Descubra como Viajavam as Mulheres em 1920

O Dia da Igualdade da Mulher celebra o ano em que a 19.ª Emenda reconheceu o direito de voto de uma maioria de mulheres, mas em matéria de viagens a questão era completamente diferente.sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Como era viajar para as mulheres em 1920? Na verdade, tudo dependia da pessoa, da sua condição e do destino.

Corria o ano em que muitas mulheres americanas conquistaram o direito de voto, por via da 19.ª Emenda, uma conquista assinalada atualmente no dia 26 de agosto como o Dia da Igualdade da Mulher. O âmbito da emenda não visava todas mulheres, tendo mantido na esfera da exclusão as mulheres aborígenes, as imigrantes asiáticas e as mulheres negras do Sul, que só viram reconhecido o seu direito de voto em 1965. E, tal como a conquista do direito de voto, também o acesso das mulheres a viagens seguras foi um percurso cheio de altos e baixos.

Se se tratasse de uma mulher casada, disposta a viajar para o estrangeiro, é provável que o marido tivesse um passaporte que identificasse ambos como “Sr. Silva e mulher”. Isto porque apenas as mulheres solteiras podiam obter um passaporte com o seu apelido de nascimento. Se uma mulher casada solicitasse o seu próprio passaporte, com o intuito de viajar sozinha, o documento seria emitido com o nome do respetivo marido, isto é, “Sra. D. Silva”.

Mas, a bem da verdade, nem sequer era suposto que uma mulher viajasse sozinha.

“Quer fosse uma mulher casada a viajar sozinha, com o nome do marido, ou quer fosse uma mulher solteira numa viagem solitária… Qualquer uma das situações era considerada atípica e fugia às normas convencionadas à época”, afirma Craig Robertson, um historiador em media da Universidade de Northwestern e autor do livro The Passport in America.

Apesar disso, ainda havia mulheres que viajavam sozinhas em 1920, algumas das quais não gostavam nada de ser portadoras de um passaporte em nome do marido, como a jornalista Ruth Hale, que fundou a Lucy Stone League em 1921 para combater o problema. Quatro anos mais tarde, a escritora Doris E. Fleischman tornou-se na primeira mulher casada a conseguir o passaporte com o seu nome de solteira, por via da intervenção e auxílio da Lucy Stone League.

Ida B. Wells-Barnett (1862 - 1931) era uma jornalista afro-americana, sufragista, feminista e uma viajante regular. Este retrato de 1893 foi tirado vários anos após a sua derradeira e vã tentativa de processar a companhia de caminhos de ferro por tê-la expulsado de uma carruagem de primeira classe destinada às senhoras, e antes dos Estados Unidos terem rejeitado o seu pedido de emissão de passaporte, por força da sua fama como “conhecida agitadora racial”.
Fotografia de NIDAY PICTURE LIBRARY, ALAMY STOCK PHOTO

Nem todas as mulheres americanas tinham igualdade de acesso às viagens internacionais, sobretudo as mulheres aborígenes, que não eram consideradas cidadãs americanas e nem sequer podiam viajar livremente entre as respetivas nações. Mas para as mulheres negras com capacidade financeira para o fazer, as viagens internacionais eram uma forma de fugir aos constrangimentos racistas que vigoravam à época nos Estados Unidos. Em 1920, Bessie Coleman obteve um passaporte e frequentou uma escola de aviação em França, porque nenhuma escola de aviação americana aceitou a sua inscrição. Coleman tornou-se na primeira mulher negra a conseguir a licença de piloto, apenas porque conseguiu sair do país.

Os Estados Unidos recusaram também a emissão de um passaporte a, pelo menos, uma mulher negra de relevo. Ativista e jornalista, Ida B. Wells-Barnett viajava com regularidade para a Europa em 1890, quando os passaportes não eram ainda um requisito. Mas, em 1918, a história era outra: os Estados Unidos recusaram-se a emitir-lhe um passaporte para viajar para Paris, com o propósito de participar na Conferência de Paz, que se realizava naquela cidade, por ser considerada uma “conhecida agitadora racial”.

Wells-Barnett não era, por certo, alheia à discriminação em matéria de viagens nos Estados Unidos. Na década de 1880, a jornalista tornou-se famosa por processar a companhia de caminhos de ferro por tê-la expulsado da carruagem de primeira classe destinada às senhoras. Wells-Barnett ganhou a ação, mas o Supremo Tribunal do Tennessee anulou a sentença. As mulheres negras enfrentaram a mesma discriminação nos transportes públicos em 1920, um período em que muitas viajaram para norte durante aquela que ficou conhecida como a Grande Migração Negra.

“Certamente que há muita ficção em torno da forma como o Renascimento Negro de Harlem lidou com este tipo de viagens… mulheres que partiram para norte e ocidente à procura de novas oportunidades”, diz Shealeen Meaney, uma professora de inglês em The Sage Colleges.

A escritora Nella Larsen do Renascimento Negro de Harlem “interessava-se particularmente sobre a questão das mulheres mestiças e da usurpação de raça”, afirma Meaney. Os seus contos Quicksand, de 1928, e Passing, de 1929, retratam mulheres viajantes, “às quais lhes era franqueado ou vedado o acesso a ambientes exclusivamente frequentados por brancos, conforme os indivíduos as identificassem e rotulassem de pele negra ou branca”.

Os automóveis representavam uma alternativa aos transportes públicos, mas nem sempre eram uma escolha segura para as mulheres negras com acesso a este tipo de transporte. O Livro Verde do Automobilista Negro, que indicava, com detalhe, os locais onde era seguro ou não parar em Jim Crow South, só viria a ser publicado em 1936. E, embora as estâncias turísticas para negros a norte e a sul fossem um lugar seguro para os americanos negros gozarem as férias, alcançar esses locais por estrada era considerado perigoso, quando se desconhecia os locais seguros para parar e abastecer o depósito com combustível.

Já as mulheres da classe média, com acesso a automóveis na década de 1920, podiam percorrer o país com as amigas no verão e publicar os escritos de viagem sobre as aventuras ao volante de um automóvel. A escritora Maria Letitia Stockett parece até ter antecipado a promoção daquela que viria a ser a maior sequela cinematográfica de carros, intitulando a sua narrativa de aventuras na estrada como America: First, Fast, and Furious.

À semelhança do direito de voto, viajar não era uma realidade igual para todas as mulheres em 1920. As mulheres brancas gozavam de maior liberdade de participação do que as mulheres negras, que podiam votar na região norte, sem que o pudessem fazer no sul do país até 1965. Da mesma forma, as mulheres aborígenes só foram reconhecidas como cidadãs americanas em 1924 e só em 1962 é que conquistaram o pleno direito de voto em todos os estados. Por isso, quando celebrar o Dia da Igualdade da Mulher no dia 26 de agosto, lembre-se de que não é apenas a primeira vitória que é importante, é a combinação de todas elas juntas.

Em Portugal, antes da Revolução de 25 de abril de 1974, também conhecida como a Revolução dos Cravos, o Código Civil de 1966, em vigor à época, estabelecia que “o marido é o chefe de família, competindo-lhe nessa qualidade representar a esposa e decidir em todos os atos da vida conjugal comum”. Esta disposição legal supunha uma limitação dos direitos da mulher portuguesa, incluindo o direito de voto. Num passado não muito distante, a mulher portuguesa casada não podia trabalhar sem o consentimento do marido e muito menos viajar, sendo que este tinha inclusive o direito de abrir a correspondência dirigida à mulher. Para viajar para o estrangeiro sozinha, era necessário que o pai, no caso da mulher solteira, ou o marido autorizasse previamente e por escrito a saída da mulher de território nacional.

 

Esta história faz parte do projeto da National Geographic, Mulheres de Impacto, centrado nas mulheres que quebraram barreiras nas respetivas áreas, com reflexos nas suas comunidades, e inspiraram a ação. Junte-se à conversa do nosso grupo do Facebook.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com e teve o contributo da tradutora Ana Rodrigues.

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