Viagem e Aventuras

Estará o "Turismo Negro" na Moda?

Não há nada de intrinsecamente errado em conhecer a zona radioativa de Chernobil ou outros lugares de tragédias passadas. O que importa é a intenção.Friday, June 15, 2018

Por Robert Reid
A roda de um parque de diversões permanece abandonada num espaço público, coberto por árvores, desde que a cidade de Pripyat foi evacuada, após o desastre de Chernobil em 1986.

Nos últimos dias, parece que não se passa uma semana, sem que surja uma nova controvérsia em torno de uma selfie infeliz publicada  na internet.

Turistas que publicam fotografias de si mesmos, com os polegares para cima, em sinal de aprovação, em Auschwitz, são disso exemplo, ou gente a sorrir junto ao para-choques enferrujado de um carro em Pripyat, a cidade ucraniana que foi evacuada, após o desastre nuclear de Chernobil, em 1986.

As imagens ofensivas são vistas e replicadas como bombas demolidoras nos circuitos das redes sociais. Sucedem-se os comentários depreciativos e as partilhas, num mundo virtual que se agita para criar um meme à escala global sobre a preferência crescente dos viajantes pelo turismo de má memória.

A verdade é que visitar lugares associados à morte e ao sofrimento tornou-se popular e parece que veio para ficar.

Mark Twain dedicou um capítulo inteiro a Pompeia em Innocents Abroad. Os turistas acorreram em massa aos campos ainda fumegantes de Gettysburg, em 1863, no rescaldo de uma das batalhas mais sangrentas da Guerra Civil Americana. Anton Chekov abandonou uma carreira de sucesso como escritor, em 1890, para se tornar no primeiro turista gulag do mundo. E há ainda o Taj Mahal, um ícone para uma selfie ao centro, que é, na verdade, um túmulo, e que foi um postal turístico do itinerário de viagens durante mais de 500 anos.

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Desde o Memorial do 11 de setembro e o Coliseu de Roma à Escola Técnica de Murambi, no Ruanda, não há falta de “locais turísticos marcados pela morte, pela catástrofe ou aparentemente macabros”, conforme descreve o Instituto de Investigação para o Turismo de Má Memória, com sede no Reino Unido.

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E, embora o "turismo negro" não seja uma realidade nova, o mesmo não se aplica à forma como estes lugares e experiências estão a ser promovidos.

Aos turistas que visitam os túneis de Cu Chi, perto da cidade de Ho Chi Minh, é-lhes prometida a possibilidade de disparar uma AK-47 no célebre labirinto da guerrilha vietnamita… a um preço.  Algumas excursões aos Montes Golan, em Israel, são promovidas a par da expetativa de assistir ao disparo de mísseis, em tempo real, numa zona de guerra. Percebe-se a ideia.

Na minha opinião, o problema não está na escolha do destino, mas na intenção por detrás da escolha. Afinal de contas, deveríamos deixar de conhecer a casa de Anne Frank, apenas porque o Justin Bieber deixou uma mensagem insensível no livro de honra?

A primeira pergunta que devemos fazer a nós mesmos, quando nos propomos a viajar para determinado lugar, é se essa viagem serve um propósito de enriquecimento pessoal e intelectual, ou apenas uma necessidade de exibicionismo ou satisfação de uma curiosidade mórbida.

Claro que a intenção pode ser uma via com dois sentidos. Mas há uma diferença, obviamente, entre as pessoas que viajam e as pessoas que desenvolvem, geram e lucram com essas viagens.

Enquanto alguns operadores turísticos não parecem ter escrúpulos em distorcer e até mesmo inventar factos ou acentuar o fator sangue para um efeito dramático, outros abordam temas sensíveis, tais como o genocídio, o terrorismo e o desastre nuclear, com o cuidado e a seriedade que se impõem em assuntos desta natureza.

Confrontar os exemplos mais arrepiantes daquilo que o poeta Robert Burns designou de “a desumanidade do homem para com o homem” pode ser uma experiência profundamente emocional, levando a guerra, a opressão, a violência e a injustiça a níveis insuportáveis, acentuando a nossa capacidade de compaixão e empatia.

Enquanto traçava as linhas deste artigo, refleti sobre as minhas experiências de viagens. Muitos dos lugares que integravam a minha lista: campos de concentração, os locais de massacres e assassinatos políticos e campos de batalha podiam ser descritos como sinistros.

Aquilo que retenho melhor sobre o tempo que passei no gueto judeu na época da Segunda Guerra Mundial, em Varsóvia, é a imagem de um outro visitante, um senhor de cabelo branco, que, quando reparei no número que trazia tatuado no braço, acenou com a cabeça em resposta ao silêncio da minha interrogação. A História tornou-se, subitamente, mais real para mim.

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Algumas vozes críticas lamentam a mercantilização destes lugares, mas acredito, pessoalmente, que a exploração ponderada e bem-intencionada destes espaços – não obstante o tipo de doces e aperitivos que o café do recinto possa comercializar – pode ser um catalisador para um processo de cicatrização e mudança.

Muitos americanos, por exemplo, censuraram a Rússia pela sua relutância em erguer um memorial aos milhões de vítimas dos gulag. Há, na verdade, um monumento A Face do Arrependimento na cidade remota de Magadan. Estive lá. No entanto, nos Estados Unidos, o primeiro e verdadeiro local dedicado à história da escravatura humana, na perspetiva dos escravizados, foi inaugurado apenas em 2014 e subsidiado por fundos privados. Penso que é sempre positivo, quando se abordam erros do passado, ainda que tenha sido muito fora de tempo.

Outra memória que retenho do meu passado de viagens tem a ver com uma visita à Torre de Londres, em 2014. Para assinalar o centenário da participação da Grã-Bretanha na Primeira Guerra Mundial, 888 246 papoilas vermelhas foram, progressivamente, preenchendo o famoso fosso da Torre ao longo desse verão, uma por cada soldado britânico caído em combate. Levei uma hora a percorrê-las. A representação física de cada vida perdida foi, claramente, a mais poderosa mensagem antiguerra a que assisti.

É certo que quase todos os destinos do mundo são sombrios em alguma medida. Até mesmo os lugares que descrevemos como paraísos já foram, em tempos, espaços atingidos por catástrofes naturais, violência e fuga. Virar as costas à realidade pode ser a mais triste de todas as viagens.

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