Viagem e Aventuras

Lagos Africanos Inexplorados Revelam Mundo Escondido

Uma equipa de investigadores mergulhou nos lagos das nascentes do delta do rio Okavango e viajou pelo agitado e selvagem rio, pela primeira vez.quarta-feira, 6 de junho de 2018

Por Shaena Montanari

Mesmo para a equipa de aventureiros experientes, a exploração de cada novo segmento do rio que alimenta o Delta do Okavango, em África, constitui um desafio único – independentemente do que se possa descobrir, há uma coisa que se encontra sempre: hipopótamos.

Entre abril e julho de 2017, os exploradores, que participam no Projeto de Vida Selvagem do Cubango (Okavango Wilderness Project) da National Geographic, continuaram a abrir caminho por territórios inexplorados das terras altas angolanas procurando compreender e descrever a misteriosa região que alimenta a bacia do rio Okavango. Considerado Património Mundial da UNESCO, o delta do Okavango é mais conhecido por terminar no Botswana, mas o objetivo do Projeto de Vida Selvagem do Okavango é explorar os rios e lagos que alimentam o delta e que atravessam Angola, a Namíbia e o Botswana.

Steve Boyes, biólogo conservacionista e explorador da National Geographic, é líder do projeto desde 2015, ano em que a equipa começou a descrever formalmente a biodiversidade e as características das terras altas angolanas pela primeira vez (pelo menos no que diz respeito ao conhecimento científico ocidental, uma vez que a região é habitada há milhares de anos pelos habitantes locais).

Desde 2015, a equipa percorreu e analisou meticulosamente os rios Cuito e Cuanavale. Nesta última viagem, explorou os lagos das nascentes estes dois rios e depois rumou a oeste, em direção ao rio Okavango.

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MANANCIAL DE MATERIAL

A viagem em direção aos lagos das nascentes foi particularmente especial. Embora já lá tivesse estado antes, foi a primeira vez que a equipa (ou qualquer outra pessoa, tanto quanto se sabe) mergulhou naquelas águas para descobrir um mundo escondido.

“Trata-se de um sistema de lagos de nascentes e conseguimos chegar a 12”, diz Boyes, indicando que tiveram de criar os seus próprios caminhos para chegar aos lagos. Nesta expedição, exploraram minuciosamente três lagos.

Estes lagos alimentam os rios Cuito e Cuanavale, que, por sua vez, alimentam o sistema do delta do Okavango. “É um sistema de infiltração. Toda a água que flua à superfície é absorvida pela turfa e libertada lentamente. É um ambiente muito estável”, explica Boyes.

Estes lagos são rodeados por espessas camadas de turfa que se acumularam ao longo de milhares de anos e que têm permanecido maioritariamente intocadas. Estes lagos podem ter sido usados por elefantes e hipopótamos antes da Guerra Civil Angolana, mas conclui-se, de forma clara, que já não passam naquele local há muito tempo, uma vez que os sedimentos permanecem intocados.

A missão consistiu em verificar o que jaz sob a superfície destes lagos serenos e quais são as espécies subaquáticas que fazem deles o seu habitat. Adjany Costa, Exploradora Emergente da National Geographic e diretora-adjunta do projeto ficou surpreendida com alguns dos magníficos peixes descobertos nestes mergulhos.

“Descobrimos 96 espécies de peixes, quatro das quais são possíveis novas espécies, e isto só nos lagos de nascente”, diz Costa. A investigadora explica que esta biodiversidade não tinha sido explorada até ao momento porque os habitantes locais nem sequer pescam na zona — acreditam que as nascentes e os rios são ocupados por um monstro parecido com uma cobra que protege o habitat aquático.

Cenas de sonho com algas e peixes a nadar serenamente foram, pois, novas para os olhos humanos. Costa e Boyes dizem ter ficado surpreendidos por verem o peixe-tigre-golias a nadar na nascente do rio Cuanavale e esperam novas e entusiasmantes descobertas quando analisarem os abundantes dados recolhidos de amostras de sedimentos, de drones e de sensores aquáticos.

AGITADO E SELVAGEM

O rio Okavango é muito diferente dos rios Cuito e Cuanavale. É violento, rochoso e agitado — e, ao contrário dos outros, tem, a oeste, uma estrada muito percorrida, o que significa que existe contacto com pessoas.

Mas tal como na expedição de 2015, na qual Boyes quase foi morto quando um hipopótamo fez virar a canoa em que seguia, o rio Okavango continua a albergar hipopótamos intratáveis.

“Ao chegarmos de barco a um dos recantos do rio, uma fêmea começou a perseguir-nos”, diz Boyes relembrando o seu mais recente encontro com uma grande fêmea de hipopótamo — e a sua cria. Depois de dois dias sem encontrarem forma de contornar os hipopótamos, tiveram de chamar os veículos e seguir por um caminho mais longo para evitar o confronto.

Além de definir a biodiversidade da região, um dos principais objetivos da expedição ao rio Okavango foi o de descobrir qual o impacto das pessoas que vivem nas proximidades. “Contámos todas as pirogas que encontrámos. Todas as pessoas. Todas as bombas de água.”

A equipa espera que estes dados sejam usados para prevenir a seca sazonal e a utilização excessiva das valiosas águas do Okavango que alimentam o sistema fluvial do Okavango. “A única razão por que o Delta do Okavango ainda existe, reside no facto de toda a região ter ficado “congelada” durante 27 anos devido à Guerra Civil Angolana”, diz Boyes.

Costa, natural de Angola, está decidida a proteger o país em que cresceu e de que foi aprendendo a gostar à medida que foi ficando mais velha: “Desde que comecei a trabalhar neste projeto, a minha perceção de Angola como um todo mudou.”

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O Projeto de Vida Selvagem do Okavango continuará no próximo ano e os investigadores prosseguirão a exploração de novos sistemas fluviais e a análise da grande quantidade de dados que recolheram, em Angola.

“O meu pai combateu na guerra no local que estamos a explorar neste momento”, diz Costa, descrevendo as terras distantes e selvagens de Angola. “Toda a noção que eu tinha do Okavango e a minha ligação à área mudou completamente.”

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