Descubra o Encanto das Bibliotecas Europeias

Na era do digital, os viajantes encontram um novo apelo no esplendor e segredos das grandes bibliotecas.segunda-feira, 23 de julho de 2018

Eu sabia que tinha um problema com bibliotecas mal entrei, pela primeira vez, na sala de leitura, sobre a qual se eleva uma cúpula tão grandiosa quanto a do Panteão, da Biblioteca Estatal de Victoria em Melbourne, na Austrália. Naquele templo de livros, de uma imponência improvável, o meu coração bateu arrebatado por uma súbita perceção: as bibliotecas podem captar e conter fragmentos de história, sob formas extraordinárias. Desde esse momento, sou um verdadeiro amante de bibliotecas.

Em 2012, nasceu a minha filha Thea. Aos cincos anos, ela já sabia distinguir os livros em quarto dos livros em oitavo, os livros da Penguin dos livros da Puffin. Eu queria, no entanto, acelerar a sua paixão por bibliotecas. Ao jantar, eu e a minha mulher Fiona planeávamos uma viagem em família: uma volta ao mundo na rota das grandes coleções.

Elaborámos uma lista dos lugares de visita obrigatória: o medievalismo evocativo da Biblioteca Bodleiana da Universidade de Oxford, em Inglaterra; a perfeição da Biblioteca Morgan, uma autêntica caixa de joias, em Nova Iorque; a acolhedora idiossincrasia da Biblioteca de Folger Shakespeare e a deslumbrante grandeza da Biblioteca do Congresso, ambas em Washington D.C.

“Mas também temos de ir ao Museu Britânico”, rebateu Thea, “para ver as múmias do Antigo Egito”.

O museu Britânico, em Londres, tem apenas uma coleção modesta de livros, e a sua famosa sala de leitura está encerrada ao público por tempo indeterminado, enquanto a direção do museu reconsidera a utilização do espaço. Mas o museu tinha o direito de integrar a nossa lista, e pode-se percorrer a pé a curta distância que o separa da sua congénere, a Biblioteca Britânica. Além disso, o interesse de Thea nas múmias deu-me uma ideia.

“Vamos fazer um acordo”, disse-lhe. “Se o Museu Britânico é o teu espaço preferido, também temos de visitar o meu espaço preferido.”

Selámos o nosso pacto com um aperto de mãos e acrescentámos dois destinos à nossa lista: o Museu Britânico e a Biblioteca da Abadia de St. Gall, que integra um antigo mosteiro, na Suíça, e que é, a meu ver, a mais bela biblioteca do mundo.

A história desta biblioteca começou na Idade das Trevas, quando um grupo de monges irlandeses viajou ao interior da Europa. No país montanhoso, perto do Lago Constança, um dos monges tropeçou. Interpretando o episódio como um sinal, o monge ergueu no local uma cela eremita. A estrutura rapidamente evoluiu para um mosteiro, onde os escribas copiavam e iluminavam meticulosamente os manuscritos, com recurso a pigmentos de ouro, prata e lápis-lazúli.

No século X, a biblioteca sobreviveu à invasão húngara e a um incêndio. Nos séculos subsequentes, os livros foram negligenciados, deixados à mercê do pó e do bolor, conforme referiram muitos das pessoas que visitaram o espaço. Na década de 1700, St. Gall conheceu a sua época dourada. Mestres artesãos ergueram uma biblioteca encantadora, com intricadas guarnições, e um teto com um trompe l’oeil, que cria a ilusão de estantes de livros que se prolongam nos céus. A uma hora de comboio a partir de Zurique, St. Gallen é atualmente uma cidade habitada por cerca de 70 000 pessoas. Chegámos num dia soalheiro. Tinha nevado na noite anterior e as ruas estavam cobertas por um manto de neve.

Após Thea ter feito e atirado a sua primeira bola de neve, caminhámos pelo empedrado das ruas sinuosas da zona antiga da cidade, célebre pelos seus edifícios parcialmente revestidos a madeira, bem como pelas suas esculturas. Ao chegar à clareira que envolve a abadia, ficámos perplexos com a dimensão do edifício e o seu notável estado de conservação. No piso superior, na ala da biblioteca, calçámos os chinelos de feltro que os visitantes têm de colocar sobre os sapatos para proteger o pavimento de pinho com padrões embutidos. A inscrição em grego sobre a entrada da biblioteca faz eco daquela que se ergue à entrada da Biblioteca de Alexandria: “Sanatorium para a alma”. Quando entrámos na biblioteca, uma luz dourada iluminava o espaço. Milhares de livros nas suas encadernações originais alinhavam-se pelas respetivas lombadas, por detrás de grelhas de arame, que os protegiam. Estantes com formas piramidais acolhiam os principais tesouros, entre os quais figura o livro alemão mais antigo do mundo e “uma bíblia dos pobres” ilustrada.

A biblioteca tem também os seus segredos. Ambas as laterais da sala integram pilares de madeira que, quando abertos, revelam um sistema de catalogação engenhoso que se compõe de cartões e pinos. Uma escada oculta conduz-nos a uma divisão que acolhe outros manuscritos raros da biblioteca.

Para além do seu nobre propósito, as bibliotecas mundiais estão sob séria ameaça. Atualmente, novas formas de média ganham maior protagonismo, ofuscando o livro em papel e contribuindo para o encerramento de bibliotecas, como acontece no Reino Unido, ou a pilhagem e destruição destes espaços, como em Bagdade e Timbuktu. Mas lugares como St. Gall mostram que as bibliotecas estiveram sob ameaça desde sempre e que as pessoas sempre manifestaram vontade em protegê-las.

Perto do fim da nossa visita a St. Gall, mostrei a Thea a surpresa que tinha preparada para ela desde o momento em que apertámos a mão. Era também um dos maiores tesouros da biblioteca: a múmia Schepenese, uma jovem mulher egípcia oriunda de Tebas, extraordinariamente bem conservada, sobressaindo na tez escura os dentes imaculados. Após este encontro emocionante, apercebi-me de que Thea tinha integrado as fileiras de bibliófilos para quem as bibliotecas acolhem muito mais do que livros.

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