Viagem e Aventuras

O Calçado que Tornou Possível as Grandes Explorações National Geographic

Eles alcançaram o cume do Evereste e o fundo do oceano. O calçado usado e gasto que integra os arquivos da National Geographic encerra histórias apaixonantes que vale a pena conhecer. Terça-feira, 22 Maio

Por Nina Strochlic

Nota do editor: Este é o primeiro episódio da série Baú de Memórias, onde recuperamos objetos simples de expedições que fazem a história da National Geographic e partilhamos narrativas fascinantes que se escondem por detrás da sua materialidade.

A National Geographic tem um fascínio por sapatos. Há que admiti-lo. Durante mais de um século, celebrámos fábricas de sapatos, museus de calçado, os sapatos de fibra trançada do Homem do Gelo e os sapatos trazidos de naufrágios de submarinos, para mencionar alguns. As nossas fotografias documentaram as coleções de sapatos de escritores que calcorrearam o mundo e mostraram os peregrinos que queimavam as botas após os 1609 quilómetros do Caminho de Santiago. Construímos inclusive uma narrativa de 10 000 anos de história do calçado na América do Norte, desde as humildes sandálias às botas que pisaram a superfície lunar.

Ao longo dos anos, regressados das aventuras épicas, os exploradores foram deixando o seu calçado na sede da National Geographic, em Washington D.C. para ocuparem o merecido lugar nos nossos arquivos. Descubra alguns dos pares que merecem a nossa preferência.

SANDÁLIAS DA SELVA

Em 1999, J. Michael Fay partiu a pé da República Democrática do Congo e surgiu na costa do Gabão 456 dias mais tarde, usando o mesmo par de sandálias com tiras de nylon. Fay designou esta caminhada de 3219 quilómetros pela selva como Megatransecto, tendo contribuído para transformar a conservação em larga escala no continente.

De acordo com o testemunho do explorador americano dado ao escritor David Quamman, as sandálias eram mais adequadas ao terreno da floresta do que as botas ou os ténis. Ainda assim, toda aquela carne exposta levantava um sério problema. Ao décimo primeiro dia, os pés de Fay tinham sido atacados por larvas, que penetravam na pele entre os dedos e putrefaziam os tecidos.

“Quando é necessário, faz-se uma pausa por uns dias e retoma-se a caminhada. Uma pessoa deita-se, descansa. Dá tempo aos pés para recuperar das lesões. Espera pacientemente”, disse Fay a Quamman. Numa observação posterior, o escritor disse: “Eu nem consigo imaginar como deviam estar os pés de Fay antes de ele se obrigar a parar”.   

Ao longo do percurso, Fay recolheu uma grande quantidade de informação, incluindo esterco de animais, leituras de GPS a cada 20 segundos e gravações dos cantos dos pássaros. Fay esperava que a viagem, patrocinada pela Wildlife Conservation Society e pela National Geographic Society, chamasse a atenção para a última floresta virgem na África central. E foi bem sucedido no seu intento. Pouco tempo depois, o governo do Gabão decidiu converter uma área de 28 490 quilómetros quadrados numa rede de 13 parques nacionais.

O DESGASTE DAS BARBATANAS DE MERGULHO

A oceanógrafa Sylvia Earle passou mais de 7000 horas debaixo de água. Foi considerada pela revista Time como Hero for The Planet e foi a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora científica da Administração Nacional para a Atmosfera e Oceanos. Earle superou enormes obstáculos e bateu recordes mundiais ao ponto de ser tratada, carinhosamente, por Sua Alteza dos Mares.

Enquanto estudante na década de 1950, Earle foi uma das primeiras cientistas do mundo marinho a usar equipamento de mergulho num trabalho de investigação. E isto é apenas uma pequena amostra das conquistas que tornaram célebre esta exploradora dos oceanos. Earle foi a primeira mulher a entrar num submersível com sistema de bloqueio. Na altura, estava grávida de quatro meses. E no ano seguinte, encabeçou a primeira equipa de mulheres aquanautas a viver num habitat submerso durante duas semanas.

Em 1980, Earle tinha mergulhado 381 metros nas profundas águas do oceano sem o auxílio de cabos, quando caminhou no leito do oceano ao largo de Oahu, num fato pressurizado chamado Jim.  “Quando pisei o leito do oceano, tenho noção de que, em certa medida, estava a entrar num terreno muito semelhante ao da paisagem lunar”, escreveu na National Geographic. “As semelhanças entre as duas paisagens são perturbadoras, sendo que permaneceram ambas praticamente inacessíveis e inexploradas até muito recentemente.”

O modesto par de barbatanas que Earle doou à National Geographic Society há alguns anos, ainda que não seja tão impressionante quanto o fato pressurizado, foi um elemento crítico nas expedições de Earle, e isso é visível. As cintas de plástico translúcidas estão hoje opacas e acusam o desgaste provocado pelas centenas de horas de exposição à água salgada e ao sol.

Quantos pares de barbatanas idênticas terá usado Earle ao longo de décadas de investigação científica? Ninguém sabe ao certo, embora, atualmente, ela prefira barbatanas tecnologicamente mais eficientes, inspiradas nas barbatanas dos peixes e as eleitas pelas Forças Especiais Americanas. A diferença é que as barbatanas usadas pelos militares são pretas e as de Earle são de tom vermelho-rubi. A escolha adequada para a Sua Alteza dos Mares.

FICARAM AS BOTAS, FORAM-SE OS DEDOS

Barry Bishop regressou da expedição ao cume do Evereste com as suas botas de couro de rena La Dolomite, um par de botas normais para caminhada, revestidas por umas solas com grampos que se estendiam até à altura do joelho. Bishop não regressou com nenhum dos seus dedos dos pés. O investigador polar, e mais tarde fotógrafo, passou dois anos em expedições nos Himalaias, antes de se juntar à primeira equipa americana a alcançar com sucesso o cume do Evereste, em 1963.

Às 15h30m do dia 22 de maio, Bishop e o seu companheiro de escalada alcançaram o cume, deixaram-se cair no chão e choraram. Pouco tempo depois, iniciaram a descida e, à medida que a noite caía, deram-se conta de que não conseguiam encontrar o acampamento. Numa história de 1963, sob o título How We Climbed Everest, Bishop escreveu: “Bati, pesadamente, com os pés na neve. Era escusado. A dor nos dedos dos pés acentuava-se. E, quando me senti aproximar dos limiares da agonia, a dor desapareceu numa dormência misericordiosa. Reconheci os sintomas clássicos de uma queimadura de frio”. Algumas horas mais tarde, Bishop apoiou os pés e tentou massajar dedos para reativar a circulação. “Assim que percebi que o esforço era em vão, rendi-me à evidência.”

Após uma noite passada ao relento, Bishop alcançou o acampamento no dia seguinte, examinou os pés e percebeu que os dedos “estavam sem circulação, rígidos e gelados ao toque”.  A queimadura de frio significava que ele tinha de ser transportado meio caminho até à montanha pelos sherpas nepaleses, antes de ser evacuado por helicóptero até a um hospital em Katmandu. Um médico americano viajou para lhe administrar um fármaco experimental que poderia reavivar os tecidos mortos nos pés de Bishop, mas não surtiu qualquer efeito. Bishop perdeu também dois dedos da mão, a par da totalidade dos dedos dos pés.

Mesmo sem dedos nos pés, Bishop continuou a escalar montanhas. Quando o seu filho completou três anos de vida, Bishop levou-o até ao Monte Mitchell, na Carolina do Norte. Mais tarde, quando o seu próprio filho subiu ao cume do Evereste, tornaram-se no primeiro pai e filho a conquistar a montanha. “Não existem verdadeiros vencedores”, escreveu sobre o Evereste, “mas apenas sobreviventes”.

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