À Procura Da Mãe de Todas as Estradas

A lendária Route 66, que liga Chicago a Los Angeles, é uma referência histórica e uma parte importante da narrativa dos Estados Unidos. Hoje, os defensores da preservação desta estrada pretendem reabilitar a mítica via do asfalto.segunda-feira, 30 de julho de 2018

Partindo das grutas de cimento em Chicago, a mítica estrada de asfalto, Route 66, imortalizada em filmes, livros e musicais, embrenha-se nos campos, cruzando o Gateway Arch, na cidade de St. Louis, no Missouri, e avança terra adentro pelas pastagens do Kansas, as colinas do Oklahoma, as vedações de gado do Texas Panhandle, e atravessa as paisagens rochosas do Arizona e as cadeias montanhosas do estado da Califórnia. Atravessando por deserto, campos e montanhas, a autoestrada avança por terras “de um cavalo só”, postos militares austeros e cidades monótonas no caminho da terra prometida, a cidade de Los Angeles.

John Steinbeck apelidou-a de “a mãe de todas as estradas”. Na verdade, o número fala por si mesmo: Route 66, a estrada nascida precisamente quando as ambições americanas a ocidente se materializaram no aço e no alcatrão, sedentas de petróleo. A estrada que percorríamos antes das autoestradas interestaduais transformou o percurso em viagens insípidas, entre estações de serviço com idêntica configuração.

A Route 66 é uma imagem heterogénea, e por vezes involuntária, da narrativa dos Estados Unidos, densamente povoada por lembranças da identidade do povo americano, que se projeta no futuro: vestígios da Guerra Civil Norte-Americana ou do Caminho das Lágrimas, a corrida ao ouro, o caminho-de-ferro, o advento do automóvel, a ambiciosa engenharia civil norte-americana, os cenários cinematográficos de Hollywood, o sonho europeu e o legado do racismo contra os povos indígenas americanos e os migrantes afro-americanos. Tudo entremeado com frango frito e espetadas de salsichas fritas, polvilhadas com farinha de milho, e estátuas excêntricas.

No seu auge, a Route 66 foi a melhor opção para os americanos que partiam rumo ao pôr do sol, animados pela mudança de cenário, na esperança de melhores oportunidades ou de um novo trabalho. Outras vezes, para sobreviver. Alimentou as esperanças ténues dos migrantes desesperados, que fugiam ao Dust Bowl e esperavam encontrar trabalho na Califórnia. Por ali passaram gerações de condutores, de partida para umas férias no Grand Canyon, ou rumo aos contos de fadas a cores de Hollywood, ou sob a promessa de um lugar quente e distante, onde a brisa lembrava o aroma salgado do Pacífico e anunciava o começo de um novo ciclo.

Este verão, viajamos ao longo do percurso da Route 66. Partimos de Chicago esta semana, decididos a explorar uma estrada emblemática, que resistiu ao tempo e sofreu golpes e que, recentemente, foi objeto de umas quantas intervenções de rejuvenescimento, um processo lento, mas ainda assim garantido. Viajamos na companhia do Fundo Nacional para a Preservação do Património Histórico, que declarou a Route 66 como património nacional e submeteu ao Congresso um pedido para designar a longa estrada como uma rota histórica. Esta designação, com carácter permanente, implicaria a disponibilização de fundos, há muito necessários, para a reabilitação de tudo aquilo que torna esta infraestrutura única, incluindo as comunidades em seu redor, impulsionando a recuperação económica e despertando um maior interesse pela mítica estrada.

Atualmente, a história da Route 66 é o destino da própria estrada, entregue à sua sorte, enquanto a América se empenhava na construção das eficientes e monótonas autoestradas interestaduais. Restaurantes, com os seus bancos giratórios forrados a couro vermelho, postos de combustível, motéis e diversões à beira da estrada lutam hoje pela sobrevivência. Muitos dos ícones faliram. Outros ficaram reduzidos a ruínas ao longo da estrada.

Mas este não é o fim da história. Os amantes de automóveis e os apreciadores de curiosidades, oriundos dos quatro cantos do mundo, continuam a deslocar-se numa espécie de peregrinação à “mãe de todas as estradas”. E, nos anos mais recentes, uma estima crescente pelo lugar especial que esta autoestrada ocupa no imaginário americano despertou a necessidade de conservação ao longo da via.

Desde o café Palms Grill, em Illinois, passando pelo cinema 66 Drive-in, no Missouri, até ao posto de combustível Tower Station, em Shamrock, no Texas, os estabelecimentos comerciais foram sendo reabilitados e abertos ao público. O icónico motel Wigwam Village #6, de Holbrook, no Arizona, cujas tendas familiares de cimento e aço replicam a configuração das tipis, sendo chamadas, incorretamente, de wigwams, aluga novamente quartos de estilo vintage, equipados com os antigos telefones de disco e televisão por cabo. O lendário cinema Gillioz, situado em Springfield, no Missouri, uma sala de espetáculos de referência nos antigos tempos do cinema mudo e do vaudeville, vive novos dias de glória como espaço de música ao vivo.

A estrada resiste, assim como os artistas, os empresários e os sonhadores, que erguem as suas casas à beira do asfalto. Na loja de souvenirs Angel and Vilma, no Arizona, ainda pode conhecer Angel Degadillo, que viveu nove décadas à beira da Route 66, sendo conhecido como o anjo da guarda da célebre estrada.

No café Midpoint, no Texas, sob o lema “Quando está aqui, está a meio caminho dali”, pode ainda avistar o antigo proprietário Fran Hauser, um velho comerciante da Route 66, que serviu de inspiração para a criação de Flo, a personagem do filme de animação Carros.

Inúmeros museus permitem fazer uma pausa do asfalto, dedicados a temas tão diversos quanto o arame farpado, os motociclos ou a exploração mineira. Estas paragens são marcos para a própria estrada, uma vasta e complexa montra multimédia dos diversos ímpetos, esperanças e fragilidades da cultura americana.

Ao longo da estrada, é possível encontrar antigos lugares, erguidos com pedras e terra, antes mesmo da chegada dos europeus ao continente, assim como cidades fantasmas, campos de batalhas durante a Guerra Civil, cemitérios e provisões acondicionadas em grutas pelo governo norte-americano durante a Crise dos Mísseis de Cuba.

A Route 66 assistiu ao nascimento de um símbolo do kitsch americano: o autocolante colado na traseira dos automóveis e os bonecos gigantes de fibra de vidro, que se erguem à entrada dos estabelecimentos comerciais, bem como uma centena de outros expedientes publicitários. Para fazer dinheiro com os condutores, havia que tirá-los do automóvel, mas como? Gerações de génios loucos do marketing forjaram estas estranhas inovações, num apelo ao consumo.

O coelho gigante de fibra de vidro, que se ergue à entrada da loja de conveniência Jack Rabbit Trading Post, no Arizona, e outrora tornado famoso pelos cartazes que se distribuíam ao longo da Route 66, é um desses exemplos, tal como o depósito de água Britten Leaning Water Tower, situado no Texas, que foi inclinado deliberadamente pelo proprietário de uma estação de serviço, antecipando a curiosidade dos condutores, que paravam para observar a torre, aproveitando para abastecer os veículos e jantar. Uma aposta claramente acertada!

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