Viagem e Aventuras

Como uma Equipa de Ultramaratonistas Enfrentou o Trilho Mais Duro do Mundo

A equipa de intrépidos enfrentou o Snowman Trek, no Butão — uma façanha que demoraria normalmente um mês — no tempo recorde de duas semanas.sexta-feira, 29 de junho de 2018

Por Elaina Zachos
Anna Frost aprecia a paisagem da passagem Gophu La Pass, no 12º dia da expedição. Com os seus 5230 metros de altitude, a passagem é a mais elevada do trilho.

Há dois anos, o montanhista Ben Clark enfrentou aquele que é geralmente considerado o trilho mais difícil do mundo. Tinha decidido terminar o Snowman Trek, um percurso extenuante através dos Himalaias, no Butão.

O trilho em forma de lua crescente começa na fronteira norte do Butão, em Paro, serpenteando ao longo de cerca de 320 quilómetros, até chegar a Bumthang, cobrindo uma subida de montanha de mais de 14 500 metros, através de terreno acidentado. Atravessa os picos e vales de 11 passagens de montanha, estendendo-se através de uma paisagem que é frequentemente fustigada por nevões impiedosos e fortes tempestades.

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Normalmente, este trilho demora um mês a ser percorrido, e tal só pode ser feito quando o clima está calmo. Clark queria bater o recorde, e terminá-lo em metade desse tempo.

Clark reuniu uma equipa de ultramaratonistas seus amigos, que incluía Timothy Olson e Anna Frost, para se juntarem a ele nesta aventura. O montanhista também recrutou um guia local, chamado Wang Chuk, cinco cozinheiros e dois tratadores de cavalos, bem como 21 cavalos.

Nenhum dos elementos da expedição tinha feito o percurso do início ao fim anteriormente, e alguns dos habitantes locais duvidavam que a equipa o conseguisse terminar em duas semanas. O Snowman Trek tem uma taxa de sucesso de 50%, e as condições inclementes levam mesmo os mais intrépidos a desistir e regressar ao ponto de partida.

Após enfrentarem tempestades impiedosas, hipotermia e hipobaropatia (doença da altitude), a equipa completou o trilho em 15 dias e nove horas.

Atualmente, Clark, de 38 anos, vive em Brooklyn. Reformou-se da sua carreira de aventureiro, tal como aquela que viveu no Snowman Trek, mas continua a contar as suas histórias através da produção cinematográfica. Hoje, corre cerca de 80 quilómetros por semana, ao invés dos cerca de 110 quilómetros que corria enquanto de preparava para o trilho.

“Não posso passar todo o meu tempo na montanha, mas não há problema”, diz Clark. “Mas se não continuar a partilhar aquilo que eu adoro nas montanhas, aí não me vou sentir realizado.”

A National Geographic conversou com o Clark a sofrer de jetlag — um telefonema a partir de Nova Iorque, durante uma breve paragem na sua viagem entre a China e a Austrália.

PORQUE DECIDIU ENFRENTAR O SNOWMAN TREK?

De 2002 a 2012, a coisa mais importante na minha vida era como é que eu iria chegar aos Himalaias e explorar montanhas de grande altitude. Adoro escalar rocha e gelo, bem como esquiar e ser o primeiro a desbravar terreno nessas disciplinas de grande altitude. Quando o meu filho nasceu — ele tem agora seis anos — decidi que não queria voltar a correr esses riscos. Quando parei de escalar montanhas pela sua face mais perigosa, em 2012, decidi começar a a praticar trail running.

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Adorava estar nas montanhas. Tendo sido alpinista e alguém que viajava através das montanhas de forma muito minimalista, rápida e com muito pouca bagagem, o trail running era o que fazia mais sentido. Bastava um par de sapatos, uma mochila leve e pouco menos de um dia para fazer aquilo que me demoraria muito mais tempo se estivesse a fazer uma caminhada. Então, à medida que ia desenvolvendo as competências necessárias para essa atividade, continuava a lembrar-me dos Himalaias e pensei, “Caramba, tem de haver aqui qualquer coisa que me permita embrenhar-me bem no coração dessas montanhas, que moldaram tanto da minha perspetiva e têm sido a minha prioridade.”

Toda a equipa e cavalos foram forçados a fazer uma paragem no 13º dia — o dia em que o clima foi mais inclemente durante toda e expedição.

Sabendo que nunca poderia viajar acima dos 6000 metros no Butão — nunca me iriam autorizar a escalar aquelas montanhas — e sabendo que este trilho era conhecido como o mais duro do planeta, pensei, “Preciso mesmo de ver isto.” E não há qualquer receio de sentir que, de repente, quando lá estiver, me apetece fugir e escalar uma montanha.

Este tornou-se o objetivo que me levou de volta [aos Himalaias] e que me permitiu atingir algo maior do que apenas mais um cume a grande altitude.

COMO É QUE SE PREPAROU PARA O SNOWMAN TREK?

Creio que cada aventura é o culminar de todas as experiências que tive na minha vida. Geralmente, procuro algo que seja uma nova adição ou uma construção a partir das bases das competências técnicas que uso habitualmente nas minhas explorações. Para o treino específico para o Snowman Trek, o que eu fiz foi apenas correr ultramaratonas mais longas.

Quando se chega ao Butão, há uma série de regras que nos impedem de avançar demasiado rápido. Consegui treinar em Brooklyn, correndo no Prospect Park, que é o segundo percurso de corrida mais popular nos Estados Unidos. Treinei o verão inteiro e continuei a correr no Prospect Park — o meu pequeno circuito de 5,6 quilómetros — várias vezes ao dia, por forma a manter a minha resistência. Na verdade, podemos estar em boa forma física para fazer o Snowman Trek sem precisar de correr 32 quilómetros diariamente.

COMO ESCOLHEU A SUA EQUIPA PARA O SNOWMAN TREK?

Ainda que pareça uma oportunidade excitante, exótica e incrível, desde 2012 até quando, finalmente, o conseguimos fazer, em 2016, estive sempre à procura de pessoas. Foi uma questão de estar sempre a falar sobre isso e de estar entusiasmado, como estaria com qualquer outro projeto nos Himalaias.

Uma noite, o Timothy Olsen, eu e um outro amigo fomos fazer uma enorme escalada noturna no monte Princeton. Começámos às 10 horas da noite e chegámos ao outro lado da montanha por volta do amanhecer. Estava uma noite fria, com muita humidade, e tinha sido um dia horrível. Mas continuámos a motivar-nos uns aos outros e a avançar, porque estava a ser de tal forma emocionante, que eu pensei, “Uau, uma pessoa que goste disto, de certeza que vai alinhar em ultrapassar as dificuldades que iremos encontrar no trilho no Butão.” O Timmy perguntou-me, “Que mais andas a planear?” e eu disse-lhe, “Olha, quero mesmo fazer isto.”

Ele foi uma das poucas pessoas que me respondeu e, no dia seguinte, disse-me “Envia-me as informações sobre isso. Quero fazê-lo.” E, naturalmente, uma vez que ele é uma pessoa muito consciente, e que essas técnicas lhe trouxeram êxitos no mundo das ultramaratonas, julgo que a cultura oriental refletia os seus valores, e era uma experiência que ele queria ter. E, sem dúvida, senti que qualquer pessoa que tivesse querido fazer essa escalada noturna ao monte Princeton, tinha ânimo mais que suficiente para desfrutar de uma aventura como esta.

Ben Clark atravessa mais uma passagem a 4200 metros, no quarto dia do percurso pelo Snowman Trek.

Afortunadamente, uma outra amiga juntou-se a nós — a neozelandesa Anna Frost, que é uma ultramaratonista muito sensata e experiente. Ela já tinha conduzido algumas visitas guiadas no Butão, e um amigo em comum pôs-nos em contacto e discutimos o assunto. Ela disse, “Bem, eu já lá estive, e se vocês realmente forem, também quero fazê-lo.” Então conversámos e decidimos que gostaríamos muito de a ter connosco, porque o conhecimento dela é tão vasto e ela já tinha experiência no país. A partir daí, trabalhei com alguns antigos contactos nepaleses, para encontrar o serviço de guias certo e juntar a melhor equipa com elementos do próprio país, que nos ajudasse a executar a missão.

QUAIS FORAM ALGUNS DOS IMPREVISTOS QUE ENFRENTARAM NO TRILHO?

Quando iniciamos uma aventura, somos impelidos pelo desconhecido. Há um certo grau de incerteza, há um certo grau de desafio, e há algo de místico na magia e imponência com que nos vamos deparar no trilho e nas montanhas.

O desafio imprevisto mais importante para nós foi equilibrar essas expetativas devido ao nosso entusiasmo. Pensamos em todas aquelas paisagens incríveis, mas nunca nos esquecemos do tempo que iríamos realmente demorar a fazê-lo.

Parte disso passou, obviamente, por como é que nós, como embaixadores do trail running, iríamos convencer os habitantes locais que aquilo era mesmo possível, pois ninguém acreditou em nós, até ao último dia, quando cumprimos o nosso objetivo no período de tempo a que nos tínhamos proposto.

QUAL FOI A SUA PARTE PREFERIDA DESTA EXPEDIÇÃO?

Fui para lá sem saber muito bem o que seria ou não possível, e, como explorador, é muito gratificante terminar uma expedição e não começar a debitar números acerca do trilho. Foi uma experiência sensorial. Foi incrível estar vivo naquele local. Os habitantes locais estavam tão incrivelmente disponíveis para alterar a forma como fazem as coisas para nos ajudar a cumprir este objetivo, acabando por partilhá-lo connosco — todos nós batemos este recorde em conjunto, e nenhum de nós se conhecia antes de termos começado.

Correr este tipo de risco, expormo-nos, acreditarmos nestas pessoas, fazer algo que toda a gente julga impossível — essa espécie de revelação é incrível, pois é tão mais profunda, e tão mais em harmonia com a essência humana.

Sinto-me tão afortunado por ter estabelecido relações duradouras durante esta aventura, e por saber que estas alteraram — porque fizemos isto em conjunto — a forma como as coisas podem ser feitas no Butão. Agora eles sabem que isto é possível, e a noção de correr através dos trilhos irá ajudá-los — espero — a trazer um outro tipo de visitante ao país.

QUAL A DIFERENÇA ENTRE ESTE TRILHO E AS OUTRAS AVENTURAS EM QUE PARTICIPOU?

As outras aventuras em que participei prendiam-se mais com ser pioneiro em qualquer coisa na montanha que nunca tinha sido feita. Algo que era improvável de ser terminado motivava-me, e estas atividades permitem um certo isolamento e solidão. Adoro poder recorrer a um sem número de diferentes competências para desbravar uma rota de montanha. Enquanto que, neste caso, era apenas uma: correr pelo país, e fazê-lo dia após dia.

Timothy Olson percorre um caminho a mais de 4800 metros de altitude, no 11º dia da expedição.

HOUVE ALGUMA COISA EM ESPECIAL QUE ESPERAVA CONSEGUIR ATINGIR?

Queria terminar a minha carreira de explorador. A primeira vez que fui aos Himalaias tinha 22 anos. Na altura, ambicionava escalar o monte Evereste e tornar-me o mais jovem norte-americano a fazê-lo — para mim, a vida é finita, e sempre tive esta sensação de urgência relativamente às montanhas. Nesses 10 anos em que fui pioneiro nos Himalaias, tinha o objetivo muito claro, bem definido e ambicioso de desbravar novas rotas. Tanto quanto sei, continuo a ser a pessoa mais jovem a ter liderado uma expedição bem-sucedida ao cume do monte Evereste pela face norte. Depois passei a interessar-me em descobrir novos trilhos alpinos, e passei para o esqui-alpinismo e para as descidas de esqui.

Para mim, para compreender realmente os Himalaias, a distância foi a última componente numa carreira passada a desbravar montanhas e a tentar perceber de todas as formas possíveis determinada cordilheira. Aquilo que eu mais ambicionava era, justamente, essa perceção. Este foi, verdadeiramente, o último pilar da exploração que eu julgava que me restava naquelas montanhas.

Em vez de me sentir num ambiente gélido, estéril e prístino, o calor das relações e a transformação que se operou em mim foi, afinal, o principal de tudo isto. Olhando para trás, todas estas outras escolhas que fiz estavam muito bem definidas, ao passo que agora tenho uma visão completamente diferente da razão que me levaria a regressar aos Himalaias, e de porque sinto que não posso lá voltar — iria regressar apenas para rever os meus amigos e me divertir.

HÁ MAIS ALGUMA COISA QUE QUEIRA DIZER ACERCA DO SNOWMAN TREK?

Para quem está a pensar fazer o Snowman Trek: comprem o bilhete, vão e comecem. O fracasso é tão iminente, e é uma ferramenta tão valiosa para aprender a fazer as coisas da melhor forma. Podem ler, podem falar com outras pessoas, podem, basicamente, compilar e resumir toda a informação disponível, mas não há nada como estar frente a frente com um grande desafio e falhar redondamente. Recomendo que nunca, nunca desanimem com todos os fracassos que irão enfrentar. Nunca sabemos onde é que eles nos irão levar, e temos de estar completamente OK quando falhamos, porque, a determinada altura, todas estas coisas se irão encaixar e conduzir-nos a algum lado. Só temos de continuar a tentar.

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