Sabia que Pode Caçar Hastes na Tapada de Mafra?

Entre muitas atividades que a Tapada Nacional de Mafra proporciona a todos os seus visitantes há uma que se destaca: a caça às hastes. Todos os anos é organizada uma caçada, não aos gamos, mas às suas hastes. Aceite o desafio e entre numa caçada às hastessexta-feira, 25 de maio de 2018

Por National Geographic

A Tapada de Mafra é uma floresta mediterrânica e um verdadeiro tesouro em termos de fauna e de vegetação. Historicamente, a Real Tapada de Mafra foi criada como couto de caça do Rei e da sua corte, mas atualmente as caçadas são outras. De entre os inúmeros animais que circulam livremente pelos 850 hectares de terreno envolvente, o destaque na primavera vai para os cervídeos, mais especificamente para as suas hastes.

Aprendemos em crianças que a idade dos veados se adivinha pelo número de ramificações que existe nas hastes. Mas será que é mesmo assim? Na verdade, não é bem assim. As estruturas ósseas dos gamos e dos veados são de crescimento descontínuo, e caem na primavera dando lugar a umas novas. À queda das hastes destes animais dá-se o nome de desmoque, e todos os anos em abril a Tapada de Mafra organiza uma verdadeira caçada às hastes nos locais mais frequentados pelos animais.

O QUE É PRECISO SABER ANTES DA CAÇA ÀS HASTES?

  • Na Tapada existem duas espécies de cervídeos, os gamos e os veados. As suas hastes têm formatos diferentes: as dos veados são ramificadas; as dos gamos são espalmadas e pontiagudas.
     
  • As hastes caem como se fossem dentes de leite, mas aqui não há fada dos dentes, até porque esta queda acontece todos os anos. As hastes que nascem são sempre maiores que as anteriores: aumentam de tamanho e em número de ramificações consoante a idade do macho, a qualidade da alimentação, entre outros fatores genéticos.
     
  • Enquanto crescem, as hastes estão cobertas por uma epiderme designada por veludo, que é extremamente rica em vasos sanguíneos e que protege e irriga a haste em desenvolvimento. Quando a haste atinge o tamanho final para esse ano, a rede de vasos sanguíneos seca, o veludo cai, e a parte óssea fica exposta. O novo ciclo de crescimento inicia-se algumas semanas após a queda. As novas hastes podem crescer entre 1 a 1,5 cm por dia.
     
  • O nome gamo pode, à partida, não ser familiar, mas na verdade há um representante desta espécie que é uma verdadeira vedeta internacional há muitos anos: o Bambi.
  • Calçado confortável é obrigatório. As hastes podem estar em qualquer local e como tal, nesta aventura específica os visitantes vão poder sair dos trilhos traçados e percorrer os locais por onde andam os animais.
     
  • As hastes não caem ao mesmo tempo e quando ficam com apenas uma delas na cabeça, os animais dão uma “ajuda” à natureza e batem com a outra nas árvores para que se solte.
     
  • Os animais mais velhos perdem as hastes primeiro que os mais novos. Ou seja, durante um curto espaço de tempo perdem um pouco o domínio que têm sobre os mais jovens que, entretanto, aproveitam todas as vantagens: são eles que mandam e que comem primeiro.
     
  • Há uma declaração de tréguas: com as hastes em crescimento não há lutas. As hastes são sobretudo utilizadas durante as lutas entre machos, na altura da reprodução, funcionando como "medidores de força".

ONDE ESTÁ O WALLY?

Estas caçadas apelam ao Sherlock Holmes que há em cada um de nós. Descobrir as hastes não é uma tarefa fácil porque a sua cor é muito semelhante à do solo e o seu formato pode ser facilmente confundido com o dos galhos das árvores. Os monitores da Tapada de Mafra que acompanham os mais novos seguem os percursos mais frequentados por estes animais, mas ainda assim os visitantes terão que estar sempre “de olhos bem abertos”.

E O QUE FAÇO ÀS HASTES?

No final da caçada as hastes são o troféu mais desejado. O que fazer com elas? Podem ser usadas como cabides, para decoração de casas mais rústicas, para fazer cabos de navalhas, suporte para joias, porta-chaves ou mesmo para servirem de suplemento alimentar a outros animais.

Muitas lojas vendem snacks de haste de veado para cães. As hastes funcionam como uma escova de dentes natural, que é simultaneamente rica em nutrientes e minerais como o cálcio. Por serem extremamente sólidas e fortes, duram muito mais tempo que os ossos tradicionais e não são tão perigosas pelo facto de não lascarem.

Na Tapada de Mafra podemos encontrar muitas hastes já roídas pelos animais.

BRINCADEIRAS À PARTE… NA FLORESTA ENCANTADA

Mais do que uma tarde bem passada com prometidos momentos de diversão em família, de contacto com a natureza e de aprendizagem, esta recolha das hastes é importante para o controlo e análise da população de cervídeos e para a identificação de possíveis problemas e fenómenos, como é o caso da falta de nutrientes associada à deformação das hastes.

A população de cervídeos existente na Tapada de Mafra ronda os 500 animais: cerca de 350 gamos e 150 veados. As fêmeas estão em maioria.

Durante a caçada, os monitores dão a conhecer inúmeras curiosidades acerca dos vários animais que habitam neste local, falam sobre a Tapada e levam os visitantes à descoberta de um verdadeiro laboratório vivo onde podem conhecer a multifuncionalidade dos ecossistemas.

O QUE FAZER NA TAPADA DE MAFRA

A floresta da Tapada de Mafra é um verdadeiro paraíso por descobrir, a poucos quilómetros de Lisboa. Os visitantes podem optar por:

  • Passeios pedestres ou corrida com diferentes níveis de dificuldade.
     
  • Percursos de BTT (percursos de 8 a 25km).
     
  • Visita ao Núcleo Museológico de Hipomóveis da tapada Nacional de Mafra – onde pode conhecer os apetrechos de equitação utilizados pelos monarcas.
     
  • Museu da Biodiversidade – onde pode ver a evolução das hastes, conhecer as armas de casa e militares, várias famílias de mamíferos, entre outras coisas.
     
  • Atelier de Apicultura e Experiência Apícola – com inúmeras curiosidades sobre o mundo das abelhas. Sabia que se todas as abelhas desaparecessem do planeta, apenas viveríamos 4 anos?
     
  • Demonstração de voo livre com aves de rapina/falcoaria – técnicas de falcoaria e acesso a várias espécies de aves de rapina.
     
  • Circuito de comboio – viagem de 12 km na floresta onde pode ver os animais no seu habitat natural.
     
  • Geocaching.
     
  • Batismos equestres e passeios a cavalo.
     
  • Tiro com arco.
     
  • Atelier de Burrinhos.
     
  • Passeio de carro elétrico com guia.
     
  • Passeios de Charrete (1 hora).
     
  • Passar uma noite na floresta no alojamento local que está no interior da tapada – Casa de Campo do início do século XX.

A HISTÓRIA DA TAPADA DE MAFRA

A Tapada de Mafra foi criada em 1747, no reinado de D. João V na sequência da construção do Palácio de Mafra, que lhe é contíguo. Funcionava como área de lazer destinada para satisfazer as demandas reais de entretenimento em atividades de caça, e para abastecimento de lenha e outros produtos para o convento.

Mafra, pela sua proximidade à Corte em Lisboa, constituiu, a par de Salvaterra de Magos, área privilegiada de caça dos reis e rainhas da Casa de Bragança. Desde o século XVIII até à Implantação da República, a Real Tapada de Mafra foi local privilegiado de lazer e de caça dos monarcas portugueses, sendo contudo, nos reinados de D. Luís (1861-1899) e de D. Carlos (1899-1908) que a Tapada conheceu o seu período áureo como parque de caça. A tradição era caçar de batida ou de montaria, com o tiro feito a curtas distâncias sobre a caça em movimento.

Com a Implantação da República, cessaram os tempos de caça e lazer da monarquia e a Tapada deixou de ser "Real", passando a designar-se Tapada Nacional de Mafra

A partir de 1998 é criada uma Cooperativa de Interesse Público para aproveitamento dos recursos da Tapada, com o Estado a deter posição maioritária no seu capital social, em parceria com a Câmara Municipal de Mafra e entidades privadas.

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