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Estas Casas Futuristas, de Cores Vibrantes, Estão a Redesenhar a Paisagem Urbana da Bolívia

O design cromático e arrojado de Freddy Mamani, conhecido como o rei da arquitetura andina, está a redesenhar o perfil urbano de El Alto e inspira as obras de outros arquitetos.Wednesday, May 30, 2018

Por Laurence Blair
Fotografias Por Nick Ballón
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O ar é rarefeito em El Alto, uma conurbação de milhões de pessoas, que se ergue, desordenada e poeirenta, no cume de uma falésia a 3962 metros acima do nível do mar. Mas essa não é a única razão pela qual esta cidade degradada, com vista para La Paz, capital da Bolívia, deixa sem fôlego aqueles que a visitam.

Edifícios altos de vidro escurecido, cromados brilhantes e painéis acrílicos de cores garridas, erguem-se entre estruturas banais feitas de tijolo. Imagine uma espécie de chalet de montanha tirolês e um transformer. Estas estruturas são, normalmente, encomendadas por elementos das classes médias emergentes, oriundos das tribos indígenas Aymara e Quechua, que usam estas estruturas para casamentos, quinceañeras e festas de todos os tipos e feitios. Se juntar o epíteto cholo, usado, tradicionalmente, em referência à classe – um termo com pendor racista, usado, com soberba, por muitos – à palavra chalet, obterá um termo no mínimo curioso: cholets.

Silhueta anã de homens ante a grandeza em tons de verde-esmeralda dos edifícios de Mamani.
Edifícios que espelham as influências da arquitetura de Mamani erguem-se na cidade de El Alto.
Arquitetura de vários níveis de Mamani inclui, frequentemente, lojas no piso térreo. Os andares mais altos são usados muitas vezes como espaços para festas ou galerias, enquanto outros acolhem inclusive piscinas interiores.
Outros arquitetos foram influenciados pelo estilo de Mamani.

Mas o arquiteto da região, Freddy Mamani, o melhor intérprete de um estilo tão cobiçado, prefere a nova arquitetura andina, porque, tal como explica, os seus edifícios não são mais do que um ato exuberante de expressão própria da maioria indígena da Bolívia, há muito marginalizada.

“Para mim, é muito importante promover a nossa cultura e as nossas raízes, dando a conhecer a nossa identidade e materializando-a através da arquitetura”, diz Mamani, enquanto supervisiona artesãos no local da sua última obra.

“Estamos a erguer uma arquitetura que encerra novos propósitos. Até mesmo a pintura assume um papel diferente, fazendo-se valer das ruínas de Tiawanaku, um lugar arqueológico. E uso as cores dos awayos, onde as nossas mães nos transportavam, quando éramos crianças”, acrescenta, referindo-se aos xailes multicolores, que serviam de sacos para um sem-número de fins, usados pelas célebres cholitas da Bolívia.

Os interiores dos edifícios de Mamani foram inspirados pelos lugares arqueológicos e têxteis tradicionais.
Uma das fachadas, que combina o brilho dos cromados e dos acrílicos, sobressai entre as construções de tijolo de lama e adobe que a rodeiam.
A arquitetura futurista de Mamani inspirou as obras de outros arquitetos.

A obra de Mamani e dos seus contemporâneos é uma mudança arrojada, explica Gastón Gallardo, reitor da Universidade de San Andrés, uma instituição de estudos superiores no domínio da arquitetura, situada em La Paz. A nova arquitetura andina demarca-se dos estilos minimalista e barroco dos arquitetos da escola da arquitetura ocidental e assinala uma “descolonização da ordem simbólica”.

Mas o estilo não é meramente teórico, nem inteiramente orientado para o passado. “Assistimos a mudanças que não têm nada a ver com o passado, mas sim com a construção de uma nova identidade”, acrescenta Gallardo.

Pela fusão das influências asiáticas, andinas e hollywoodescas, os habitantes de El Alto, que adquiriram maior mobilidade e enriqueceram graças à exploração mineira, ao comércio internacional, aos negócios e à indústria, podem dar a conhecer as suas aspirações globais. “A construção de edifícios é a materialização do seu poder económico”, afirma Gallardo.

Alejandro Chino Quispe é um exemplo. O empresário, que emigrou ainda jovem de uma zona rural nos Andes para El Alto, acende as luzes no seu Salon de Eventos Princípe Alexander, uma das obras mais distintas de Mamani.

Quarenta candelabros laboriosamente trabalhados, importados da China, reluzem em tons violeta, esmeralda e turquesa sobre a pista de dança revestida com mármore branco espanhol. As paredes e as colunas estão decoradas com representações geométricas em tons de verde-lima e laranja. O teto está salpicado com luzes LED e o mezzanine ondulado está debruado por motivos folclóricos da região andina.

“Este lugar, para ser sincero, não tem concorrente à altura”, gaba-se Chino, deixando antever uma grelha de ouro que lhe cobre os dentes da frente.

A mistura destoante e sedutora entre o novo e o velho, entre o tradicional e o moderno, pode parecer um traço exclusivo da arquitetura boliviana. Mas onde quer que os bolivianos endinheirados possam ir, não faltam exemplos da nova arquitetura andina, como é o caso de cidades como Lima, Buenos Aires e São Paulo, por exemplo.

O estilo de Mamani influenciou outros arquitetos em El Alto.
Formas intrincadas decoram a fachada de um dos edifícios de Mamani.
Edifícios mamaniescos, projetados por outros arquitetos, erguem-se na paisagem urbana de El Alto.
Edifícios mamaniescos, projetados por outros arquitetos, erguem-se na paisagem urbana de El Alto.

“Temos encomendas não só no país, mas também no estrangeiro”, diz Mamani. “Neste momento, estou a trabalhar num projeto para uma exposição em Paris, a realizar ainda no final deste ano.” Não faltará muito, antecipa o arquiteto, para que as torres futuristas invadam Nova Iorque, Miami ou a Caliórnia. O artesão que se tornou arquiteto, como a Bolívia, percorreu um longo caminho.

Laurence Blair é um jornalista independente, que se estabeleceu entre o Reino Unido e a América do Sul. Siga-o no seu perfil do Twitter @LABlair1492.