Estas Pessoas Acreditam Que a Morte Não É Para Sempre

Os trans-humanistas acreditam num futuro de imortalidade humana. Uma comunidade na Rússia está a trabalhar para fazer com este futuro chegue.

Tuesday, March 6, 2018,
Por Daniel Stone
Fotografias Por Giuseppe Nucci
Olga Levitskaya
A trans-humanista e neurobióloga Olga Levitskaya é fotografada a acompanhar um evento no Museu Cosmonauta de Moscovo para angariar fundos para o CyberSuit. Levitskaya está vestida com o protótipo de um fato que tem como objetivo reabilitar os pacientes depois de sofrerem lesões. Pretende-se que chegue ao mercado e esteja disponível para um público mais alargado em 2020. Atualmente, custa cerca de 35 000 dólares.
Fotografia de Giuseppe Nucci

Num pequeno armazém branco duas horas a norte de Moscovo há 56 pessoas que têm a esperança de viver de novo. Os seus corpos enfrentam 100 anos de espera de pernas para o ar, com o sangue completamente escorrido das artérias e imersos em nitrogénio líquido a 196 graus Celcius negativos.

Aquilo que esperam é uma nova vida ou a continuação daquela que já viveram. Muitos dos corpos pertencem a pessoas que chegaram ao fim das suas vidas naturalmente, muitas vezes em idade avançada. Algumas destas pessoas decidiram ser criopreservadas antes de morrerem. Noutros casos, foram as famílias que assinaram a documentação post-mortem e pagaram $36 000 para que os corpos dos seus entes queridos fossem congelados (ou $18 000 para a cabeça apenas) durante o período padrão de cem anos — que talvez possa ser alargado por um período a determinar com base nos avanços da ciência até ao século XXII.

Esperar pelos avanços da ciência é a lógica que subjaz à criopreservação e, de forma mais ampla, à visão do mundo conhecida como trans-humanismo. Uma pessoa morta devido a um cancro ou a uma doença cardíaca poderá vir a ser reanimada no futuro quando estas doenças deixarem de existir. "Eles acreditam no avanço da tecnologia", diz Giuseppe Nucci, um fotógrafo italiano que visitou trans-humanistas e as instalações da empresa de cripreservação russa KrioRus. "Esperam que alguém venha a acordá-los."

Esta esperança de que o futuro venha a extinguir os males do presente é tão antiga como as primeiras civilizações que se aperceberam de que, com o passar dos anos, a vida melhorava um pouco. No início do século XX, o filósofo russo Nikolai Fedorovich Fedorov ajudou a criar um movimento conhecido como cosmismo, que se baseava na ideia de que, com o tempo, os humanos poderiam vencer o mal e a morte. Se a duração da vida humana era demasiada curta, a solução simples consistia em alargá-la, mesmo depois da morte, e suspender a decomposição do corpo até que o mundo chegue ao nível desejado.

Empregados de uma fábrica de nitrogénio líquido e gelo seco nos arredores de Moscovo cobertos pelo nevoeiro enquanto voltam a encher os tanques de nitrogénio líquido. Fundada por antigos empregados da Krio Rus, a empresa é agora uma das fornecedoras.
Fotografia de Giuseppe Nucci

Mais de um século depois, o cosmismo de Fedorov transformou-se em trans-humanismo: a noção de que os avanços tecnológicos podem ultrapassar as limitações dos humanos atuais. O trans-humanismo do século XXI tende a estar radicado na Rússia, mas tem tentáculos em todo o mundo. Dos 56 corpos congelados na KrioRus, quase um quarto é de estrangeiros, incluindo uma mão-cheia de italianos e ucranianos, um americano e um israelita. Há também 22 animais de estimação, entre os quais se contam cães, gatos e, pelo menos, uma chinchila.

"Nem todos os trans-humanistas querem ser criopreservados. A maior parte só está interessada na tecnologia”, diz Nucci. Além disso, a criónica não é o único instrumento do trans-humanismo, embora se distinga como a tecnologia mais fiável para fazer com que um corpo não entre em decomposição. James Bedford, a primeira pessoa a ser criopreservada, não resistiu a um cancro no fígado em 1967. O seu corpo continua congelado numas instalações no Arizona, alegadamente inalterado, 51 anos depois.

No entanto, fora do grande ecrã, ainda nenhuma pessoa foi criogenicamente reanimada com êxito, o que deverá significar que o proeminente futuro de imortalidade livre de doenças ainda está para chegar, se é que algum dia chegará. Mas entre as elevadíssimas expectativas e esperanças que definem o movimento, Nucci reparou que uma das qualidades relativamente escassas é a impaciência. Os 56 corpos de pernas para o ar no purgatório congelado da KrioRus não pareciam ter muita pressa.

Poderá conhecer mais trabalhos de Giuseppe Nucci no website do fotógrafo Também o poderá acompanhar no Instagram.

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