Sobreturismo: Algo Bom em Demasia

A expansão do turismo global não está a abrandar. O que podem os viajantes fazer para manter o equilíbrio e ajudar na sustentabilidade? quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Por Jonathan Tourtellot

Reiquejavique já não é o que era. Laugavegur, a principal rua de lojas na capital da Islândia, pertence agora ao turismo. As lojas faturam em inglês, não em islandês: Icemart, Chuck Norris Grill e uma loja de lembranças chamada “Woolcano”. Apenas uma loja de ferragens solitária sobreviveu à onda de turismo.

O termo “sobreturismo” – demasiados turistas – está a passar do jargão da indústria de viagens para o domínio geral, impulsionado por lugares famosos como Veneza, Amesterdão e Barcelona, onde em 2017 os habitantes locais exasperados mostravam cartazes a dizer “TURISTA VAI PARA CASA”.

O fenómeno é global e chegou até à gelada, e dispendiosa, Islândia – um destino relativamente recente nas listas de desejos dos viajantes. Os media de turismo aplicaram a etiqueta de “sobreturismo” não só a Reiquejavique, mas a todo o país. Por isso, quando eu regresso, após uma ausência de oito anos, fico apreensivo. Pode ser assim tão mau? Como podem os turistas fazer parte da solução e não do problema?  

Explorei a Islândia pela primeira vez como universitário recém formado em 1973, encantado pelos cenários vastos, pela cultura moderna com o seu dialeto nórdico antigo e pela sempre presente geologia vulcânica. Continuei sempre a regressar, tendo feito a minha última visita em 2010, mesmo antes da expansão do turismo. Em 2017, a Islândia atraía mas de dois milhões de visitantes anualmente – seis vezes o seu número de habitantes.

Quando é que uma maré que está a subir rapidamente se transforma num tsunami inaceitável? Para os islandeses que não estão a faturar dinheiro com o turismo – e até mesmo para os que estão – o “sobreturismo” significa perturbação nas suas vidas e nas suas cidades. “O centro de Reiquejavique está agora cheio de hotéis e casas de Airbnb”, diz a minha amiga Ingibjörg Eliasdóttir. “A baixa está fora de controlo. Os preços imobiliários subiram tanto que os estudantes já não conseguem suportar os custos de vida aqui.”

A inundação de turistas chegaria mais cedo ou mais tarde. O número de viagens internacionais feitas anualmente subiu de 25 milhões nos anos de 1950, exatamente antes da era da aviação comercial a jato ter começado, para 1.3 mil milhões em 2017. As chegadas internacionais projetam a possibilidade de se atingir os três mil milhões até 2050. No entanto, as atrações e os locais que todas estas pessoas podem visitar permanecem do mesmo tamanho.

As alegadas causas para o surto de turismo variam entre a facilidade de se atravessar fronteiras, transportadoras regionais mais baratas, companhias aéreas subsidiadas e Airbnb, que aumentam as capacidades de acomodação no destino. Contudo, se olharmos mais aprofundadamente, encontramos três tendências poderosas. Em primeiro lugar, a população da Terra quase triplicou desde 1950, altura em que o turismo em massa estava apenas a começar. Em segundo, os níveis de riqueza estão a subir mais rapidamente, sendo expectável que a classe média a nível mundial atinja os 4.2 mil milhões até 2022. Em terceiro, as mudanças tecnológicas, que vão desde sistemas de GPS aos social media, de aeronaves de fuselagem larga aos gigantescos navios de cruzeiro que transportam populações do tamanho de cidades, revolucionaram as formas de viajar.

Uma vez queixei-me a um CEO de uma das grandes linhas de cruzeiros, sobre a forma como cada barco vomitava milhares de passageiros nas confinadas ruas medievais de Dubrovnik, na Croácia. “As pessoas não têm o direito de visitar Dubrovnik?” ripostou ele. Talvez, mas quando as pessoas chegam em grupos de 3 000, isso muda profundamente um lugar.

As companhias aéreas também conseguem aumentar exponencialmente o tráfego. As ofertas de escala livre da companhia aérea Icelandair colocam diariamente centenas de turistas no circuito do Círculo Dourado, que engloba o local histórico Thingvellir, as quedas de água de Gullfoss e o géiser geotermal de Strokkur. Os primeiros dois locais são grandes o suficiente para lidarem com várias centenas de visitantes, mas o compacto géiser já dá sinais de “sobreturismo” – lixo, sobrelotação e a ratoeira de turistas sob a forma de centro comercial, logo do outro lado da estrada.

Este turismo de massas em franca expansão coloca uma ameaça real nos tesouros naturais e culturais. O desgaste de lugares fragilizados é um problema. Tal como a perturbação cultural para os habitantes locais. E os visitantes recebem uma experiência degradada.

A pressão para que se exerçam mudanças parte menos dos turistas e mais dos habitantes locais e preservadores. Os representantes de Barcelona, um dos portos de cruzeiro mais movimentados do mundo, prometeram um controlo mais apertado ao turismo de massas, ao arrendamento de apartamentos a curto prazo, à construção de hotéis e a outros desafios. Dubrovnik tem planos para restringir o número de barcos que podem aportar. Cinque Terre em Itália limitou o número de caminhantes. Amesterdão está a focar-se em técnicas de redistribuição de turistas. Na Ásia, onde o crescimento turístico é galopante, os governos fecharam ilhas inteiras para permitir a sua recuperação, como é o caso de Boracay nas Filipinas que sofre de construção em excesso, ou da atolada Koh Tachai na Tailândia. Quanto à Islândia, o governo lançou um Fundo de Proteção de Locais de Turismo, e Reiquejavique baniu as licenças de construção para novos hotéis na baixa.

Os investidores dos destinos turísticos não são os únicos que podem tomar precauções. O que pode um viajante inteligente fazer?

ADOTE UMA MENTALIDADE DE VIAGEM SENSATA

Quando chega a um local, torna-se parte desse local. Onde vai, o que faz, como gasta, com quem fala: tudo faz diferença. Encare cada compra como uma forma de voto. Na Islândia, María Reynisdóttir, do gabinete nacional de turismo, sugere que se procure pelo selo de qualidade Vakinn, sempre que for comprar lembranças ou reservar alojamento.

EVITE AS HORAS DE PONTA

Chegue aos museus e às atrações cedo, antes que cheguem as multidões. Evite também as épocas altas.

FIQUE EM CASA

Reservar uma casa no Airbnb com um anfitrião hospitaleiro pode adicionar algo à sua estadia, mas evite anfitriões que alugam várias casas, que foram compradas apenas para as estadias a curto prazo. Esta prática inflaciona o preço das propriedades, acima das capacidades dos habitantes locais.

DIGA O QUE PENSA

Fale com os serviços de turismo e diga o que pensa. Eles preocupam-se com a reputação. Coloque a sua avaliação online e diga o que pensa sobre o trabalho feito pelos destinatários na manutenção do turismo.

EXPLORE

A Terra é um lugar muito grande e ainda existe muito por visitar. Na Islândia, em agosto de 2018, eu e a minha mulher dirigimo-nos para o norte, para vermos o roteiro Arctic Coast Way, que vai abrir em junho de 2019. Aqui, longe de Reiquejavique e muito para além dos autocarros de turistas que enchem, de forma persistente, a estrada nacional Route 1, conduzimos através de fiordes tocadas por dedos de nevoeiro e montanhas decoradas por quedas de água.

Muito perto do Círculo Polar Ártico, paramos na Casa de Hóspedes Gimbur, que está vazia, excetuando nós. “Em meados de agosto termina a época”, explica a anfitriã Sjöfn Guðmundsdóttir. A relaxar na banheira de hidromassagem, a observar um pôr-do-sol duradouro, medito em algo diferente que ela disse: “Turismo lento é o meu lema.” Também pode ser o seu.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler