Porque É que Este País Está a Deslocar os Seus Recifes de Coral

A Jordânia poderá tornar-se um exemplo para outros destinos de mar.sexta-feira, 29 de junho de 2018

Por Jenna Belhumeur, Elena Boffetta

As ruas de Aqaba, na Jordânia, encontram-se repletas de bancas de faláfel e restaurantes de peixe, que apregoam a pescaria do dia. Os habitantes locais sentam-se nos passeios, em pequenas mesas, aproveitando o sol da tarde, enquanto fumam tabaco shisha aromatizado com menta e uva.

Julia Adriana Tapies passa por uma loja para turistas, que vende um sortido de pastelaria árabe e sais de banho do mar Morto. Mas o que trouxe Tapies a este lugar foi uma água com muito mais vida. A espanhola, uma autointitulada fanática do mergulho, sempre sonhou vir a mergulhar no mar Vermelho, um local “cheio de vida e de cor, como não se encontra em nenhum outro lado.”

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Mas o que a maioria dos 12 000 mergulhadores que viajaram para a Jordânia no ano passado não sabem, é que alguns dos vibrantes recifes de coral que vieram explorar foram criados artificialmente.

UMA DESLOCAÇÃO LATERAL

À medida que os empreendimentos urbanísticos proliferam ao longo do golfo de Aqaba, alguns dos locais de mergulho mais populares deixarão de estar acessíveis. Para ir ao encontro da procura dos turistas, e por forma a proteger a biodiversidade marinha da zona, alguns recifes de coral foram deslocados pela Autoridade para as Zonas Económicas Especias de Aqaba, em colaboração com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

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Em 2012, os corais da região Sul da costa e da zona de Al Derreh foram colocados em cestos por uma equipa de mergulhadores que trabalhava no projeto e transportados cerca de três quilómetros para norte, sempre submersos no oceano. Os corais foram então replantados em recifes danificados e numa gruta submarina, recorrendo a cimento marinho e estruturas metálicas, tendo estas últimas sido criadas exclusivamente para este projeto. As colónias de coral mais pequenas foram recolocadas numa zona de viveiro. Após um período de proteção, por forma a garantir o sucesso dos transplantes, os novos locais, situados em frente ao Parque Marinho de Aqaba, abriram ao público em 2018.

Segundo Nedal Al-Ouran, responsável pelo Portefólio do Ambiente, Alterações Climáticas e Redução do Risco de Catástrofes (RRC) do PNUD e um dos cientistas por trás do deslocamento dos corais, o efeito deste processo no ecossistema marinho está a ser monitorizado de perto.

Os delicados corais de Aqaba com 6000 anos não só estão a sobreviver nas suas novas casas, como se estão também a regenerar, acrescenta Al-Ouran. Nos últimos quatro anos, o coral replantado cresceu continuamente a um ritmo de cerca de cinco centímetros por ano, com uma taxa de sobrevivência de mais de 85%, comparada com a média de 60 a 65%.

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Muitas das 127 espécies de coral que se podem encontrar no golfo de Aqaba são especialmente resistentes às altas temperaturas, uma adaptação que as poderá poupar aos piores efeitos do branqueamento que a maioria dos recifes estão a sofrer, na sequência do aquecimento e acidificação dos oceanos. Se estes corais conseguirem sobreviver à poluição, poderão, inclusivamente, vir um dia a ser usados para repovoar recifes moribundos em diversas partes do globo.

DE OLHO NOS MERGULHOS

Ainda que este projeto na Jordânia não seja o primeiro grande deslocamento de corais a ser feito — Havai e Singapura, entre outros, tinham já implementado programas semelhantes — é o primeiro a focar-se no incentivo ao turismo.

Para mitigar o impacto causado pelos mergulhadores na salubridade dos recifes, estão também a ser criados locais de mergulho alternativos. Em novembro de 2017, um avião desativado da Força Aérea da Jordânia foi afundado propositadamente, no âmbito de uma proposta “para criar novos locais de mergulho suficientemente interessantes”, por forma a atrair os turistas e a aliviar a pressão sobre os recifes, relata Omar Madain, um experiente instrutor de mergulho local.

Os esforços conjuntos do golfo estão a resultar. Após o seu primeiro dia de mergulho, Tapies ficou de tal forma encantada que não queria partir — na verdade, ela decidiu passar um mês inteiro na Jordânia.

“Senti-me em casa”, diz a mergulhadora acerca da sua temporada em Aqaba e do “seu magnífico mundo submarino.”

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