é como ver uma cara familiar numa multidão, a emoção de encontrar um amigo há muito desaparecido.

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