Viagem e Aventuras

É Assim a Vida de Quem Trabalha no Interior de um Vulcão Ativo

O Monte Ijen abriga uma das últimas minas de enxofre ativas no mundo. Estas são as histórias de quem trabalha no seu interior. Terça-feira, 8 Maio

Por Gulnaz Khan
Fotografias de Andrea Frazzetta

Um espesso véu de fumo apaga o céu sobre o Monte Ijen e o cheiro de fósforos queimados satura o ar.

O material nocivo que goteja das entranhas do vulcão ativo em Java Oriental não se compadece com a vida humana: irrita os olhos, queima os pulmões e corrói a pele. Mas, desde 1968, que os mineiros de enxofre do Monte Ijen se aventuram neste labirinto imprevisível de nuvens gasosas e fumarolas superaquecidas para extrair o ouro do diabo e transportá-lo para o exterior da montanha. Um retrato vivo de um trabalho de braços impiedoso.

O Monte Ijen abriga uma das últimas minas de enxofre ativas no mundo e, se as paisagens oníricas cativaram cientistas e viajantes por mais de dois séculos, nas últimas décadas, os mineiros tornaram-se eles próprios uma atração turística envolta em grande controvérsia.

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O Ouro do Diabo

Todos os dias, os mineiros percorrem um caminho árduo ao longo da encosta de 2743 metros até ao cume do Ijen, envoltos na escuridão, antes de descerem outros 914 metros para aceder ao interior da cratera, onde uma rede de tubos de cerâmica, de fabrico artesanal, direciona os gases que facilitam a precipitação do enxofre elementar.

Sob uma nuvem de fumos tóxicos e um calor insuportável, os mineiros desbastam grandes blocos minerais para formar pequenos volumes, cujo peso total oscila entre os 70 a 90 quilos, e que carregam sobre os ombros, à razão de duas viagens diárias à cratera, auferindo, em média, cinco dólares por transporte.

Por volta das duas da manhã, quando os primeiros mineiros iniciam a subida, já centenas de turistas circulam pelos flancos do Monte Ijen para registar as emblemáticas chamas azuis, que apenas podem ser observadas à noite. O seu lago azul-turquesa, que ocupa uma cratera com 805 metros de diâmetro, adquire um brilho inquietante na escuridão. Enganadoramente deslumbrante, o seu pH é inferior ao do ácido de uma bateria – o maior lago ácido do planeta, cáustico o suficiente para dissolver metal.

Turismo ou Voyeurismo

As visitas a minas são uma forma de turismo que promove o património cultural e são, por isso, bastante comuns em várias partes do mundo, desde África até à Austrália, mas, ao contrário do Monte Ijen, já são poucas as minas que se mantêm ativas e muitas foram, por isso, convertidas em espaços museológicos.

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Alguns investigadores defendem que os turistas se sentem atraídos por estes locais, porque suscitam neles aquilo que os filósofos designaram por “o efeito do sublime”: uma sensação de prazer por estar diante de algo perigoso, mas, absolutamente, inspirador, como um fenómeno natural violento. Victor Hugo definiu-o como “uma combinação do grotesco e do belo por oposição ao ideal clássico de perfeição.”

O Monte Ijen é sublime.

Durante a época alta, a montanha pode receber mais de um milhar de turistas por dia. Frequentemente, é pedido aos mineiros que posem para uma fotografia em troca de pequenas gorjetas, que os mais críticos definem como o “turismo de pobreza” ou a mercantilização do sofrimento humano.

“Os turistas parecem comprazer-se no relato das suas próprias histórias de sobrevivência em situações aparentemente perigosas, uma atitude que em pouco ou nada difere daquela que se tem relativamente a atividades recreativas potencialmente perigosas e desportos extremos”, explica Michael Pretes, professor de Geografia da Universidade de Alabama do Norte, nos Anais de Estudos Turísticos.

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Por outro lado, o turismo também pode ser uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento económico e pôr a descoberto condições de trabalho precárias, independentemente das motivações da visita. A indústria do turismo em Java Oriental emprega, no geral, cerca de 200 000 pessoas. A atividade mineira é uma das profissões mais bem pagas na região e os trabalhadores são membros muito respeitados no seio das respetivas comunidades. Muitos sentem orgulho pela sua excelente forma física e pelo seu importante papel ao atrair visitantes à ilha.

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“Os turistas são vistos como um novo minério e tal, como os metais, gozam do potencial para acelerar o crescimento económico ou fazê-lo entrar em queda,” afirmou Pretes, que estudou as minas de prata ativas em Potosi, na Bolívia. Pretes defende que o turismo mineiro pode ter “um efeito multiplicador” ao contribuir para o aumento de receitas nos setores do alojamento local, da restauração, do comércio, dos transportes e do património histórico nas áreas circundantes.

Apesar das supostas vantagens, os riscos são elevados. Muitos mineiros não têm poder económico para adquirir equipamentos de proteção, como luvas e máscaras, ou optam por abdicar deles, porque atrapalham o trabalho em si. A exposição de curto prazo a elevados níveis de concentração de dióxido de enxofre pode resultar na morte prematura e a exposição crónica pode conduzir a dificuldades respiratórias, obstrução das vias aéreas e perturbações da função pulmonar, segundo os Centros de Controlo de Doenças.

Para evitar a coisificação das pessoas em situação de carência, os especialistas em ética do turismo recomendam que os turistas se abstenham, por completo, de tirar fotografias ou que, em alternativa, peçam autorização aos visados para que se deixem fotografar.

Anel de Fogo

O futuro do Monte Ijen como mina e ponto turístico é, contudo, incerto. A Indonésia situa-se sobre o chamado Anel de Fogo, uma extensão de 40 234 quilómetros de grande atividade sísmica e vulcânica que delimita a bacia do Pacífico. Estima-se que esta região concentre cerca de 75% de todos os vulcões ativos no mundo e que 90% dos terramotos registados à escala planetária ocorram nesta área.

Cerca de 5 milhões de indonésios vivem e trabalham perto de vulcões ativos, onde o solo é mais fértil. Java, só por si, alberga 141 milhões de pessoas, uma das ilhas mais densamente povoadas na Terra.

A erupção mais significativa do Monte Ijen foi registada em 1817, quando uma série de violentas explosões se prolongaram por várias semanas, Segundo testemunhos, a cinza era tão espessa que bloqueava o sol, o derrame de ácido contaminou os lençóis de água e os detritos espalmaram as cabanas de bambu.

Atualmente, os cientistas indonésios e internacionais monitorizam, em permanência, a atividade vulcânica e procuram encontrar formas de mitigar futuros riscos. Não só estão as comunidades vizinhas sob a ameaça de terramotos e magma carregado de gases explosivos, como o derrame de ácido do lago poderá ter consequências catastróficas.

Em março de 2018, centenas de pessoas em torno do Monte Ijen foram evacuadas das suas habitações e 30 foram hospitalizadas após o vulcão ter expelido gases tóxicos. "Por causa deste incidente, foi vedado ao público, turistas e mineiros, o acesso à cratera até nova ordem,” anunciou em comunicado Sutopo Purwo Nugroho, porta-voz da agência nacional de mitigação de desastres.

Não é a primeira vez que o acesso ao vulcão está vedado ao público e, provavelmente, não será a última. Mas, mesmo à distância, a cratera fumegante do Monte Ijen, tóxica, magnífica e indomável, é uma visão memorável.

O vulcão Ijen acolhe o maior lago ácido do mundo, conhecido pela sua intensa tonalidade azul-turquesa. Os cientistas receiam que uma erupção ou um terramoto possa provocar um derrame de ácido do lago, com consequências dramáticas para as comunidades nas áreas circundantes.

Andrea Frazzetta é um fotógrafo italiano atualmente a trabalhar a partir de Milão. Siga-o no Instagram.