Viagem e Aventuras

Sobreviver à Nova Ultramaratona de Omã

Nação árabe reivindica corrida de aventura mais dura do mundo.Monday, February 11, 2019

Por Pavel Toropov

A escalada continuava sem parar, à medida que os participantes subiam na escuridão. Cada curva do trilho vertiginoso, segmentada por calcário cortante, tem vista para um vazio ameaçador. "Completamente assustador, não é?", disse um dos atletas, enquanto se tentava espremer contra a parede rochosa. Por mais tentador que fosse desistir, recuar seria muito pior do que subir. As lanternas na cabeça dos participantes iluminavam pequenos vislumbres de rochas. Então, de repente, o trilho subiu por uma fenda na parede do desfiladeiro, conduzindo a uma rampa estreita, íngreme e cheia de pedregulhos. Os atletas começaram a escalar.

Esta era a escalada de uma montanha chamada Balal Al-Sayt, com um ganho vertical de mais de 400 metros que se estende por 3 quilómetros, ponto crucial da corrida de 140 quilómetros chamada “Omã por UTMB”, uma nova ultramaratona que atravessa as Montanhas Al Hajar do Sultanato de Omã. Realizada pela primeira vez em novembro de 2018, “Omã por UTMB”, com seus quase 8 mil metros de ganho vertical, reivindicou o seu lugar como uma das corridas pedestres mais difíceis do mundo.

Nos últimos 20 anos, as ultramaratonas (corridas com mais de 40 quilómetros) tornaram-se gradualmente populares, ao mesmo tempo que as corridas trocaram o asfalto relativamente plano das cidades, por todos os outros ambientes e climas imagináveis – montanhas, desertos e selvas. Alguns eventos cresceram para mais de 160 quilómetros de extensão. Muitos organizadores de corridas ridicularizavam os trilhos “exequíveis” e, em vez disso, colocavam os seus participantes em “terrenos técnicos” – com topografias que os humanos mais sensatos atravessariam cuidadosamente ou simplesmente evitariam.

A maioria das corridas não inclui escaladas íngremes em paredes rochosas ou grampar cabos de ferro numa via-férrea. A primeira “Omã por UTMB”, realizada em novembro de 2018, incluiu esses dois desafios. A concorrente Anna-Marie Watson, do Reino Unido, vista aqui, terminou em primeiro lugar entre as mulheres. Percorreu os extenuantes 140 quilómetros em 26 horas, 20 minutos e 27 segundos.

Estas maratonas "ultra", onde os direitos de glória são medidos por "até onde" e "quão difícil", tornaram-se no desporto de eleição para os mais arrojados, aventureiros amadores e viajantes mundiais. Existem, atualmente, cerca de 20.000 ultras em todo o mundo, um número que aumentou mais de 100 vezes desde o virar do século.

As montanhas áridas e frágeis de Omã são muito diferentes dos Alpes de Chamonix, em França, lar da UTMB original, ou Ultra-Trail du Mont-Blanc, e muitos dos atletas que participaram na corrida de Omã ficaram surpreendidos por encontrar montanhas. " Antes de ver os vídeos promocionais da corrida de Omã, pensava que era apenas areia”, disse-me um dos participantes.

A geografia de Omã engloba, de facto, muito mais do que areia. Embora as paisagens clássicas do deserto árabe sejam abundantes, o país vê-se como um bastião da tradicional, ainda que tolerante, cultura árabe. É um país desenvolvido mas permanece intocado pelos petrodólares.

“Omã é autêntica - não está a tentar ser uma Manhattan no deserto. É uma nação costeira e marítima que faz trocas comercias com a China desde o séc. IX. As pessoas são maravilhosas – hospitaleiras e muito tolerantes”, disse Albert Whitley, general aposentado do exército britânico que vive em Omã há mais de 30 anos e é agora diretor executivo da Oman Sail, empresa responsável pelo desenvolvimento das atividades de turismo ao ar livre do país.

Os participantes de Omã, onde se incluíam oito soldados e o tenente Hamdan Al-Khatri, do exército de Omã – todos novatos em ultra maratonas – foram cordiais quase em excesso. Todos os soldados que passavam pela minha lanterna, no breu da noite, no leito de um rio, onde colocámos uma equipa de filmagens para captar os corredores a meio da corrida, exclamavam "Salaam alaikum", saudação árabe que significa "que a paz esteja convosco". Os participantes de outros países passavam silenciosamente.

Um participante aproxima-se do topo de Balal Al-Sayt, zona com um ganho vertical de mais de 400 metros que se estende por 3 quilómetros, e ponto crucial da corrida. Ao fundo, as impressionantes, ainda que áridas, montanhas de Al Hajar. Omã surpreendeu muitos dos participantes internacionais com o seu terreno montanhoso e com a sua cultura árabe extremamente hospitaleira e aberta a estrangeiros.

Al-Khatri disse que a “Omã por UTMB”, onde terminou em 19º, era a sua "nova conquista de vida". Os seus homens gostaram da corrida? "Talvez", respondeu. "Meus caros, eles acharam que foi muito longa e muito difícil".

Correr ainda é uma espécie de novidade para muitos omanenses. O clube Road Runners de Mascate, clube de corrida fundado na capital de Omã em 1983 por habitantes expatriados, é creditado por ter lançado as fundações da corrida amadora no país. O clube é agora liderado por um omanense e é frequentado por moradores locais, e a Maratona de Mascate anual atrai cada vez mais participantes omanenses, incluindo mulheres.

Uma delas é Nadhira Al-Harthy, uma funcionária de 41 anos. Para Al-Harthy, o apelo da corrida consiste no alívio das pressões do trabalho e da rotina familiar. “Quando comecei a correr descobri um sentimento novo. Sinto-me livre, livre de tudo.”

Al-Harthy já havia completado a Maratona de Mascate, mas na ”Omã por UTMB”, desistiu ao fim de 90 quilómetros. "Eu não estava preparada para esta escalada", disse, mas arrepende-se de ter desistido. "Agora apetece-me chorar sempre que penso que não terminei a corrida.”

Mais de metade dos 415 participantes que começaram a corrida também não terminaram. Alguns foram derrotados pelas intermináveis subidas e descidas em terrenos rochosos, mas outros que não possuíam experiência de montanha desistiram nos trilhos dos penhascos, como no trilho de Balad Al-Sayt.

"Eu chorava sempre que chegava ao topo de uma escalada", disse Gao Xidong, um dos dois finalistas do grupo de 10 corredores chineses na corrida. “Por vezes, era como correr pelo inferno.” A fotografia de Gao a cruzar a linha de chegada, com a bandeira chinesa no ar, tornou-se viral nas redes sociais.

Para criar uma experiência que fosse fisicamente desafiadora e culturalmente fiel a Omã, os organizadores delinearam uma rota que passava por caminhos antigos, agora em desuso, que já tinham servido de ligação entre aldeias das montanhas, explicou Andy McNae, antigo alpinista e atual responsável pelo evento, acrescentando que algumas das seções eram tão remotas que os helicópteros do exército omanense funcionavam como pontos de controlo na corrida.

Os atletas Diego Pazos, da Suíça, Jason Schlarb, dos Estados Unidos, e Gediminas Grinius, da Lituânia, a correrem durante a noite. Os participantes correm durante duas noites para completar este percurso desafiante. Mais de metade dos 415 participantes não terminaram a corrida.

No final, o terreno hostil ajudou a construir um espírito de entreajuda entre os participantes. O vencedor conjunto, Jason Schlarb, profissional norte-americano, terminou de mãos dadas com um dos seus principais rivais, Diego Pazos, da Suíça, depois de mais de 20 horas de corrida ininterrupta. "O Diego e eu decidimos terminar juntos, caso contrário, um de nós teria de sofrer por conta própria", disse Schlarb.

Talvez seja este o derradeiro apelo das ultras, mais valioso do que um estímulo de endorfinas, uma medalha de finalista ou um post viral no Facebook – um laço humano nascido a partir de horas e horas a "correr juntos pelo inferno".

Os organizadores já abriram as inscrições para a corrida do próximo ano.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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