Viagem e Aventuras

A Fronteira Entre a China e a Coreia do Norte Como Nunca a Viu

Este fotógrafo captou o dia a dia numa das fronteiras mais vigiadas do mundo.Wednesday, June 6, 2018

Por Soo Youn
Fotografias Por Elijah Hurwitz
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Em dezembro último, o fotógrafo Elijah Hurwitz viajou até à fronteira chinesa com a Coreia do Norte através do rio Yalu. O que ele descobriu foi uma fronteira surpreendentemente permeável, exceção feita às ocasionais câmaras de videovigilância, em particular, no exterior das principais cidades.

A cidade chinesa de Dandong é o centro de comércio, tanto legal como ilícito, entre os dois países. É também um local onde familiares se encontram e trocam bens e remessas de fundos, especialmente, em alturas em que a fronteira é menos vigiada. Há vários séculos, a cidade pertencia à dinastia Koryŏ coreana. Com o fim desta dinastia, no século XIV, o rio Yalu tornou-se a fronteira entre a China e a Coreia. Como tal, a etnia coreana joseonjok habita na cidade há gerações, falando a língua local.

“No meu primeiro dia em Dandong, partilhei um táxi com duas mulheres que transportavam caixas de soju, que me disseram ser de Pyongyang”, recorda Hurwitz. “A princípio não acreditei nelas, mas acabei por mostrar uma fotografia que lhes tirei a um chinês residente em Dandong, que me garantiu que elas eram, efetivamente, da Coreia do Norte.”

No final de 2017, as Nações Unidas, seguidas por Pequim, decretaram uma série de sanções contra Pyongyang, esperando conseguir travar o programa de armamento do país. Apesar do arrefecimento das relações entre estes aliados tradicionais e do inverno rigoroso, Hurwitz conseguiu documentar aquilo que é, para muitos, a rotina quotidiana. Mesmo com toda a tensão que se vivia, o fotógrafo conseguiu captar a experiência partilhada de ser vizinhos numa das fronteiras mais vigiadas do mundo. 

Câmaras de videovigilância, na fronteira fortemente guardada em Dandong, monitorizam a travessia da Ponte da Amizade. Ainda que as zonas rurais sejam mais permeáveis, se os desertores forem capturados na China, são deportados para a Coreia do Norte ao abrigo da política chinesa de repatriação forçada. Os desertores enfrentam punições severas, penas de prisão ou mesmo a morte.
Um monumento encoberto por um anoitecer enevoado em Dandong, na China.
Dois dos últimos pescadores com corvos-marinhos do rio Yalu mostram uma carpa. Este rio, com 790 quilómetros, forma uma barreira natural entre a Coreia do Norte e a China.
Fumo ergue-se sobre Hyesan, na Coreia do Norte, visto de Changbai, na China.

No lado chinês, Hurwitz sentiu o clima de tensão, em especial, na povoação de Changbai, uma pequena cidade chinesa a cerca de 10 horas de carro a norte de Dandong, situada no outro lado do rio Yalu relativamente a Hyesan, na Coreia do Norte.

“Foi, provavelmente, o local mais tenso que visitei. Eles são manifestamente desconfiados de forasteiros e de jornalistas estrangeiros, que, no passado, eram acusados de espionagem e encarcerados. O meu motorista nesta zona era extremamente paranoico, havia câmaras de videovigilância por todo o lado, e os habitantes locais lançavam-me olhares de desconfiança, como forasteiro”, conta Hurwitz, um fotógrafo documental sediado em Los Angeles. “Foi o único lugar onde senti necessidade de esconder a máquina fotográfica enquanto tirava fotografias próximo da fronteira. Havia postos de controlo da polícia, onde mandaram parar a nossa viatura.”

De facto, até abril último, quando Kim Jung Un fez uma segunda visita surpresa a Pequim, houve uma escalada de tensão nas relações entre os dois países.

“O rio Yalu é um dos dois rios que constituem a fronteira entre a Coreia do Norte e a China. O Yalu é mais largo que o Tumen”, explica Tim Peters, um ativista cristão, cujo trabalho inclui o transporte de desertores norte-coreanos do nordeste da China. “De certa forma, durante o inverno em particular, é uma terra de ninguém, dando oportunidade [àqueles] que desejam o êxodo [para a China].”

Peters, bem como outros ativistas e jornalistas, tem notado o aumento da segurança no lado chinês nos últimos 18 meses. “Este rio, durante o último ano em particular, e o acesso a ele por não-residentes, tem sido cada vez mais difícil... devido à militarização no lado chinês”, acrescenta.

Do outro lado do rio, à vista de todos, a vida na Coreia do Norte continua a ser drasticamente diferente, paralisada: não há como fugir à pobreza, ao desespero e à falta de bens de primeira necessidade. Tal como os turistas chineses contemplam a Coreia do Norte a partir de embarcações, também os cidadãos de Hyesan se habituaram a ver os turistas chineses a navegar o rio.

Ainda assim, nas cidades fronteiriças, ambas as culturas conseguem coexistir, tal como tem sido durante séculos. A prova está nos inúmeros restaurantes coreanos, tal como Hurwitz refere.

“Numa nota mais ligeira, fiquei fascinado com a comida tradicional coreana que provei na China, especialmente, em Ji'an, na província de Jilin”, diz.

Uma pequena placa de gelo flutua no rio Yalu.
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