Veja os Brinquedos Engenhosos Feitos Pelas Crianças Refugiadas

Num remoto campo de refugiados no Uganda, as crianças sul-sudanesas criam o seu próprio entretenimento a partir de lama, papel e plástico.quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Por Nina Strochlic
Fotografias Por Nora Lorek

BIDIBIDI, UGANDA – Eles ouvem o nosso carro antes de o conseguirem ver a acelerar pela estrada principal, envolto numa nuvem de poeira vermelha. A poeira é tão espessa que alguns dias mais tarde vejo uma rapariga a passar o dedo no pó e a pintar os lábios como se fosse batom. Quando estacionamos à sombra de uma árvore, as crianças estão prontas, com pequenas figuras de barro na mão, para a sua sessão fotográfica. Ao início, mostram-nos os brinquedos com algum nervosismo, mas depois fazem-no orgulhosamente. As crianças que não têm brinquedos afastam-se a correr e regressam rapidamente com bocados de barro que começam a moldar desenfreadamente em forma de carros, pernas e braços, e outras formas.

Estas crianças seriam a primeira geração a crescer num Sudão do Sul independente, se a guerra não as tivesse afastado tão repentinamente. Atualmente, já fugiram do país mais de 1 milhão de crianças, construindo novas vidas em campos de refugiados espalhados pelo Uganda e pelos países vizinhos do Sudão do Sul. Até nos locais mais remotos, as crianças aprendem a entreter-se, e para as quase 200 000 crianças a viver em Bidibidi, a maleável poeira vermelha fornece-lhes algo com que brincar.

Bidibidi, um extenso povoado no norte do Uganda, alberga um quarto de milhão de refugiados sul-sudaneses. A Zona 5 é a mais afastada da zona central do campo original e fica a mais de uma hora de distância da primeira zona onde a ONU e as organizações humanitárias têm a sua base. A aldeia 19, onde acabamos de chegar, tem quase o tamanho de Londres.

A fotógrafa Nora Lorek e eu viemos para esta aldeia para conhecer um grupo de mulheres sul-sudanesas que fazem lençóis de cama decorativos, chamados milaya, que têm desenhos de pássaros de olhos grandes, flores e árvores bordados à mão. No Sudão do Sul, as mulheres aprendem esta arte através das suas mães e avós, guardando os bordados em caixas para o enxoval ou para decorarem a casa em ocasiões especiais. Cada bordado pode demorar semanas ou meses a ser costurado, com as mulheres dobradas sobre pequenos círculos de tecido esticado e rodeadas por aros de bordar. Agora, a tarefa é feita quase por hábito ou para combater o tédio; em Bidibidi existem poucos clientes. Os milaya são usados na decoração do exterior de igrejas ou em pátios onde se fazem cerimónias fúnebres. As mães costuram enquanto as crianças vão à escola, vão buscar água ou moldam novos brinquedos para a sua coleção.

Ali por perto, Nora repara num rapaz que está a brincar com um brinquedo feito a partir de lama muito acastanhada. Enquanto ela pede para lhe tirar uma fotografia, ele posa de mão esticada a exibir o brinquedo, tendo como pano de fundo uma cabana de cores muito semelhantes. As outras crianças vêm com camiões feitos a partir de caixas do Programa Alimentar Mundial, carros feitos a partir de garrafas de plástico e vários aparelhos eletrónicos moldados em lama. Neste campo remoto, onde há muito pouco para comprar e para fazer, as crianças criam o seu próprio entretenimento.

A nossa tradutora, uma rapariga de 24 anos chamada Asha que parece conhecer metade do campo, diz-nos que ela e o irmão passavam horas a fazer brinquedos de lama quando eram crianças no Sudão do Sul. Eles moldavam meticulosamente os brinquedos apenas para os atirarem ao chão e recomeçarem tudo de novo em formas completamente diferentes. Quando ela cresceu, a mãe ensinou-a a fazer milaya, criação que ela ainda guarda: um lençol cor-de-rosa com flores roxas e amarelas ladeadas por conjuntos de folhas.

Se perguntarem aos habitantes de Bidibidi o que trouxeram consigo quando deixaram o Sudão do Sul, a maior parte dirá que atirou uns quantos pertences para um lençol, trancou a porta de casa e começou a andar. Asha conta-nos que a caminho do Uganda as crianças morriam de cansaço ou malnutrição e que os pais as enterravam sob pilhas de folhas debaixo das árvores. Quando paravam à noite para dormir, ela temia que se pudesse deitar acidentalmente em cima de uma criança morta.

Em 2011, o Sudão do Sul foi declarado o país mais novo do mundo após meio século de guerra contra o norte do Sudão. As esperanças de liberdade, conquistadas a muito custo, não duraram muito tempo. O país entrou em guerra civil em 2013 e novamente em 2016. Enfrentando um massacre, o povo fugiu para a fronteira com o Uganda. Em agosto estavam a chegar 6 000 refugiados por dia. Uma floresta densa polvilhada por aldeias de cabanas de lama transformou-se no maior campo de refugiados do mundo. Atualmente, Bidibidi está em segundo lugar em termos de dimensão, ficando apenas atrás de Cox’s Bazar no Bangladesh, com cerca de 225 000 habitantes.

No Uganda, ao contrário do que acontece em grande parte do mundo, os cidadãos temporários têm direito a trabalhar e a obter uma educação. Devido a esta progressiva política de refugiados, o campo não se parece nada com as cidades de tendas que se encontram nas crises de refugiados pelo mundo fora. As famílias vivem em agrupamentos de cabanas com pequenas culturas de milho, arroz e vegetais. A maior parte da água provém de furos; mais de metade das escolas são permanentes; clínicas de tijolo e argamassa estão a ser construídas.

Os habitantes vivem em pobreza mas em segurança. As casas estão equipadas com ajudas das ONG: um colchão fino de espuma, cadeiras de plástico e lâmpadas alimentadas a energia solar. Existe muito pouco para comprar: as bancas de mercado vendem bocados de sabão e refrigerantes mornos. Todos os extras são artesanais, mas as crianças adaptaram-se ao utilizarem o material mais abundante: terra. Agora chegamos nós para admirar a sua criatividade. Asha puxa um a um para a frente da câmara e afasta os curiosos, pois ameaçam bloquear a luz do final de tarde.

Dois dias mais tarde, as crianças ouvem novamente o nosso carro a chegar à aldeia e colocam-se em fila. Dezenas alinham-se na estrada enquanto paramos em frente a uma loja de chá. No curto espaço de tempo que levamos a recolher os nossos sacos e a abrir a porta do carro, somos bombardeadas com as suas criações mais recentes: Um homem de barro a empurrar um carrinho de mão com palitos. Uma boneca com cabelo escuro a germinar da sua cabeça. Um pequeno motociclista com capacete, agachado numa mota com as rodas presas por paus nos eixos. Um dos rapazes segura cautelosamente uma arma de barro de tamanho real para a câmara de Nora, enquanto Asha alinha os restantes atrás de si. Os miúdos apertam-se entre eles, rindo e gritando. Alguns ainda estão a dar os toques finais nas suas criações. No fim da fila está um rapaz com uma camisola axadrezada, de sorriso rasgado, que permanece atrás dos restantes enquanto agarra num bocado fresco de barro para moldar algo novo.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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