Deixe-se Envolver Pela Magia dos Circos Familiares da Europa

Entregue-se às artes do circo contemporâneo e perca-se no seu universo.

Tuesday, August 14, 2018,
Por Abby Sewell
Fotografias Por Stephanie Gengotti
Les Pêcheurs de Rêves.
Les Pêcheurs de Rêves, uma pequena trupe familiar que atua em todo o território europeu, posa para a objetiva em frente da caravana familiar.
Fotografia de Stephanie Gengotti

Um rapaz de pequena estatura permanece sobre um cais de madeira, que se soergue sobre as águas calmas, raiadas pela luz do sol, do rio Ródano, com o olhar fixo nas três laranjas que se agitam suspensas acima da sua cabeça.   

Na sua coletânea de fotografias, sob o título de Circus Love, a fotógrafa Stephanie Gengotti captou as cenas do mundano e da magia, no tempo em que acompanhou as companhias familiares do circo independente da Europa.

Gengotti descobriu o mundo do Nouveau Cirque, quando fotografou o Cirque Bidon em 2016, uma companhia de circo francesa que se desloca numa caravana de vagões puxados por cavalos. Era o seu primeiro contacto com o universo do circo contemporâneo, que deixara para trás os tigres e os elefantes, privilegiando as atuações mais teatrais. Nestes novos circos, sendo o Cirque du Soleil o maior e o mais conhecido de todos, os artistas humanos dominam o palco, numa mescla de representação, acrobacias, arte e dança.

“A minha ideia de circo sempre foi a de um espaço tradicional dinamizado por atuações de animais e outras do género, a que assistia quando era ainda miúda”, diz Gengotti. “Mas quando descobri esta forma reinventada de arte circense, foi como se viajasse a um outro planeta.”

O Cirque Bidon aguçou a sua curiosidade sobre a vida na estrada de uma trupe familiar. Gengotti seguiu de perto as vidas de três famílias circenses de diferentes regiões da Europa, viajando com cada uma delas durante cerca de 10 dias para sentir todos as dinâmicas da vida no asfalto.

“Procurei verdadeiramente integrar-me no seio da cada família, como se fosse apenas mais um membro”, diz Gengotti.

LES PÊCHEURS DE RÊVES Florence e Vincent beijam-se na sala de maquilhagem, após uma atuação em Avignon, França.
Fotografia de Stephanie Gengotti
BRUNETTE BROS. Marius e a mãe, Maria, viajam por Itália para participar em diferentes festivais circenses.
Fotografia de Stephanie Gengotti

Tal implicava ajudar a preparar as refeições, bem como limpar, distribuir brochuras e cuidar dos mais pequenos. As fotografias finais desviam o foco do espetáculo em si para concentrar a luz na vida do quotidiano. A paixão de Gengotti pelo estilo de vida circense acentuou-se. A fotógrafa descobriu um ritmo de vida mais calmo, que parecia um retorno aos dias que precederam o advento das permanentes distrações digitais e um oásis de fantasia “numa sociedade que se esvaziou de toda a sua poesia”, afirma.

A propósito da sua vida em casa, na cidade de Roma, Gengotti diz: “levanto-me de manhã e passo o dia a correr de um lado para o outro e só paro à noite. No circo, o tempo passa realmente devagar. Um dia dura efetivamente um dia”.

Gengotti registou com a objetiva a cena das crianças sobre o cais durante o tempo em que privou com Les Pêcheurs de Rêves, ou Os Pescadores de Sonhos, uma pequena trupe familiar formada pela dupla francesa Vincent e Florence Duschmitt, marido e mulher, que percorrem juntos o asfalto há 20 anos.

Os seus filhos, Zoran, de 10 anos, e Zia, de 13, não atuam, mas acompanham os pais na estrada tanto quanto as aulas na escola o permitem e começam a apanhar o jeito a esta forma de arte, disse Florence.

LES PÊCHEURS DE RÊVES Zoran e Zia ensaiam uma pequena atuação para mostrar aos pais.
Fotografia de Stephanie Gengotti

São um clã matriarcal, muito unido. “Florence é a chefe e eu sou o chefe, mas não o primeiro ou o segundo chefe”, diz Vincent.

O espetáculo atual da família Duschmitt explora a história de amor entre um par de palhaços, uma história que partilha ligeiras semelhanças com a sua própria história pessoal, numa sequência muda de sketches cómicos e acrobacias, que culmina com um tango entre dois apaixonados. Florence descreveu o estilo da atuação do par como “poesia visual”.

“É preciso tempo para criar uma história real, sem suporte textual, e torná-la interessante do princípio ao fim e dar-lhe um sentido”, diz Florence.

Florence revelou que as imagens de Gengotti a transportaram de volta a um verão feliz passado entre atuações na França rural.

“Foi realmente interessante ver-nos a nós mesmos através do seu olhar, a forma como nos perceciona, sob o sol de Avignon”, diz Florence.

LES PÊCHEURS DE RÊVES Florence e Vincent vestem os fatos de palhaço para a sua atuação Nez pour s'aimer.
Fotografia de Stephanie Gengotti
LES PÊCHEURS DE RÊVES Florence e Vincent, vestidos de palhaço, durante a sua atuação Nez pour s'aimer.
Fotografia de Stephanie Gengotti
BRUNETTE BROS. Manu, Lisa, Luca, e Maria da trupe companhia Brunette Bros. posam para a objetiva do fotógrafo, após o seu espetáculo de palhaços.
Fotografia de Stephanie Gengotti

Por sua vez, Gengotti, que tenciona voltar à estrada novamente este verão para acompanhar o Cirque Bidon, diz que, cada vez que retoma a vida quotidiana após voltar do circo, sente um desassossego que a incita a voltar.

“Eu gosto da ideia de fazer parte de uma família que escolhemos e também da sensação de liberdade”, diz Gengotti. “Estas pessoas não têm de dar satisfações a um diretor, nem de agradecer a um chefe. São donos e senhores das suas próprias vidas.”  

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeograhic.com.

LES PÊCHEURS DE RÊVES Zia espreita pela janela da caravana, enquanto aguarda o regresso dos pais após a atuação no festival de Avignon, em França.
Fotografia de Stephanie Gengotti
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