Viagem e Aventuras

Em Lisboa... Sê Romano: Galerias Romanas da Rua da Prata

Lisboa é uma cidade cheia de mistérios, de história e de espaços inigualáveis. Um desses espaços são as Galerias Romanas da Rua da Prata. Conheça-as melhor neste artigo. Terça-feira, 22 Maio

Por National Geographic
Fotografias Por José Avelar – Museu de Lisboa

À margem do Castelo de São Jorge, da Sé, das Sete Colinas, da Casa dos Bicos e de tantos outros pontos de interesse que promovem o turismo na cidade, Lisboa guarda alguns segredos que poucos conhecem.

Um alçapão na Rua da Conceição esconde um dos mais fantásticos segredos históricos da capital, com mais de 2 000 anos de história: as Galerias Romanas de Lisboa. Mas o que esconde afinal o subsolo da cidade? O que são as Galerias Romanas? Quando é que podemos conhecer o underground de Lisboa e visitar estas Galerias Romanas na Baixa Pombalina?

As Galerias Romanas foram descobertas após o grande terremoto de 1755, mais precisamente durante a reconstrução da cidade. Alagadas durante todo o ano, abrem as portas aos mais curiosos uma vez por ano, durante três dias, por regra no final de setembro. Vários metros abaixo do solo, os visitantes podem encontrar um mundo escondido com mais de 2 000 anos de história e ver o que resta do complexo subterrâneo com recantos misteriosos, que esteve ligado ao comércio e às atividades portuárias da cidade de Olisipo – o nome romano da capital de Portugal. Na parte superior terá existido uma grande praça pública e um fórum de mercadores, que funcionaria como um centro de negócios.

A verdadeira extensão desta estrutura ainda não está determinada. De acordo com os arqueólogos, esta infraestrutura deverá ser bastante maior e deverão existir mais galerias em áreas contíguas, bem como outros pontos de entrada.

O QUE SÃO AS GALERIAS ROMANAS DE LISBOA?

As Galerias Romanas da Rua da Prata têm sido alvo de múltiplas interpretações ao longo do tempo, relativamente à sua função original:

  • As características da sua construção, tipologia e materiais associados colocam a construção entre os séculos I a.C. e I d.C., durante o governo do Imperador Augusto, data relacionada a outros edifícios públicos da cidade romana de Olisipo.
     
  • Devido à Galeria das Nascentes, este complexo foi inicialmente identificado como termas romanas – as antigas termas romanas de Olisipo (termas dos Augustaesn) – dedicadas a Escapulário, Deus da Medicina. No local foi encontrada uma lápide de mármore dedicada a Esculápio e mandada gravar por dois augustais (dois sacerdotes do culto imperial), ambos de origem grega, oferecida ao município Olisiponense. Esta descoberta reforçou a teoria de que esta estrutura teria sido em tempos  um spa de águas quentes. A lápide encontra-se atualmente no Museu Arqueológico.
     
  • Foram também identificadas como galerias da rede de distribuição de água do Aqueduto Romano, que trazia a água das fontes das Águas Livres até à Porta de Santo André, onde seguia em várias direções.
     
  • Atualmente, sabe-se que toda a infraestrutura é na verdade um criptopórtico, uma solução arquitetónica que criava, numa zona de declive e pouca estabilidade geológica, uma plataforma horizontal de suporte à construção de edifícios de grande dimensão, normalmente públicos.
     
  • Mais tarde, já no século XIX, Lisboa mandou estancar esta estrutura e aproveitou a água para criar uma espécie de cisterna que garantia o abastecimento público às populações locais. Foram feitos orifícios nos feixes das abóbadas que serviam como poços. Estas galerias ficaram então conhecidas como as Conservas de Água da Rua da Prata. Quando mais tarde a água foi analisada e considerada imprópria para consumo, a capital mandou selar todos os poços.

O QUE PODEMOS VER NAS GALERIAS ROMANAS?

São oito as galerias visitáveis que se estendem por um percurso de cerca de 40 metros, em linha reta. As galerias abobadadas têm diferentes alturas e estão dispostas paralela e perpendicularmente umas às outras, formando uma plataforma artificial sobre a qual os romanos edificaram uma série de edifícios. Algumas galerias proporcionam o acesso a pequenas e estreitas câmaras. No subsolo, os visitantes vão poder observar várias áreas:

  • Pequenos compartimentos escuros, designados por celas, dispostos lateralmente a algumas das galerias, que poderão ter sido utilizados na época romana como áreas de armazenamento de produtos.
     
  • Arcos em cantaria de pedra almofadada, técnica típica dos inícios da época imperial romana. Estes deverão ser os mais antigos troços de toda a estrutura, que sofreu algumas alterações ao longo do tempo.
     
  • Abóbadas com aberturas circulares que serviam as bocas de poço usadas pela população.
     
  • No fim do percurso está a Galeria das Nascentes, também chamada de Olhos de Água. É aqui que está a fissura da qual sai continuamente a água que invade o espaço subterrâneo e que inunda parcialmente toda área das galerias, subindo a uma altura de entre 1 a 1,5 metros. Acredita-se que esta fissura tenha sido criada por um sismo, uma vez que as galerias não estavam originalmente submersas. Esta água é proveniente dos lençóis freáticos que percorrem a cidade e que são alimentados pelos caudais das antigas ribeiras de Valverde (Avenida da Liberdade) e Arroios (Avenida Almirante Reis), que antes da pressão urbanística corriam a céu aberto.
     
  • A última modificação data da segunda metade do século XVIII, altura em que as galerias foram aproveitadas como alicerces dos edifícios pombalinos. Dois mil anos depois, estas galerias continuam a ser uma peça estrutural da cidade.

A MAGIA DO POÇO DAS ÁGUAS SANTAS

No fim do percurso encontramos a Galeria da Nascente, também chamada de Olhos de Água ou  Poço das Águas Santas - localizado na esquina da Rua da Prata e da Rua de São Julião. Durante o século XIX, estas águas ganharam fama de curativas e milagrosas, eventualmente fruto da interpretação dada à estrutura no séc. XVIII. Frequentemente, a população enchia bilhas de uma água milagrosa que tinha um forte efeito terapêutico e “curava os olhos”.   

QUANDO PODEMOS VISITAR AS GALERIAS ROMANAS DE LISBOA?

As galerias estão inundadas durante quase todo o ano, algo fundamental para a manutenção da sua estrutura original. Para garantir as condições de acessibilidade necessárias, a Câmara de Lisboa e os bombeiros asseguram a drenagem e bombeamento permanente da água no local, e abre, este espaço ao público durante 3 dias por ano, habitualmente no final de setembro. Este ano, por motivos técnicos alheios ao Museu de Lisboa, ainda não foi possível agendar estas visitas.

A entrada nas galerias é gratuita e as visitas serão guiadas por técnicos do Museu da Cidade e do Centro de Arqueologia de Lisboa. O ambiente é húmido e mais frio, pelo que os visitantes devem levar calçado à prova de água e roupa indicada. As visitas às galerias são organizadas pela Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural de Lisboa (EGEAC) e pelo Museu de Lisboa.

Continuar a Ler