Viagem e Aventuras

Recordar Anthony Bourdain e os Seus Lugares Preferidos

O apresentador de televisão, autor e antigo chef executivo mudou o nosso olhar sobre o mundo.quarta-feira, 20 de junho de 2018

Por Hannah Sheinberg
"É um lugar complexo e extraordinariamente único. É uma das minhas cidades preferidas e um lugar que as pessoas devem visitar e desfrutar, não obstante todos os seus problemas e são muitos.” diz Anthony Bourdain referindo-se a Beirute, no Líbano.

Anthony Bourdain mudou a forma como viajamos. Faleceu no dia 8 de junho de 2018. A National Geographic entrevistou-o em 2015 e o artigo foi atualizado em junho de 2018, com base na versão anterior.

Apresentador de televisão, autor e antigo chef executivo, Anthony Bourdain não deixou nada por provar nos quatro cantos do mundo, desde a sopa de bolinhos de batata, em Xangai, às piranhas, no Peru. Descubra o mundo pelos seus olhos e apetite singular.

Na sua opinião, qual é o destino do mundo mais subestimado? E porquê?

Anthony Bourdain: O Uruguai é um destino subvalorizado. Montevideu, a capital do Uruguai, permanece em grande medida por descobrir. Os argentinos conhecem bem a cidade, porque invadem os espaços durante a estação, mas, com exceção deles, o resto do mundo ainda tem muito por descobrir. É um lugar descontraído, as pessoas são muito simpáticas, as praias são espetaculares e a comida é ótima, embora os vegetarianos não tenham a vida facilitada neste país.

Qual é a cidade que definiria como plena? E porquê?

Tóquio. Quer dizer, se eu tivesse de morrer a meio de uma refeição algures, esse lugar seria Tóquio. Se perguntar à maioria dos chefs em que cidade gostariam de ficar para o resto das suas vidas, numa situação de prisão domiciliária e tendo de fazer todas as refeições nesse mesmo lugar, creio que quase todos os que conheço diriam Tóquio.   

E se morresse a meio de uma refeição em Tóquio, o que estaria a comer?

Sukiyabashi Jiro, sem a mínima dúvida. No restaurante de Jiro Ono. É muito bom.

Quando as pessoas o visitam em Nova Iorque, qual é o primeiro lugar onde as leva?

Russ & Daughters abriu portas na cidade de Nova Iorque, em 1914.

Geralmente, levo-as a comer yakitori num dos restaurantes que gosto, ou o Torishin  ou o Yakitori Totto.

Se tiver de indicar um lugar, recomendo o Russ & Daughters ou Barney Greengrass, porque as charcutarias gourmet são algo realmente único em Nova Iorque, melhor do que quaisquer outras, pela minha perspetiva.

E para terminar com uma nota de sofisticação, encaminho-as para o Le Bernardin ou ao Marea.

Se não vivesse em Nova Iorque, que outro lugar chamaria de casa?

Já pensei muito nisso. Imagino como seria viver na Sardenha ou em qualquer outro lugar, em Itália. A minha mulher é italiana e tem família ali… lugares intocados para viver, se ela quisesse.

Mas estou a enganar-me. Eu sou viciado no trabalho. Adoro o que faço e creio que estou preso a Nova Iorque, por mais que quisesse passar tempo noutro lugar. Estaria a iludir-me, se alguma vez pensasse que iria retirar-me para o topo de uma montanha na Toscânia.

Mas se tudo corresse mal na minha vida e acabasse sozinho a beber demasiado, então talvez fosse para o Vietname.

O que o fez abrir um mercado ambulante em Nova Iorque?

Orgulho e inveja.

Sempre senti uma certa amargura por não termos aqueles espaços de venda ambulante como em Singapura, Kuala Lumpur e em Hong Kong. É suposto sermos a cidade mais espetacular do mundo e, no entanto, não temos essa oferta alimentar. Quando surgiu a oportunidade de criar um espaço como esse, agarrei-a.

Tem algumas sugestões para descobrir o circuito da comida de rua, independentemente de quem é?

As bancadas estão ocupadas? São sítios populares entre as gentes da zona? Vende-se? Estas são as questões-chave. Os vendedores ambulantes e as pessoas de comida de rua não estão no ramo para minar o negócio dos vizinhos. Esse é um mau modelo de negócio.

Muitas vezes, vê-se um espaço que vende exatamente o mesmo tipo de artigos que o espaço ao lado, com poucos ou nenhuns clientes no interior. Há, provavelmente, uma razão para isso. Esses são simplesmente bons princípios de negócio.

Se estou num sítio onde a qualidade da água é duvidosa, não vou comer uma grande quantidade de vegetais. Se estou num clima tropical e a carne é mantida à temperatura ambiente, devo evitar comê-la.

À exceção disso, se as bancadas estão ocupadas, eu como. Tacos de aspeto sinistro vendidos na rua, alinho. Na Índia, disponho-me a comer quase tudo, desde que as bancadas estejam cheias. Podem até lavar os pratos no rio, perto de mim, que eu nem sequer quero saber. Como e ponto final.

Qual foi a experiência gastronómica mais memorável que teve durante uma viagem?

Eu tive a oportunidade de comer uma das últimas refeições servidas no El Bulli  [um restaurante com três estrelas Michelin, situado em Cala Montjoi, em Espanha, que fechou em 2011], e foi uma experiência bastante emocional. Todas as pessoas que estavam no restaurante naquela noite sabiam que se estava a fazer história naquele instante. Metade das pessoas na sala de jantar estavam em lágrimas.

E, claro, jantar com Paul Bocuse e Daniel Boulud, lendas da gastronomia, no restaurante Bocuse [em L’Auberge du Pont de Collonges, perto de Lyon, em França] foi uma experência única, de uma vida, que eu nunca pensei viver.

Na quinta temporada de Parts Unknown, regressa a Beirute, no Líbano, onde foi apanhado, com a equipa, no meio de um conflito, em 2006. O que levou a regressar?

Senti que ficou algo por fazer. Estava tudo a correr bem na altura, quando estalou a guerra civil e senti que havia, há e continuará a haver um lado muito mais interessante, mais multidimensional, mais positivo do Líbano, que permanece ainda por descobrir.

Beirute é um lugar complexo e extraordinariamente único. É uma das minhas cidades preferidas e um lugar que as pessoas devem visitar e desfrutar, não obstante todos os seus problemas e são muitos.

Anthony Bourdain em Beirute, com o Harley Davidson Owners Group, durante as filmagens do programa Parts Unknown.

Tenho um fascínio por este lugar e toda a gente da minha equipa adora a cidade, por isso fazia todo sentido regressar e contar outros aspetos da história. Eu faço-o a cada oportunidade. A cidade não foi explorada, nem nada que se pareça, com o detalhe e o cuidado que merece.

Qual o destino que mais o surpreendeu?

O Irão, com toda a certeza. As pessoas que conhecemos, o espírito e as ruas são muito diferentes da política internacional iraniana e do Irão, com o qual lidamos numa dimensão geopolítica. A realidade é dura ali, mas há um Irão muito diferente, que habita aquele espaço e que a maioria das pessoas não conhece. Descobrir este país em primeira mão foi uma experiência desconcertante e entusiasmante.

Como é que o Anthony e a sua equipa encontram esse equilíbrio entre viver o momento e filmar a cena, quando estão no local?

O programa é muito subjetivo, pela forma como tentamos que as pessoas sintam aquilo que eu senti relativamente a um lugar. Alguns poderão dizer que é uma fórmula manipuladora, mas estamos a falar de um programa de opinião e eu tenho a consciência de que não somos jornalistas.

Viajar a trabalho mudou a forma como viaja em férias?

Sim, muito. Durante as férias, tenho tendência para ficar sossegado num lugar. Quando as férias se adivinham longas, o destino é a praia de Long Island. Vamos de carro e não saio dali. A minha filha tem sete anos e deixo-a tomar todas as grandes decisões sobre aquilo que vamos fazer. Do género, vamos à praia hoje, sim ou não? Comemos hambúrgueres ou cachorros quentes? Isto é o mais próximo que consigo ser de um vegetal.

Qual foi a coisa mais estranha que viu nas suas viagens?

Eu vi uma série de coisas que posso ter achado, em tempos, que eram estranhas, mas, a esta altura,… não sei. Jantei uma vez sobre um buquê de crânios de seres humanos. Foi uma situação muito estranha.

Recentemente, declarou o seu amor pela cadeia californiana In-N-Out. O que tem de tão extraordinário?

Não é o melhor hambúrguer do mundo, mas é uma cadeia de fast-food que trata bem os seus colaboradores, trabalha de forma eficiente, e serve hambúrgueres frescos, razoavelmente saudáveis e com uma qualidade aceitável, que me fazem sentir feliz. É um prazer not-so-guilty.  

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