Como o Ecoturismo Ajuda Elefantes e Pessoas a Construir Um Lar

Sarara Camp, no Quénia, é um modelo de ecoturismo de gestão comunitária.

Tuesday, September 25, 2018,
Por Michaela Trimble
Uma manada de elefantes atravessa o rio Sarara, no Parque de Conservação da Vida Selvagem de ...
Uma manada de elefantes atravessa o rio Sarara, no Parque de Conservação da Vida Selvagem de Namunyak, no Quénia. Criado em 1995, Namunyak tornou-se num santuário para a população de elefantes, apoiado no ecoturismo.
Fotografia de PETER MCBRIDE, NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

No coração do norte do Quénia, os cumes aguçados da cordilheira de Mathews envolvem as seis tendas de lona, que integram a unidade de ecoturismo Sarara Camp. Contrariando a noção tradicional de safári, uma estadia aqui, no meio de uma floresta densa preenchida por acácias e zimbros, onde pastam elefantes, girafas e pequenos antílopes, permite não só contactar com as diversas formas de vida selvagem, como também descobrir a cultura indígena da comunidade samburu.

Os samburu são uma tribo seminómada de pastores aparentados dos masai, que prosperaram no sopé deserto do Monte Quénia, ao longo de séculos. Embora o seu território se tenha estendido em tempos para norte do lago Turkana, avançando para território etíope, as guerras tribais, em meados do século XIX, empurraram os samburu em direção ao sul para as terras que ocupam atualmente, nas quais se inclui a base de acampamento ecoturístico Sarara Camp, um destino que tem vindo ganhar rapidamente reconhecimento pelo seu modelo de conservação comunitária.

Situada numa pequena extensão dos 340 000 hectares do Parque de Conservação da Vida Selvagem de Namunyak, a unidade ecoturística Sarara Camp foi criada por Piers e Hilary Bastard em 1997. Desde então evoluiu de uma organização móvel para um retiro ecológico de luxo detido e gerido na íntegra pelas 120 famílias da comunidade samburu. Trabalhando em parceria com o filho do casal Bastard, Jeremy, e a sua mulher Katie Rowe, e também com o apoio de organizações como a Conservation International, os samburu continuam a proteger aquela que se mantém hoje como uma das franjas de vida selvagem africana ainda intacta, com uma importância vital no território.

PASSADO DOLOROSO

A partir dos anos 70, os caçadores furtivos mataram quase todos os elefantes no alcance da cordilheira de Mathews, na procura pelo marfim. E, embora a área tenha sido um dos últimos bastiões do rinoceronte-negro do Quénia, a espécie foi caçada até à extinção nos anos 90, enquanto os caçadores furtivos lucravam com os seus cornos de queratina. As populações de outras espécies também diminuíram, desde as girafas reticuladas às zebras de Grevy.

Sarara Camp integra um conjunto único de unidades de ecoturismo eleitas pela National Geographic. Na imagem, uma vista em Sarara Camp sobre a paisagem do Parque de Conservação da Vida Selvagem de Namunyak.
Fotografia de AMI VITALE, NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

Namunyak foi criado em resposta à crise gerada pela caça furtiva, com o objetivo de proteger a vida selvagem através da conservação comunitária. Quando as rigorosas medidas contra a caça furtiva se começaram a fazer sentir, os proprietários de Sarara Camp decidiram entregar os benefícios económicos do turismo à comunidade samburu, em troca do seu papel de proteção da vida selvagem. A parceria permitiu o regresso de mais de 4000 elefantes à região.

Para lá do alpendre protegido por um telhado de colmo, os visitantes podem flutuar na piscina natural construída seis metros acima de um furo de água, onde dezenas de elefantes saciam calmamente a sede, uma visão impensável no auge da caça furtiva. Até mesmo uma manada de zebras de Grevy, três das quais Rowe encontrou abandonadas e alimentou a biberão nos primeiros meses de vida, param para um gole ocasional.

Estas manadas de elefantes prosperam graças ao santuário de elefantes de Reteti, o primeiro orfanato detido e gerido na íntegra por uma comunidade. Criado pela tribo samburu e a menos de uma hora de distância de automóvel de Sarara Camp, Reteti é uma consequência natural de um movimento de bases de conservação comunitária amplamente reconhecido e em franca expansão no norte do Quénia, que começou a criar raízes no final do século XX e no início do século XXI, com dezenas de organizações.

A parceria entre o santuário de Reteti e Sarara Camp, financiada por particulares e contribuições de organizações de conservação, procura que a comunidade samburu beneficie da gestão da vida selvagem, mantendo as suas tradições culturais.

Os samburu, que convivem com a segunda maior população de elefantes no Quénia, acolhem e cuidam das crias de elefante órfãs e abandonadas, libertando-as, por fim, na natureza no seio das manadas selvagens que vivem nas proximidades do santuário. E embora a caça furtiva em África continue a ser uma realidade preocupante, o santuário já salvou mais de 30 crias de elefante no norte do Quénia, numa população de cerca de 8700 indivíduos, graças a uma equipa de nutricionistas de animais selvagens, com formação veterinária dada pelo Jardim Zoológico de San Diego. Treze elefantes e um rinoceronte-negro estão, atualmente, entregues aos cuidados do santuário.

“Muitos dos 45 funcionários de Reteti são antigos pastores samburu”, afirma Rowe. “É muito interessante observar a forma como cuidam dos elefantes, fazendo coisas que só eles podiam saber, como bater com um ramo numa acácia, procurando soltar as vagens para alimentar os elefantes.”

Um guerreiro samburu contempla a paisagem junto à piscina de Sarara Camp, que é gerido e detido na íntegra pela comunidade samburu.
Fotografia de PETE MCBRIDE, NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

Os seus esforços começam a dar frutos. Milhares de elefantes regressaram à cordilheira de Mathews, e outras espécies, como o leopardo, o búfalo e o cão selvagem, tendem a seguir-lhes as pegadas. Mas o impacto do santuário de Reteti e de Sarara Camp faz-se sentir não só no domínio da vida selvagem, mas também no plano humano.

O PODER DO POVO

A colaboração do povo samburu com a unidade de ecoturismo Sarara Camp e o santuário de Reteti põe em evidência a necessidade de um modelo de conversação comunitária, numa altura em que os países vizinhos da África Oriental seguem exatamente no sentido oposto.

Segundo o Instituto de Oakland, um centro de investigação política independente, cerca de 40 000 masais foram expulsos das terras dos seus antepassados no norte da Tanzânia, no início deste ano, a favor de um plano de desenvolvimento para um parque privado de caça, financiado por uma empresa de safáris detida pelos Emiratos Árabes Unidos. E a Organização das Nações e Povos Não Representados, na sigla inglesa UNPO, relata situações semelhantes no Uganda, Ruanda, Burundi e na República Democrática do Congo. O povo batwa, que foi expulso do Parque Nacional de Bwindi e do Parque Nacional de Vulcões para proteger os gorilas da montanha com os quais partilharam em tempos a floresta de forma sustentável, não recebem alegadamente qualquer benefício económico procedente da exploração turística das suas antigas terras.

O santuário de Reteti e Sarara Camp são diferentes. Com o objetivo de articular o ecoturismo, o enriquecimento comunitário e a conservação da vida selvagem, estas organizações confiam as rédeas ao povo samburu para que sejam eles os administradores das suas próprias terras e, em última instância, senhores do seu próprio futuro.

“O santuário de Reteti supôs uma grande mudança para as mulheres no seio do povo samburu”, diz Dorothy Lowuekuduk, a primeira mulher a assumir uma posição de supervisão no seio do santuário, tendo começado a sua carreira na organização em 2016. As suas primeiras tarefas incluíam procurar elefantes órfãos pelo rasto dos seus excrementos na paisagem deserta. Firme ante aqueles que mostraram resistência, Lowuekuduk quebrou a tradição ao assumir as funções de supervisora, uma posição cujo perfil, para muitos membros da comunidade, se adequava apenas aos homens. “Fui a terceira contratada em Reteti, e o meu trabalho contribui para mudar as mentalidades no seio da comunidade. Atualmente, seis mulheres trabalham no santuário, e os nossos pais e avós podem ver o quão fortes somos e aquilo que somos capazes de alcançar.”

E embora os safáris continuem a ser o pilar de Sarara Camp, o retiro permite experiências pessoais com os membros do povo samburu. Seja a criar peças de joalharia com as mulheres samburu, ou a caminhar pelo mato aos poços melódicos (furos de água), onde os guerreiros samburu entoam canções tradicionais, enquanto juntam o gado para beber, os viajantes têm a oportunidade de aprender com pessoas como Robert Lemaiyan, um guerreiro samburu que gere a mais recente aposta de Sarara Camp: as Sarara Treehouses. A construção destes retiros arbóreos foi financiada pelas doações dos participantes da expedição Summit Sarara.

Lemaiyan cresceu com Jeremy Bastard e é uma parte integrante desde a criação desta unidade de ecoturismo. Principal defensor do modelo de conservação comunitária na região, Lemaiyan foi testemunha da mudança de atitude dos samburu relativamente à vida selvagem, ao longo das últimas duas décadas, e do empenho que esta comunidade dedica hoje à proteção dos elefantes, dos rinocerontes e das girafas. Os animais, que os samburu viam antigamente como uma ameaça à sua sobrevivência, são hoje o seu suporte através do ecoturismo.

“Este projeto assume uma grande importância para nós enquanto comunidade”, afirma Lemaiyan. “Não só nos oferece trabalho na nossa própria terra, como também assegura a sua sustentabilidade para as gerações futuras. Estamos muito orgulhosos.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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