Viagem e Aventuras

Apanhe Um Comboio e Conheça o Lado Campestre e Raramente Visto da Coreia do Norte

Esta linha de comboio passa por cidades e aldeias historicamente interditadas a estrangeiros.Tuesday, January 15, 2019

Por Soo Youn
Fotografias Por Davide Monteleone
O comboio que faz a ligação entre Pyongyang e Rason atravessa uma paisagem verdejante.

Quando era criança em 1960, Mark Doran era fascinado por locomotivas a vapor. Em 1978, uma década depois de terem sido retiradas de serviço na sua Grã-Bretanha nativa, foi para a Alemanha de Leste “perseguir vapor” e também porque esta era uma “terra proibida”.

Quarenta anos mais tarde, essas paixões atraíram Doran para a Coreia do Norte – pela segunda vez. Em 2016, já tinha feito a ligação Moscovo-Ulã Bator-Pequim de comboio através da Sibéria e da Mongólia a Pyongyang.

Mas em setembro passado, o gerente reformado da British Railways fez uma viagem ainda mais obscura: de Pyongyang até à costa nordeste da República Popular Democrática da Coreia, passando por cidades e aldeias historicamente interditadas a estrangeiros.

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“Decidi que esta seria a derradeira aventura pelos caminhos de ferro”, disse Doran à National Geographic Travel.

Em setembro, o seu grupo viajou de Pyongyang para Rason, perto das fronteiras russa e chinesa. De acordo com a organização da viagem, a Koryo Tours sedeada em Pequim, esta teria sido impossível, para estrangeiros, um ano antes. (Tal como tudo o resto na Coreia do Norte, o futuro de tais viagens dificilmente está garantido e depende dos caprichos do governo.)

O turismo na Coreia do Norte ainda é muito raro, e para muitos americanos deve ser surpresa que seja sequer possível, pois estão atualmente banidos de entrar no país.

Nevoeiro cobrindo a estação de comboios de Chongjin, uma paragem no caminho de Pyongyang para Rason.

Os sul coreanos, cujo país está tecnicamente em guerra com a Coreia do Norte,  também estão proibidos, mas alguns milhares de turistas – na sua maioria europeus, japoneses, australianos, canadianos e os russos ocasionais, escolhem passar as suas férias a norte da zona desmilitarizada mais fortificada do mundo.

Os estrangeiros não têm permissão para viajar na Coreia do Norte em comboios nacionais, mas existe uma exceção: de acordo com a Koryo, um vagão-cama viaja duas vezes entre Pyongyang e Moscovo, através da “Ponte da Amizade”, na fronteira russa. No seu caminho para a Rússia, o comboio faz uma paragem terminal em Rason, que fica no canto nordeste da Coreia do Norte, onde os passageiros podem desembarcar e continuar para a Rússia ou entrar na China.

“O nosso intrépido grupo de 12 viajantes completou as 36 horas de viagem através de cenários maravilhosos, paisagens virgens e uma linha costeira fabulosa”, disse Doran.

Ao contrário de umas férias típicas, estas viagens restringem a liberdade de movimentos, ao invés de a incentivar. As visitas são monitorizadas de perto por escoltas enviadas pelo governo. Os estrangeiros veem aquilo que o regime quer.

Muitas das visitas a Pyongyang estão restritas, a prístina capital onde é permitido às elites viver. Estas visitam monumentos e fazem as refeições rodeadas de comida abundante (contrastando com os relatórios de subnutrição e de mortes em massa devido à fome). Se for um ano como 2018, os turistas podem desfrutar do impressionante Festival Arirang.

Um retrato gigante de Kim Jong-Il, o segundo líder supremo da Coreia do Norte, paira sobre o Festival Arirang, celebração comemorativa do septuagésimo aniversário do país.
Norte coreanos participando no desfile durante o Festival Arirang, que teve lugar em setembro de 2018, após um hiato de cinco anos.

Em setembro, após um hiato de cinco anos, o Festival regressou para comemorar o septuagésimo aniversário do país. “Imagine a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, mas com esteroides e vezes cem, e estará perto”, disse uma companheira de viagem britânica, Ruth Clark.

O programa, que se estende por vários dias, conta com cerca de 100 mil participantes. Trata-se de um cortejo de ginastas e bailarinos com iconografia comunista em pano de fundo, com um mosaico humano massivo executado por milhares de estudantes sincronizados, segurando e virando folhas de papel coloridas.

O comboio que atravessa os campos norte coreanos oferece a experiência oposta, diz Nicholas Bonner, fundador da Koryo, que fez a viagem em 2004 enquanto filmava State of Mind, um documentário que acompanha dois jovens ginastas treinando para o Festival Arirang. Tal é o estado de desenvolvimento da Coreia do Norte que nada mudou desde que fez aquela primeira viagem, diz.

“Sem edifícios modernos, uma das mais belas costas da Ásia Oriental”, disse Bonner. “Praias prístinas, pequenas enseadas. É uma das paisagens marítimas mais virgens que pode ver. É pobre mas deslumbrante.”

“O comboio não é propriamente um dos mais rápidos, se você caísse provavelmente conseguiria correr e saltar depressa a bordo”, brincou ele.

As linhas férreas norte coreanas ainda utilizam antigos comboios soviéticos de meados do séc. XX.
A linha entre Pyongyang e Rason rodeada, ou coberta, por flores silvestres e alinhada por flores esmeralda.

De facto, o estado das linhas férreas da Coreia do Norte é, numa palavra, “embaraçoso”, disse Kim Jong-un ao presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, quando ambos os líderes se encontraram em abril. As negociações envolviam a ligação entre os dois países por linha férrea. Em contraste, a vizinha Coreia do Sul é reconhecida internacionalmente pelo serviço de linhas férreas de alta velocidade.

O primeiro destes comboios de alta velocidade iniciou uma missão de exploração, a partir da zona desmilitarizada, no dia 30 de novembro de 2018, com engenheiros de ambos os países examinando as linhas férreas da Coreia do Norte.

Contudo, o comboio atual de Pyongyang era rudimentar. “Era um antigo comboio soviético dos anos 1950 ou 60, e creio que pouco mudou desde aí”, disse a companheira de viagem britânica, Ruth Clark, de 48 anos e gestora de relações humanas. “Mas estava asseado, as casas de banho eram mantidas limpas e tinham sempre papel, os compartimentos estavam bons, a cama estava limpa e todos conseguimos descansar.”

O vagão internacional contrastava com os nacionais, a que Doran chamava de “imundos”. Afinal de contas era uma “jornada de 34 horas, algo que soava a muito, mas o tempo passou rapidamente, havia tanto para ver do lado de fora das janelas”, disse Clark.

Não havia vagão-restaurante, mas o grupo tinha ido antecipadamente ao supermercado em Pyongyang para comprar petiscos e cerveja (sem maquinaria, esperaram que as compras fossem calculadas à mão, no livro da contabilidade).

Os passageiros do comboio viam trabalhadores norte coreanos, e acenavam. “Muitos deles, sobretudo as crianças, acenavam de volta. Podíamos ser os primeiros estrangeiros que alguma vez tinham visto”, disse Doran.

“As terras altas do interior são compostas por vales e colinas de floresta, com vistas silvestres, e progredimos por um cenário que podia ser igual em qualquer parte do mundo. Os campos cultivados e grupos de pessoas a trabalhar no exterior. A bicicleta era o principal meio de transporte nas estradas de pó, com o ocasional carro de bois. Havia tão pouco para mostrar que parecia que estávamos um século atrás e não em 2018”, concluiu.

Doran e o guia da visita, Ian Bennett, depararam-se com uma surpresa quando o comboio parou por breves momentos em Chongjin: uma locomotiva a vapor ao vivo, “uma das últimas no mundo ainda em serviço regular”, disse Doran.

Habitantes locais de Hamhung, Coreia do Norte, aguardando que o comboio passe para que possam retomar as suas jornadas.

Enquanto estrangeiros no vagão internacional, estavam isolados dos norte coreanos.

“Estávamos fechados na nossa carruagem para que não nos pudéssemos misturar com os locais”, disse Clark. “Tínhamos guardas e alguns diplomatas coreanos a partilhar a carruagem. Foi-nos permitido ir ao exterior em estações que inicialmente nos tinham sido negadas, um bónus numa carruagem que ficava muito apinhada.”  

À chegada a Rason, Doran lembrou que “existe uma ‘fronteira’ interna para prevenir a entrada de cidadãos que viajam sem autorização, portanto os nossos passaportes eram escrutinados. Muitos passageiros foram expulsos do comboio, mas nenhum do nosso grupo, já que os guardas não queriam provocar um incidente diplomático por serem demasiado severos. Eles estavam claramente mais nervosos do que nós!”

No entanto, quando chegaram a Rason, os ocidentais foram surpreendidos ao descobrirem que tinham autorização para sair e vaguear por conta própria. Rason é uma Zona Especial Económica, composta por duas cidades, Rajin e Sonbong (RAjin + SONbong = RASON), e fica perto tanto da província chinesa de Jilin, como do distrito russo Khasansky, em Krai do Litoral. Rason serviu historicamente os dois países enquanto porto marítimo de temperaturas quentes, pelo que está habituada à presença internacional.

Existe um casino que atrai visitantes chineses, apesar do jogo ser ilegal para os norte coreanos. O único mercado aberto aos estrangeiros é em Rason. Também existe uma indústria piscatória. Era suposto servir de teste experimental para o desenvolvimento da Coreia do Norte, no início dos anos de 1990, mas tal como tudo o resto, estagnou devido a tensões geopolíticas.

Apesar de tudo isso, após uma longa viagem de comboio, havia a oportunidade de vaguear sem escolta.

Um vídeo iluminando a praça central de Rason ao pôr-so-sol.

Clark decidiu fazer passeios matinais em torno da praça na zona exterior do seu hotel. “Era uma boa forma de ver a população local no seu dia-a-dia”, disse. Até foi fazer uma massagem.

Doran foi até um bar local. “A senhora do bar ficou surpreendida por me ver, e para pedir uma bebida tive de apontar para a bebida de outro cliente”, disse. Eventualmente já tinha a companhia de mais três estrangeiros para umas rodadas. “Finalmente, chegou um membro da escolta que também se juntou a nós, provavelmente para socializar, mas possivelmente para se assegurar de que não nos afastávamos demasiado.”

Houve outras interações com os habitantes locais. O grupo visitou um orfanato e uma aula de inglês para maiores de 16 anos. “Falamos sobre famílias e tempos livres, mas evitamos a política, mesmo tendo liberdade para falar sem estar a ser monitorizados”, disse Dorian.

Não se sabe ao certo qual será o futuro destas viagens de comboio.

Moon, da Coreia do Sul, diz que tem esperança em abrir duas ligações ferroviárias com o Norte até ao final do ano, de acordo com as notícias Yonhap do Sul. Pode ser puramente simbólico, dado que as sanções persistem. Contudo, talvez no futuro, os cidadãos de ambas as Coreias possam realmente conviver no comboio. Existe algo intrinsecamente idílico nos comboios, independentemente da realidade se revelar agreste.

 “Vocês podem partilhar. Vocês estão todos numa viagem. Vocês partilham comida  e sujam as coisas juntos.” Disse Bonner. “Viajar de comboio tem uma atmosfera própria e maravilhosa.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com